Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

Vá aonde o seu coração mandar

Querida neta

Antes de mais nada, preciso esclarecer o motivo pelo qual estou escrevendo esta carta, já que, na nossa despedida, você me pediu para não entrar em contato. Você foi para longe, numa viagem de prazo indeterminado e longo, e, quando você voltar, talvez eu já não esteja mais aqui. Acontece que dias atrás tive um pirepaque, fui hospitalizada e o médico disse que posso embarcar a qualquer momento. Fique tranquila, esta carta não será postada; não quero que você se sinta obrigada a voltar para casa para cuidar de uma velha de quase cem anos. Também não achei correto deixar de escrever pois, no seu retorno, talvez encontrasse a casa vazia e ficasse triste por eu ter partido sem me despedir. Esta carta estará aqui, na casa deserta, aguardando a sua volta.

A nossa relação, nos últimos tempos, não foi das mais tranquilas. Afinal, já se tornou chavão dizer que os adolescentes são rebeldes e você, que cresceu sem o carinho de mãe e sem conhecer o pai, criada pela avó, tem mais motivos ainda para se sentir renegada. Esta carta é uma explicação, uma tentativa de explicar o que foi a minha vida e é também um legado a você, para que não cometa os erros que eu cometi.

Peço a você que não me julgue. Evite julgar os outros e, principalmente, evite julgar a você mesma, no sentido de se condenar. Vi passar, diante de mim, quase o século XX inteiro, vi guerras e ideologias de ódio. Na minha época, o casamento era por conveniência, havia muita hipocrisia. Por isso, a sua mãe veio ao mundo fora do matrimônio, veio do único homem que realmente amei. Na época da sua mãe, de contestações, de maio de 68 e do sexo livre, você veio ao mundo sem pai; mesmo se quiséssemos, seria quase impossível descobrir quem era. Mas toda vida, seja qual for, vem de um ato de amor, do Amor Criador.

Por isso, não julgue os outros, não julgue a si mesma. Antes, busque, dia e noite, a sinceridade na sua vida; persiga, incansavelmente, a verdade; ouça sempre a voz da sua consciência. Já ouvi muitas explicações do comportamento humano comparando o homem aos animais. Estas comparações não podem ser feitas porque o homem não é um animal como os outros. Tem um rosto que o diferencia de todos os outros rostos, uma alma que é diferente de todas as outras almas. A raposa disse ao Pequeno Príncipe (lembra? O seu livro predileto!): “Se tu me cativas, conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros”. O homem tem uma individualidade, um rosto, uma consciência moral, que, devido à sensibilidade, muitos chamam de coração.

Esta é a minha herança, o tesouro que deixo para você, o meu aprendizado: ouça sempre a voz da sua consciência clamando pelo bem, siga sempre a voz do seu coração.

Da sua avó, que muito te ama.

*

Texto baseado no livro “Vá aonde o seu coração mandar”, de Susanna Tamaro.

***

2 Respostas para “Vá aonde o seu coração mandar

  1. R. 13/01/2014 às 18:01

    Esse livro é maravilhoso!

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