Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

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Tuma Júnior no Roda Viva

O próximo programa Roda Viva, da TV Cultura, terá como convidado Romeu Tuma Júnior, autor do livro Assassinato de Reputações. Segunda-feira, dia 3, às 22h.

Não deixe de ler a resenha do livro elaborada por Félix Maier.

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A elegância do ouriço

“Meu nome é Renée e tenho cinquenta e quatro anos. Há vinte e sete sou a concierge, a zeladora de um belo palacete da Rue de Grenelle, prédio com oito apartamentos de alto luxo. Sou viúva, baixinha, feia e gordinha. Não estudei, sempre fui pobre, discreta e insignificante. Vivo sozinha com meu gato, um bichano gordo e preguiçoso. Gosto de ver filmes, de ouvir música clássica e adoro literatura russa. Para os moradores, não passo de uma empregada inculta e desprezível, e é bom que seja assim. Não faço questão que me conheçam como sou. Ninguém conceberia uma concierge dedicada ao estudo da filosofia alemã. De vez em quando, descuido e deixo escapar alguma frase inteligente, mas sempre sou salva pela incapacidade dos seres humanos de acreditar naquilo que explode as molduras de seus mesquinhos hábitos mentais.”

“Meu nome é Paloma, tenho doze anos e moro na Rue de Grenelle. Meus pais são ricos, minha família é rica. Vivemos entre a hipocrisia e a vaidade. Sou excepcionalmente inteligente e, mesmo comparada com os adultos, sou muito mais esperta que a maioria deles. Não me orgulho disso, porque não é mérito meu. Na verdade, procuro esconder a minha inteligência e a minha sensibilidade tratando as pessoas com agressividade. Sou fã da cultura japonesa, estudo japonês no colégio e adoro mangás. Em breve vou sair da infância e, apesar da certeza de que a vida é uma farsa, não creio que conseguirei resistir até o fim. Por isso já tomei uma decisão: no dia do meu aniversário de treze anos, vou colocar fogo no apartamento, ingerir um monte de remédios que venho pegando escondida de mamãe e vou me suicidar.”

Neste pequeno universo de luxo e ostentação, um novo morador veio causar alvoroço. O senhor Kakuro Ozu, de 60 anos, chamou a atenção de todos por ser extremamente rico, extremamente culto e extremamente atencioso. Fino observador, logo fez amizade com a menina Paloma, impressionada por ver de perto um japonês de verdade. O novo vizinho trouxe, na mudança, dois gatos cujos nomes foram tirados de um romance russo – e assim conseguiu surpreender e cativar Renée. O perspicaz japonês logo percebe, em ambas, a beleza e a delicadeza escondidas por trás do comportamento frio e autodestruidor. A sagacidade de Kakuro permite às duas heroínas descobrirem, nelas e nos outros, qualidades até então ocultas. E, com elas, o leitor.

Conheça toda a história no livro “A elegância do ouriço”, de Muriel Barbery, romance francês de 2006.

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“O francês é o povo mais inteligente do mundo” (Gustavo Corção)

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“A França ainda é o principal país gerador de idéias” (Olavo de Carvalho)

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Vá aonde o seu coração mandar

Querida neta

Antes de mais nada, preciso esclarecer o motivo pelo qual estou escrevendo esta carta, já que, na nossa despedida, você me pediu para não entrar em contato. Você foi para longe, numa viagem de prazo indeterminado e longo, e, quando você voltar, talvez eu já não esteja mais aqui. Acontece que dias atrás tive um pirepaque, fui hospitalizada e o médico disse que posso embarcar a qualquer momento. Fique tranquila, esta carta não será postada; não quero que você se sinta obrigada a voltar para casa para cuidar de uma velha de quase cem anos. Também não achei correto deixar de escrever pois, no seu retorno, talvez encontrasse a casa vazia e ficasse triste por eu ter partido sem me despedir. Esta carta estará aqui, na casa deserta, aguardando a sua volta.

A nossa relação, nos últimos tempos, não foi das mais tranquilas. Afinal, já se tornou chavão dizer que os adolescentes são rebeldes e você, que cresceu sem o carinho de mãe e sem conhecer o pai, criada pela avó, tem mais motivos ainda para se sentir renegada. Esta carta é uma explicação, uma tentativa de explicar o que foi a minha vida e é também um legado a você, para que não cometa os erros que eu cometi.

Peço a você que não me julgue. Evite julgar os outros e, principalmente, evite julgar a você mesma, no sentido de se condenar. Vi passar, diante de mim, quase o século XX inteiro, vi guerras e ideologias de ódio. Na minha época, o casamento era por conveniência, havia muita hipocrisia. Por isso, a sua mãe veio ao mundo fora do matrimônio, veio do único homem que realmente amei. Na época da sua mãe, de contestações, de maio de 68 e do sexo livre, você veio ao mundo sem pai; mesmo se quiséssemos, seria quase impossível descobrir quem era. Mas toda vida, seja qual for, vem de um ato de amor, do Amor Criador.

Por isso, não julgue os outros, não julgue a si mesma. Antes, busque, dia e noite, a sinceridade na sua vida; persiga, incansavelmente, a verdade; ouça sempre a voz da sua consciência. Já ouvi muitas explicações do comportamento humano comparando o homem aos animais. Estas comparações não podem ser feitas porque o homem não é um animal como os outros. Tem um rosto que o diferencia de todos os outros rostos, uma alma que é diferente de todas as outras almas. A raposa disse ao Pequeno Príncipe (lembra? O seu livro predileto!): “Se tu me cativas, conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros”. O homem tem uma individualidade, um rosto, uma consciência moral, que, devido à sensibilidade, muitos chamam de coração.

Esta é a minha herança, o tesouro que deixo para você, o meu aprendizado: ouça sempre a voz da sua consciência clamando pelo bem, siga sempre a voz do seu coração.

Da sua avó, que muito te ama.

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Texto baseado no livro “Vá aonde o seu coração mandar”, de Susanna Tamaro.

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Assassinato de Reputações

Não deixe de ver o hangout de Lobão, Romeu Tuma Jr e Cláudio Tognolli de 22 de dezembro de 2013.

Em pauta, o livro de “Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado”, sobre o estado policial petista no qual estamos vivendo. Alguns capítulos da obra:

– Lula: alcaguete e aprendiz do Dops

– Assassinando reputações – PT: Encomendas para fulminar adversários e inimigos

– Toda a verdade do caso Celso Daniel

– As provas do grampo ilegal contra os ministros do STF

E, além disso, Tuma Jr desmascara a trama construída em torno dele para retirá-lo da Secretaria Nacional de Justiça.

Compre logo o seu exemplar, estude-o bem e venha para a luta. Precisamos restabelecer a decência em nosso país.

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Livros de 2013

O livro caindo n’alma,
é germe que faz a palma,
É chuva que faz o mar.
– Castro Alves

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O ano começou bem, muito bem, com o lançamento de Maquiavel Pedagogo – ou o ministério da reforma psicológica –, de Pascal Bernardin, obra que chegou com atraso de 18 anos, mas antes tarde do que nunca. O livro mostra como as mais perversas técnicas de manipulação psicológica, usadas no sistema educacional, na mídia de massa, na gestão de empresas e no controle social, estão nos conduzindo a uma sociedade totalitária. Leia urgentemente este livro para saber como estão enganando você.

No cenário internacional, o velho general Ion Mihai Pacepa, do alto dos seus 85 anos de vida e do seu posto avançado e bem camuflado, continua mandando bala. Lançou em junho Disinformation: Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom, Attacking Religion and Promoting Terrorism, escrito em coautoria com o professor Ronald J. Rychlak. O comunismo não morreu, não, está se fazendo de morto para assaltar o coveiro.

E, por falar em combate, a editora Molokai, veio para a luta. Iniciativa do professor de karatê José Alberto de Siqueira Campos, chegou para ajudar a preencher a lacuna de décadas de atraso no mercado editorial brasileiro. Pertence à Molokai a famosa “Terapia das Doenças Espirituais” do Padre Paulo Ricardo, outro faixa-preta na guerra cultural.

Em meio às polêmicas sobre as biografias, o incansável Lira Neto lançou o segundo volume da trilogia sobre Getúlio Vargas, edição com elogios dos ex-presidentes FHC e Lula estampados na quarta capa. Isso já mostra o peso da obra. Goste ou não do trio, não deixe de ler este livro porque, como diz o History Channel, você precisa saber onde está. Aproveite para comprar logo o seu exemplar antes que seja proibido pelo fantasma de Getúlio – não estou brincando não, já há precedentes na ressurreição de presidentes da república são-borjenses.

E, falando em presidentes, compre também o Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado, de Romeu Tuma Júnior. O livro mostra os meandros do estado policial petista e, de quebra, diz que Lula (apelidado de “Barba”) foi um informante (“ganso” no jorgão policial) da ditadura. Serão ambos convocados pela Comissão da Meia Verdade?

O melhor de 2013, entretanto, foi o novo arrasa-casamatas de Olavo de Carvalho, organizado por Felipe Moura Brasil: O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Ou O mínimo que você precisa saber para não ser feito de trouxa. Ou Manual anti-loucura. A frase inicial é emblemática: “Se você não é capaz de tirar de um livro consequências válidas para a sua orientação moral no mundo, você não está pronto para ler este livro”. Parafraseando Bruno Tolentino, pelo simples fato de poder ler Olavo no original, já vale a pena ter nascido brasileiro.

No Ano Novo, desejo a você, cara leitora, caro leitor, um feliz livro novo!

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No Trono do Amon Hen

Com O Anel no dedo, Frodo corria colina acima, deixando para trás Boromir e o seu cego desejo de se apoderar da jóia. Como o Pomo da Discórida, O Anel lançara a intriga, a inveja e a ambição no seio da Confraria dos Nove. Cansado, chegou ao topo do Amon Hen e sentou-se no Trono da Visão, na Colina do Olho dos homens de Númenor. Viu muitas imagens e, por todos os lados, sinais de guerra, orcs saindo de mil tocas, lutas entre elfos e homens e animais cruéis, cavaleiros galopando em Rohan, navios de guerra saindo dos portos de Harad; todo o poder de Senhor do Escuro estava em ação. O seu olhar foi atraído para o leste, contra a sua vontade, passando por pontes arruinadas e portões escancarados, chegando até o vale do terror em Mordor e então ele viu a temida Barad-dûr, a fortaleza de Sauron, e de repente, sentiu a presença do Olho que nunca dormia. Frodo sabia que ele tinha percebido o seu olhar. O Olho saltou, ávido e ferroz, à procura dele, e vinha, inexoravelmente, avançando reino por reino, amurada sobre amurada, logo saberia exatamente onde ele estava. Ouviu a si mesmo dizendo “Nunca, nunca!” ou seria “Sim, irei até você”?

Entretanto, como um relâmpago, outro pensamento veio-lhe à mente: “Tire-o! Tire-o! Tire O Anel!” As duas forças, o mal e o bem, lutavam dentro dele.

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Vinha chegando o Natal, e duas forças lutavam dentro de José. O seu amor por Maria o retinha, a inexplicada gravidez o encucava. Não duvidava da sinceridade de Maria, mas não podia aceitar um filho que não era seu. Após muito refletir, revolvera abandonar a sua amada, atitude que marcaria Maria como uma mulher estigmatizada e jogaria a culpa sobre ele, tornando-o, aos olhos do povo, um desertor, um crápula incapaz de arcar com a responsabilidade. Já estava decidido quando um anjo lhe apareceu num sonho e esclareceu a situação. O anjo fez mais ainda, deu instruções precisas sobre a sua missão: “Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus”.

Os fatalistas quererão minimizar a importância de José dizendo que ele foi obrigado a fazer isto, como Maria foi obrigada a ser Mãe de Deus, como nós somos obrigados a fazer o que fazemos, não temos escapatória, nem poder de decisão, nem possibilidade de fazer o bem nem o mal, as coisas simplesmente acontecem, somos condicionados pelas circunstâncias, não existe liberdade, só o determinismo cego.

Nosso Senhor Jesus Cristo, porém, define as coisas de outra maneira. No julgamento final, seremos separados à sua direita e esquerda, condenados ou conduzidos à glória, segundo as decisões que tenhamos tomado. “Tive fome, e Me destes de comer, …” E perguntaremos “Senhor, quando isto aconteceu?”

“Tudo o que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes.”

Somos nós quem decidimos entre fazer o bem ou permanecer indiferentes à desgraça alheia – a indiferença, a grande inimiga do amor, exatamente o oposto da caridade, a frieza do coração, muito pior do que o ódio mais impenitente. O bem que deixamos de fazer só será conhecido no fim dos tempos, e nos envergonhará muito mais do que o mal que porventura tivermos feito, porque nem para isto – para fazer o mal – temos força.

José podia ter dito não, como nós muitas vezes dizemos. Mas, sendo justo, acordou do angélico sonho e fez como lhe ordenara o anjo.

*

– Tire-o! Tire-o! Tire-o, tolo! Tire O Anel!

E Frodo, tomando consciência de quem era, lembrou que era livre, era o dono do seu destino, e que tinha, ainda, um último instante para exercer a sua liberdade. Tirou O Anel. Uma sombra negra passou por ele, tateando na direção do oeste. Tomado de grande cansaço, mas com disposição firme, falou em voz alta:

– Agora, farei o que devo fazer.

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Lições de Abismo

Hoje Gustavo Corção faria aniversário. Nasceu em 1896, no Rio de Janeiro, e lá morreu em 6 de julho de 1978. Engenheiro, foi ele quem acendeu a iluminação do Cristo Redentor quando o sinal enviado por Marconi falhou. Publicou o seu primeiro livro, A Descoberta do Outro, aos 48 anos de idade – por coincidência, a mesma idade em que Olavo de Carvalho publicou O Imbecil Coletivo. Dentre os seus livros mais conhecidos estão Dois Amores Duas Cidades, O Século do Nada e o romance Lições de Abismo.

O que mais impressiona na obra de Corção não é a solidez de pensamento, nem o lirismo, nem a busca pela verdade. É o fato de que foi relegado ao esquecimento pela intelligentsia nacional e a importância do seu pensamento só se iguala ao esforço feito por seus inimigos para enterrá-lo. Os seus livros tornam-se cada vez mais raros.

Lições de Abismo foi traduzido para o inglês, alemão, italiano, holandês e polonês. Um homem com uma doença incurável e pouco prazo faz reflexões sobre a vida. Rememora o romance de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra, no qual o líder da equipe obriga um dos membros da expedição a subir à torre de uma igreja em Hamburgo para perder o medo de altura. A este exercício, o chefe dá o nome de “lições de abismo”.

“Eu também vou fazer uma viagem ao centro da terra, embora menos interessante que a do sábio hamburguês. Minha penetração na crosta do planeta se deterá a dois menos de fundo, nessa superficialíssima camada sem nenhum interesse geológico ou paleontológico.”

“E a mim, quem me dará lições de abismo?”

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O Anel, para todos dominar

JRR Tolkien criou um mundo fantástico, com homens e elfos, anões e magos, orcs e trolls, ents e hobbits. Isto foi há muito tempo, quando a terra ainda era jovem. Os elfos inventaram o fabrico dos anéis de poder e Sauron fingiu amizade para se aproximar deles, aprender o ofício e usá-lo para o mal.

Sauron elevou esta arte à perfeição e criou O Anel, o mais poderoso de todos, para dominar os povos e nas trevas os reter. Numa decisiva batalha, o Senhor do Escuro foi derrotado e perdeu o seu precioso anel. A trilogia O Senhor dos Anéis é a história da luta de Sauron para recuperá-lo. Na sua estreita perspectiva, Sauron calcula que Frodo, o hobbit portador d’O Anel, vai usar a jóia para acumular poder e derrotá-lo. Não passa pela cabeça do déspota que alguém pode agir pelo bem comum e abrir mão da paixão pelo domínio.

Frodo, assistido pelo sábio mago Gandalf, sabe que O Anel é perigoso, representa a tendência humana de querer dominar os semelhantes; representa o egoísmo, as mais baixas paixões. Sabe que quem o usar por muito tempo acabará sendo dominado por ele e aos poucos se tornará tão mal quanto Sauron. A única solução é destruir O Anel lançando-o no Vulcão da Condenação, no coração do reino inimigo, onde foi forjado; só este vulcão tem capacidade de destruir a jóia. Alguns acreditam que o fogo dos dragões podia destruir O Anel; segundo Gandalf, entretanto, nem mesmo Ancalagon, O Negro – o mais poderoso dos dragões – seria capaz disso. Mas esta discussão era inútil, pois os dragões já haviam sido extintos.

Esta fantástica história é uma metáfora sobre a vontade humana de dominar os semelhantes, cristalizada pelos regimes socialistas, que querem submeter os povos e nas trevas os reter. Foi escrita numa época em que o marxismo grassava, pregando o ódio contra Deus. Mais de século e meio após O Manifesto Comunista, os podres frutos do comunismo são o Ocidente cambaleante, a Igreja aos cacos e mais de 100 milhões de mortos. O socialismo, por sua vez, vai bem, muito bem, este monstro frio avança cada vez mais sobre nós. Agora, mata menos no paredão e mais nas clínicas de aborto.

Uma das últimas frases de Frodo no livro é o resumo da saga e, ao mesmo tempo, um norte para nós que desejamos lutar e não nos conformamos com a escravidão. Quando Frodo avisa Sam, o seu companheiro de aventuras, que vai partir para sempre para além dos Portos Cinzentos, ouve do amigo esta queixa: “Depois de tudo pelo que você passou, pensei que fôsse desfrutar da nossa companhia e das coisas pelas quais lutou”.

Frodo respondeu:

– Às vezes há de ser assim quando as coisas estão em perigo: alguém tem que abrir mão delas, arriscar mesmo perdê-las, para que outros possam usufruí-las.

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Eu queria decifrar as coisas que são importantes

Hoje faz 46 anos que Guimarães Rosa nos deixou. Lembrou-me uma passagem de Grande Sertão: Veredas…

“Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!

“Sendo isto. Ao doido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas, veredazinhas.”

Neste trecho, está a explicação do título do romance.

“Eu queria decifrar as coisas que são importantes” diz Riobaldo. É uma frase-irmã à da Samaritana: “Quando vier o Cristo, Ele nos explicará todas as coisas”.

A “gã que empurra a gente” é uma referência a São Paulo: “É Deus quem opera em nós o querer e o agir”.

“A gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!” lembra Santo Agostinho “Eu Te procurava longe e Tu estavas perto; eu Te procurava fora e Tu estavas dentro. Quão tarde Vos conheci, Formosura tão nova e tão antiga. Quão tarde Vos conheci, e amei”.

“Lhe falo do sertão. Do que não sei.” o sertão é o desconhecido, é O Desconhecido, é Deus: “Ninguém conhece o Pai” disse Cristo.

“Só umas raríssimas pessoas”, como raríssimos são os homens que conhecem o Pai, raríssimos são os santos – “Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.

“E só essas poucas veredas, veredazinhas” – os santos são as veredas, são quem fertiliza o sertão, são quem fertiliza a humanidade.

O Grande Sertão é Deus; as Veredas são os santos.

Bem mineiramente, Guimarães Rosa não explicou o título do romance. Vamos ficar sem ter a explicação do genial escritor. Aliás, de acordo com Carlos Drummond de Andrade, em versos compostos dois dias após a morte do amigo, nem mesmo sabemos se ele existiu:

“Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.”

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Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental

O Papa Francisco tem pedido reiteradamente aos católicos que saiam às ruas, deixem a comodidade em casa e partam à procura do irmão necessitado, levando-lhe a caridade e a ciência do amor de Cristo.

A Igreja, entretanto, desde há muito está na posição defensiva, acuada por uma gigantesca mentalidade anti-cristã propagada pela mídia de massa, pelo sistema educacional e pela indústria cultural. Para o católico ir à luta é necessário estudar e estar preparado para dar, a quem pedir, a razão da sua esperança.

Para isso, nada melhor do que o livro Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, de Thomas E. Woods, um dos mais importantes livros já publicados no Brasil.

O título é auto-explicativo: a Igreja criou a Universidade, as mais belas artes plásticas (com destaque para a arquitetura e sua máxima realização: a catedral medieval), os conceitos básicos da economia moderna (leia-se riqueza sem precedentes), o Direito (nascido do Direito Canônico), as instituições de assistência (dos hospitais à previdência) e as condições para o desenvolvimento da ciência moderna.

Além disso, configurou os padrões morais ocidentais por meio da idéia da sacralidade da vida humana e do valor único de cada pessoa – Cristo “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).

Sem deixar de lado a herança greco-romana e de outros povos, a Igreja soube incorporar as valiosas contribuições destas culturas para criar uma civilização cujos frutos são nomes como São Bento (pai da Europa), Giotto (precursor da Renascença), Dom Perignon (criador do champanhe), Francesco Lana- Terzi (pai da aviação), Roger Bacon (precursor do moderno método científico), Rogério Boscovich (precursor da teoria do campo unificado), Athanasius Kircher (fundador da egiptologia), São Francisco de Assis (o máximo da caridade cristã), Fabíola (fundadora do primeiro grande hospital público em Roma)… a lista não tem fim.

Merece destaque a importância dada à mulher. A Igreja elevou a sua dignidade mediante a santificação do matrimônio, a proibição do divórcio (antes, o marido simplesmente abandonava a esposa) e a equalização do pecado de adultério. Permitiu a formação de comunidades religiosas com governo próprio, algo totalmente inusitado no mundo antigo – segundo alguns autores, elas teriam sido até mesmo as precursoras do monaquismo. Também a mulher é o tema de uma das maiores criações artísticas de todos os tempos – a Pietá de Michelângelo.

Num jogo de luz e sombras, o autor desmistifica clichês e preconceitos e mostra que os eclesiásticos não acertaram em todas as decisões. Assim, dá ao cristão argumentos para defender a sua fé contra o discurso que, ao pintar a Igreja como a mãe de todos os males, repercute o discurso de ódio de Karl Marx “A religião é o ópio do povo”.

Não podemos esquecer o ensinamento de Bento XVI na Catedral da Sé: a Igreja é – e sempre será – imaculada porque a sua cabeça é Cristo. Seria muita ingenuidade acreditar que todos os católicos – só pelo fato de serem católicos – estão imunes a erros pessoais. A Igreja militante é composta pelos que precisam do Médico – graças a Deus, senão, para onde iriam os pecadores como eu e você?

Este livro deve ser lido por quem quer conhecer a realidade das coisas para poder lutar por Cristo.

Deve ser lido, sobretudo, por quem se sabe possuidor de uma pérola de grande valor – a fé católica – a qual não troca por nada no mundo. Afinal, como disse São Thomaz More, ninguém no leito de morte jamais se arrependeu de ter sido católico.

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