Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

Seô Habão

No romance Grande Sertão: Veredas, o principal protagonista é Riobaldo, raso jagunço atirador, que depois vira chefe. O bando dele passava pelas terras de Seô Habão, fazendeiro avarento. Riobaldo observa o homem e compara a luta dos jagunços com a vida mesquinha do fazendeiro, cuja cobiça reduzia toda a criação a coisas a seu serviço.

Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos!

A vida é feita de escolhas, disse Viktor Frankl. Entre o estímulo e a resposta há um intervalo; neste intervalo, reside a liberdade de escolher a resposta; na resposta, reside a nossa felicidade.

Ao responder à vida, seô Habão escolhera a cobiça, a avareza, a mesquinharia, o dinheiro a qualquer custo. Como consequência, colheu a frieza do olhar (ele conservava os olhos sem olhar, num vagar vago, circunspecto) e colheu a frieza da voz (e ouvir ele acrescentar assim, com a mesma voz, sem calor nenhum, deu em mim, de repente, foram umas nervosias). Habão reduzia as pessoas a animais, tratava os empregados como se fossem juntas de bois em canga, criaturas de toda proteção apartadas. Cada pessoa, cada bicho, cada coisa obedecia. Nós íamos virando enxadeiros. Tudo se encaixava nos seus tristes cuidados domésticos (E ele cumpria sua sina, de reduzir tudo a conteúdo).

(A expressão “triste cuidados domésticos” é uma frase de Saint-Exupéry, no livro Terra dos Homens, para definir o curto alcance de visão e a falta de ideais.)

Zeca Pagodinho resumiu bem a influência do dinheiro na vida das pessoas “Quando você tem mais poder de grana, a religião fica um pouco de lado. Quanto mais rico, mais descrente.”

Ou, como diz o meu amigo Zé, “quando você encontrar um rico feliz, me mostre, porque eu ainda não vi nenhum”.

Rumo à caduca felicidade deste mundo, Habão se afastava da felicidade eterna. Calculava, conservava e juntava. Certamente, pensava Oh, alma minha, come, bebe e regala-te pois tens bens juntados para muitos anos.

Mas Cristo lhe diz: Habão, seu bobão, quando você morrer, os bens que juntastes, para quem ficarão?

– Esta noite darás conta da tua alma.

 

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