Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

A Cruzada Religiosa do Kremlin

“Até muito recentemente, eu acreditava que a Teologia da Libertação era apenas mais um entre tantos outros tolos projetos saídos da cabeça de Khrushchev, e que iria pelo ralo da história junto com ele. Novas revelações dos arquivos da KGB, entretanto, sugerem que a Teologia da Libertação pode ter alcançado um sucesso superior aos mais ousados sonhos de Khrushchev.”

O texto abaixo é a tradução do artigo The Kremlin Religious Crusade, do general romeno Ion Mihai Pacepa, publicado no Front Page Magazine em 30 de junho de 2009.

Ion Mihai Pacepa é oficial de mais alta patente que desertou do bloco soviético. O seu livro Red Horizons, traduzido para 27 idiomas, foi grandemente responsável pela queda de Ceausescu, ditador comunista da Romênia. A obra era tida pelo presidente Reagan como a sua “Bíblia para lidar com ditadores socialistas”. O seu mais recente livro, Disinformation: Former Spy Chief Reveals Secret Strategy for Undermining Freedom, Attacking Religion, and Promoting Terrorism, em co-autoria com o professor Ronald Rychlak, foi publicado em junho de 2013.

Pacepa vive nos EUA, sob identidade secreta.

A Cruzada Religiosa do Kremlin

Se você acha que a Rússia virou nossa amiga, é melhor reconsiderar. Não vamos gastar todo o nosso dinheiro em bem-estar e aquecimento global. Ainda precisamos nos defender contra os sonhos imperialistas do Kremlin, como mostrou a recente “eleição” do novo patriarca russo.

Há muito tempo o Kremlin usa a religião para manipular o povo. Os czares empregaram a igreja para conseguir a obediência doméstica. Os ditadores soviéticos mantiveram a população apaziguada usando a KGB, mas sonhavam com a revolução mundial. Após o front interno ter sido acalmado, encarregaram a KGB de trabalhar na igreja para ajudar o Kremlin a expandir a sua influência na América Latina e daí para outras regiões – desde Pedro, O Grande, os czares russos têm sido obcecados por encontrar um jeito de penetrar no Novo Mundo.

Uma tarefa importante da KGB durante os 27 anos nos quais pertenci a ela era criar um exército secreto de inteligência composto por  servos religiosos e usá-lo para promover os interesses do Kremlin mundo afora. Milhares destes funcionários que não concordaram em colaborar foram mortos ou enviados a gulags. Os submissos foram usados. Como os sacerdotes não podiam se tornar oficiais da KGB, assumiram a posição de oficial colaborador ou oficial disfarçado. Um colaborador recebia gratificações da KGB (promoções, viagens ao exterior, cigarros importados, bebidas estrangeiras etc.). Um oficial disfarçado recebia as mesmas gratificações, mais um salário suplementar secreto de acordo com sua classificação, real ou imaginária, na KGB. Para manter o segredo, todos os sacerdotes colaboradores ou disfarçados só eram conhecidos dentro da KGB pelos seus codinomes.

Segundo revelações recentes, a KGB continua empenhada na mesma cruzada religiosa de antes, apesar de, nesse meio tempo, ter discretamente mudado o seu nome para FSB [1] para propagar a idéia de que a criminosa polícia política soviética, responsável pela morte de mais de 20 milhões de pessoas, tinha sido dispersada pelos ventos da mudança.

Em 5 de dezembro de 2008, o patriarca russo Aleksi II morreu. A KGB o havia usado sob o codinome “DROZDOV” e o havia premiado com o seu Certificado de Honra, como mostra um arquivo da KGB acidentalmente deixado para trás na Estônia. [2] Pela primeira vez na história, a Rússia poderia eleger democraticamente um novo patriarca.

Em 27 de janeiro de 2009, o Sínodo dos 700 delegados reunidos em Moscou recebeu uma lista com três candidatos para apreciação. Todos, entretanto, pertenciam ao exército secreto da KGB: o Metropolitano Kirill de Smolensk trabalhou para a KGB sob o codinome “MIKHAYLOV”; o Metropolitano Filaret de Minsk acabou de ser identificado como tendo trabalhado para a KGB sob o codinome “OSTROVSKY”; o Metropolitano Kliment de Kaluga, descobriu-se recentemente, foi registrado sob o codinome “TOPAZ”. [3]

Quando os sinos da Catedral de Cristo Salvador em Moscou anunciaram a eleição de um novo patriarca, o Metropolitano Kirill, conhecido como “MIKHAYLOV”, surgiu como vencedor. Presumivelmente, a KGB/FSB o considerou o candidato melhor posicionado para executar as suas tarefas no exterior, para onde ele direcionou os seus esforços durante a maior parte da sua vida profissional. Em 1971, a KGB o enviou para Genebra como representante da Igreja Ortodoxa Russa no Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a maior organização ecumênica internacional depois do Vaticano, representando cerca de 550 milhões de cristãos de diversas denominações em 120 países. A sua tarefa era usar o cargo no CMI para espalhar a doutrina da Teologia da Libertação – um movimento religioso marxista nascido na KGB – por toda a América Latina. A KGB, em 1975, havia infiltrado “MIKHAYLOV” no comitê central do CMI e em 1989 também o havia indicado presidente das relações exteriores do patriarcado russo – posições mantidas quando “eleito” patriarca. Realmente, no seu discurso de posse, “MIKHAYLOV” anuncou a fundação de canais de tv religiosos na Rússia que pudessem ser assistidos no exterior.

O fato de “MIKHAYLOV” incidentemente ser um bilionário talvez tenha feito dele a pessoa ideal para o cargo pois a Rússia hoje é governada por uma cleptocracia da KGB – meu antigo colega da KGB, Vladimir Putin, sócio em reservas de gás da Rússia, se tornou um dos homens mais ricos da Europa. Por seu turno, “MIKHAYLOV” entrou no ramo de tabaco com isenção de tributos, cuja licença foi dada pelo governo de Putin – governo composto majoritariamente por oficiais aposentados da KGB. [4]

O meu primeiro contato com os esforços da KGB de usar a religião para expandir mundialmente a influência do Kremlin ocorreu em 1959. “A religião é o ópio do povo” [5] ouvi Nikita Khrushchev dizer, citando a famosa frase de Marx “então vamos dar ópio ao povo”. O líder soviético foi para Bucareste com o seu chefe de espionagem, general Sakharovsky, meu chefe de facto na época; foi este general quem criou em 1949 a Securitate, o equivalente romeno da KGB, e se tornou o seu primeiro conselheiro soviético. Khrushchev queria discutir um plano para tomar a parte ocidental de Berlin, então convertida na saída de emergência pela qual mais de três milhões de europeus orientais haviam debandado para o Ocidente.

Na época, eu atuava na Alemanha Oriental como chefe da Missão Romena e chefe da filial de inteligência romena, e, como “especialista em Alemanha”, participei da maior parte das discussões. “Nós vamos tomar Berlin”, Khrushchev nos garantiu. A sua “arma secreta” era Cuba. “Quando os ianques perceberem que estamos em Cuba, esquecerão Berlin Ocidental e nós a tomaremos também. Em seguida, usaremos Cuba como plataforma para lançar uma religião inventada pela KGB na América Latina”, região retratada por Khrushchev como uma cidadela já sitiada, prestes a se render ao Kremlin. Complicado? Sim, mas era assim que funcionava a mente dos tiranos comunistas.

Khrushchev chamou a nova religião inventada pela KGB de Teologia da Libertação. A sua inclinação por “libertação” havia sido herdada da KGB, que mais tarde criou a Organização para a Libertação da Palestina, o Exército Nacional de Libertação da Colômbia (ENL) e o Exército Nacional de Libertação da Bolívia. A Romênia era um país latino, e Khrushchev queria o nosso “parecer latino” sobre a sua nova guerra religiosa de “libertação”. Pediu também o envio de alguns dos nossos padres oficiais colaboradores ou disfarçados para a América Latina para ver como “nós” poderíamos tornar a sua nova Teologia da Libertação palatável naquela parte do mundo. Khrushchev contou com os nossos melhores esforços.

O lançamento de uma nova religião era um evento histórico, e a KGB se preparou totalmente para isso. Naquele momento, a KGB estava construindo uma nova organização religiosa internacional em Praga chamada Christian Peace Conference (CPC), cuja missão seria espalhar a Teologia da Libertação pela América Latina. Diferentemente da Europa, a América Latina daquela época ainda não havia sido contaminada pelo vírus marxista. A maior parte da população latino-americana era pobre, camponeses devotos que haviam aceitado o seu status quo. A KGB queria infiltrar o marxismo nesses países com a ajuda da Christian Peace Conference, concebida para, silenciosamente, incitar os camponeses a lutar contra a “pobreza institucionalizada”.

Nós, romenos, contribuímos com a formação da CPC fornecendo-lhes um pequeno exército de oficiais colaboradores e disfarçados. Para manter o segredo de toda a operação, também ordenamos que todas as nossas organizações religiosas envolvidas em negócios externos fôssem transformadas em entidades secretas de inteligência.

A nova CPC era subordinada ao venerável Conselho Mundial de Igrejas (CMI), outra criação da KGB, fundado em 1949 e cujo quartel-general também também estava, na época, em Praga. Como jovem oficial de inteligência, eu trabalhei para o CMI, e mais tarde coordenei as suas operações na Romênia. Ele era tão KGB como ainda é. Em 1989, quando a União Soviética estava à beira do colapso, o CMI admitiu publicamente que 90% do seu dinheiro vinha da KGB. [6]

O WPC publicava um periódico em francês, o Courier de la Paix, impresso em Moscou. A Christian Peace Conference publicava um periódico em inglês, o CPC INFORMATION, editado pela KGB, que apresentava o CPC ao mundo como uma organização ecumênica global preocupada com os problemas de paz. A missão oculta da CPC era, entretanto, incitar o ódio contra o capitalismo e contra a sociedade de consumo por toda a América Latina, e espalhar a Teologia da Libertação na região.

Até muito recentemente, eu acreditava que a Teologia da Libertação era apenas mais um entre tantos outros tolos projetos saídos da cabeça de Khrushchev, e que iria pelo ralo da história junto com ele. Novas revelações dos arquivos da KGB, entretanto, sugerem que a Teologia da Libertação pode ter alcançado um sucesso superior aos mais ousados sonhos de Khrushchev.

Em 1968, a CPC, criada pela KGB, conseguiu colocar um grupo de bispos sul-africanos esquerdistas no comando da Conferência de Bispos Latino-Americanos em Medelin, Colômbia. A tarefa oficial da Conferência era amenizar a pobreza. O seu verdadeiro e não declarado objetivo era reconhecer novos movimentos religiosos que encorajassem os pobres a se revoltar contra a “violência institucionalizada da pobreza” e recomendar a aprovação oficial deste objetivo ao Conselho Mundial de Igrejas. A Conferência de Medelin fez as duas coisas. Também engoliu o nome “Teologia da Libertação” nascido na KGB.

A Teologia de Libertação foi então formalmente introduzida no mundo pelo Conselho Mundial de Igrejas. Descobertas recentes mostram que um exército inteiro de oficiais colaboradores e disfarçados da KGB foram enviados de Moscou para ajudar. [7] Seguem abaixo alguns excertos dos documentos originais da KGB conhecidos como Arquivo Mitrokhin (descrito pelo FBI como o mais completo e extenso arquivo de inteligência jamais recebido de qualquer fonte), e documentos do Politburo liberados pelo Padre Gleb Yakumin, vice-presidente da comissão parlamentar russa responsável por investigar a manipulação da igreja pela KGB.

Agosto de 1969: os agentes “Svyatoslav”, “Adamant”, “Altar”, “Magister”, “Roschin” e “Zemnogorskiy” foram enviados pela KGB à Inglaterra para participar dos trabalhos do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas. A agência [KGB] conseguiu frustrar atividades hostis [contra a Teologia da Libertação] e o agente “Kuznetsov” conseguiu penetrar na diretoria do CMI.

“ADAMANT”, líder deste grupo de ataque da KGB, era o Metropolitano Nikodim. “KUZNETSOV” era Aleksey Buyevsky, secretário leigo do departamento de relações exteriores do patriarcado chefiado por Nikodim.

Fevereiro de 1972: os agentes “Svyatoslav” e “Mikhailov” foram à Nova Zelândia e Austrália para participar de sessões do Comitê Central do CMI.

Como antes dito, ‘MIKHAYLOV” é Kirill, hoje o novo Patriarca da Rússia.

Julho de 1983: 47 agentes de órgãos da KGB, incluindo autoridades religiosas, clérigos e técnicos da delegação da União Soviética, foram enviados a Vancouver (Canadá) para a 6a Assembléia Geral do CMI.

Agosto de 1989: o Comitê Central do WCC organizou uma sessão especial da perestroika… Hoje, a agenda do CMI é também a nossa agenda. [8]

O Arquivo Mitrokhin, contendo cerca de 25 mil páginas de documentos altamente confidenciais da KGB, representa uma parte infinitesimal de todo o arquivo, estimado em 27 bilhões de páginas (a Stasi da Alemanha Oriental tinha 3 bilhões). Se algum dia este arquivo for realmente aberto sem ser higienizado, contará toda a verdadeira e arrepiante história.

Em 1984, o Papa João Paulo II encarregou a Congregação para a Doutrina da Fé, chefiada pelo cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, de preparar uma análise sobre a Teologia da Libertação. O devastador estudo expôs a Teologia da Libertação como uma combinação de “luta de classes” e “violento marxismo”, desferindo-lhe um sério golpe.

A Teologia da Libertação criada pela KGB está, entretanto, lançando raízes na Venezuela, Bolívia, Honduras e Nicarágua, países cujos camponeses apoiam as tentativas dos ditadores marxistas Hugo Chavez, Evo Morales, Manuel Zelaya (no momento exilado na Costa Rica) e Daniel Ortega de transformar os seus países em ditaduras policiais estilo KGB. Poucos meses atrás, Venezuela e Bolívia expulsaram os embaixadores americanos na mesma semana, e pediram proteção militar para a Rússia. Navios de guerra e bombardeiros russos estão de volta a Cuba – e agora na Venezuela – pela primeira vez desde a crise dos mísseis. O Brasil, a décima economia do mundo, parece estar seguindo a mesma trilha sob o comando do seu presidente marxista, Lula da Silva, criador, em 1980, do Partido dos Trabalhadores, um clone do comunista Partido Trabalhista da Romênia. Com a recente incorporação da Argentina – cuja presidente atual, Christina Fernandez de Kirchner, está também movendo o país na direção do rebanho marxista –  o mapa da América Latina parece majoritariamente vermelho.

Quando a Teologia da Libertação foi lançada no mundo, a KGB era um estado dentro do estado. Hoje, a KGB é o estado. Mais de seis mil dos seus antigos oficiais são membros dos governos russos federal e local, e 70% dos políticos russos se relacionam, de um jeito ou de outro, com a KGB. [10]

Logo após ter mudado o seu quartel-general para o Kremlin, a “nova” KGB/FSB decidiu enviar armas nucleares para a teocracia anti-americana que governa o Irã. Ao mesmo tempo, centenas de técnicos russos começaram a ajudar os mullahs iranianos a desenvolver mísseis de longo alcance capazes de transportar ogivas nucleares ou ogivas contendo armas bactereológicas até qualquer ponto do Oriente Médio ou da Europa. [11]

A velha manipulação da religião pela KGB hoje se tornou uma letal política externa russa.

[1] Federalnaya Sluzhba Bezopasnost, the Federal Security Service of the Russian Federation.
[2] Seamus Martin, “Russian Patriarch was KGB agent, Files Say,” The Irish Times, September 23, 2000 as published on http://www.orthodox.net/russia/2000-09-23-irish-times.html.
[3] “Russian Orthodox Church chooses between ‘ex-KGB candidates’ as patriarch,” Times Online, January 26, 2009. Christopher Andrew and Vasily Mitrokhin, The Mitrokhin Archive and the secret history of the KGB, (New York, Basic Books, 1999).
[4] Patriarch Kirril (Gunialev), http://www.russia-ic.com/people/general/328/
[5] Karl Marx, Contribution to Critique of Hegel’s Philosophy of Right, 1843, which was subsequently released a year later in Marx’s own journal Deutsch-Französische Jahrbücher, a collaboration with Arnold Ruge.
[6] Herbert Romerstein, Soviet Active Measures and Propaganda, Mackenzie Institute Paper no. 17 (Toronto, 1989), pp. 14-15, 25-26. WPC Peace Courier, 1989, no. 4, as cited in Andrew and Gordievsky, KGB, p. 629.
[7] “Manipulation of the Russian Orthodox Church & the World Council of Churches,” as punlished on http://intellit.muskingum.edu/russia_folder/pcw_era/sect_16e.htm.
[8] New Times (undercover magazine of the KGB published in English for Western consumption), July 25-31, 1989 issue.
[9] “Liberation Theology by Joseph Cardinal Ratzinger,” Ratzinger Home Page, as published on http://www.christengom-awake.org/pages/ratzinger/liberationtheol.htm.
[10] According to Gary Kasparov, “KGB State,” half of the Russian governmental positions are held by former KGB officers. The Wall Street Journal, September 18, 2003, found at http://online.wsj.com/article_print/0,,SB10638498253262300,00.html.
[11] William Safire, “Testing Putin on Iran, The New York Times, May 23, 2002, internet edition.

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