Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

Cretino demais

Marciano chegou faz pouco tempo. Não sei de onde veio, talvez de outro tempo, talvez de outro lugar. Marciano olha e não entende, quanto mais observa mais fica confuso.

Observa as pessoas mais privilegiadas pela fortuna, aos quais chamam líderes, e fica ainda mais apatetado. Nas rodas políticas, intelectuais, empresariais e religiosas, nota que na maior parte das vezes a definição de bem comum vai perdendo força à medida que o líder se aproxima do topo da pirâmide.

O abonado se sente um ser diferente, merecedor da sorte que a vida lhe deu, acha tudo muito justo, afinal, uma homem como ele só nasce de vez em quando, muito de vez em quando. O único mal do mundo são os rebeldes que não pensam como ele e ainda não o obedecem nem o seguem. Sim, a vida é muito justa, ele merece tudo isso e muito mais, todos estão aí para servi-lo.

Livre de escrúpulos morais, o líder típico da nossa sociedade tem uma máxima: “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. Odeia o conhecimento porque este o aproxima da verdade. Prefere a ignorância criminosa à virtude libertadora. Olha com desprezo e inveja a quem adquiriu a verdadeira sabedoria; a inveja manifesta-se, não na tentativa de superar o outro, mas no jogo sujo de derrubar o oponente abaixo de si para ter o prazer secreto de ver o outro em situação abaixo à dele – não quer superar, quer rebaixar, pois conhece a sua incapacidade.

Marciano constata uma quase norma: quanto mais poder tem uma pessoa, mais insano se torna. Buscando a explicação para tão bizarra lei, escuta as conversas, lê os livros, estuda a arte. Vendo um filme, acredita ter compreendido um pouco mais a essência da alma humana.

Em Profumo di donna, Vittorio Gassman interpreta um capitão cego, sarcástico e voluntarioso. Num diálogo, expressa com clareza o princípio regedor do bizarro comportamento dos afortunados. Conversando com um amigo, Vicenzo, também cego, o Capitão diz, a respeito de um coronel, conhecido dos dois:

– Vicenzo, a nossa desgraça não é completa. Antes cego do que cretino, como este coronel. Aliás, cretino demais para ser só coronel.

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