Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

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Sócrates, a Sabedoria e a Esperteza

Um discípulo perguntou a Sócrates:

– Mestre, como faço para adquirir a sabedoria?

O filósofo levou o aluno para a beira do rio e pediu para ele aproximar o rosto da superfície da água e então empurrou a cabeça do jovem para dentro d´água e segurou. Finalmente liberto e quase afogado, bradou o ofegante aluno:

– Que é isto, mestre? Que lição mais esquisita…

– No dia em que você buscar a sabedoria como agora busca o ar, nesse dia, terá alcançado a sabedoria.

Alcançaremos a sabedoria – ou a santidade, é a mesma coisa – quando trocarmos a preguiça pelo dever, a indiferença pela caridade, a pasmaceira pelo querer, a inércia pelo fazer, o vício pela virtude, o mal pelo bem.

Mas, no mundo, o mal costuma vencer o bem porque nós, as pessoas de bem, somos fracos de vontade e não procuramos a santidade como procuramos o ar. Jesus Cristo explicou direitinho:

– Os filhos do mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz (Lc 16,8).

 

São José de Cupertino

São José de Cupertino nasceu em 1630 no reino de Nápoles e faleceu em 18 de setembro de 1663, em Ósio, perto de Loreto. Desde criança manifestou muita dificuldade para receber os ensinamentos de uma educação formal. Foi despedido de dois conventos por causa disso.

Entretanto, pedia insistentemente ajuda à Virgem. Pela sua dificuldade em passar nas provas é o Padroeiro dos Estudantes, principalmente daqueles em período de exames – quando o desespero fomenta a devoção. (Com você também não é assim?)

Finalmente estabelecido num convento franciscano e admitido ao sacerdócio, a fama dos seus poderes místicos – êxtases, curas milagrosas e levitação – se espalhou, atraindo multidões. Isto se repetia para onde quer que fôsse, e de tempos em tempos era obrigado a mudar de convento.

A sua vida foi repleta de acontecimentos hilários e extraordinários. Uma vez mandou um pássaro ensinar canto a um coral de freiras. De outra vez, avisou a duas lebres para não se afastarem do bosque, por causa dos caçadores; uma não obedeceu e, perseguida pelos cães, foi ter com o santo na capela. São José disse aos caçadores que reclamaram a sua presa: “Esta lebre está sob a proteção de Nossa Senhora, portanto não a tereis”. Nos seus êxtases, era perturbado pelos irmãos que o cutucavam, batiam nele, tentavam arrastá-lo, e chegaram até a tocá-lo com brasas, mas nada surtia efeito.

Ante à sua dificuldade de receber educação formal, muitas biografias dizem que era “curto de inteligência”. Olavo de Carvalho, entretanto, define inteligência como capacidade de apreender a verdade.

Quem mais inteligente do que este santo?

Cristianismo no dia a dia

Muita gente lê a Bíblia soturnamente, acreditando que a Palavra de Deus só deve ser meditada e perscrutada na penumbra do templo.

Ledo engano!

É lógico que as Escrituras devem ser lidas, relidas, analisadas e meditadas na solidão da igreja, mas não só lá. Acima de tudo, o ensinamento divino deve permear o nosso dia a dia.

Veja, por exemplo, o evangelho de São Lucas, capítulo 14.

Nosso Senhor Jesus Cristo diz: quando você for convidado para um banquete, não procure o primeiro lugar porque pode chegar alguém mais importante e você ser deslocado para o último lugar. Que vexame!

Mais adiante: quando der uma festa, não convide os milionários. Ao contrário, convide os pobres, que não podem retribuir. Deus, então, vai assumir a dívida e pagar no lugar deles.

Veja que ensinamentos práticos, que divina esperteza!

Esta é uma das muitas formas de ler os evangelhos: buscando lições para a dura rotina cotidiana e para as situações mais simples da vida.

Você também pode lê-los buscando a fina ironia de Nosso Senhor, assunto já abordado neste blog no post O Bom Humor de Cristo.

E, logicamente, a Bíblia pode ser lida do ponto de vista filosófico, histórico, cultural, sociológico… até mesmo religioso!

Boa leitura!

 

O Senhor dos Anéis e o Senhor da Maleta

J.R.R. Tolkien criou um mundo fantástico em O Senhor dos Anéis, com homens e hobbits, elfos e anões, magos e cavaleiros negros, homens-árvore e homens-pedra, orcs e trolls. Os elfos desenvolveram a arte de fabricar os anéis de poder, e Sauron, o Senhor dos Anéis, dominou o fabrico e forjou O Anel, o mais poderoso de todos, o qual usava para subjugar as criaturas. Derrotado numa batalha, perdeu O Precioso, e a saga mostra a sua luta desesperada para recuperá-lo e a caminhada de Frodo, o hobbit, para destrui-lo no Vulcão da Condenação, local onde havia sido forjado e a única fonte de energia capaz de consumi-lo.

Na minha opinião, Sauron e O Anel representam a tentação humana em direção à ambição e ao orgulho, em direção à vontade de dominar os outros. O ambicioso trata o outro como coisa, manipula-o, escraviza-o e rouba-lhe a dignidade de pessoa humana, no caminho inverso do ensinamento cristão, no qual Deus é um Deus de amor pessoal, o Criador de cada homem – único! – e cada mulher – única! – à Sua imagem e semelhança, que quer amar e ser amado, como um pai ama e quer ser amado pelo filho, como uma moça ama e quer ser amada pelo namorado. Deus é um Deus pessoal, a ponto de Se entregar e morrer por mim, só por mim.

Na carta encíclica Luz da Fé, o uso repetido da palavra “pessoa”, utilizada 50 vezes, ensina e enfatiza a importância da relação amorosa entre Deus e o homem. Foi escrita a quatro mãos por Bento XVI e Francisco – este, o Senhor da Maleta. A surpreendente visão de um Papa carregando os seus próprios pertences fez todos conjecturarem sobre o conteúdo da maleta papal. Se o Senhor dos Anéis, em sua ânsia por ser servido, personifica o mal, o Senhor da Maleta, não se deixando servir quando pode ele mesmo fazer as coisas, representa o bem.

O trato amoroso de pessoa a pessoa – a caridade – foi o tema central da viagem do Papa ao Brasil. A ausente caridade dos pastores por suas ovelhas, a falta de caridade dos leigos por seus irmãos, a caridade esquecida por todos, esfriada em nosso coração, substituída por um conjunto de regras pelos que acreditam ser isto a doutrina – não, a doutrina não é isto, a doutrina é a tentativa de explicar a fé numa pessoa – a pessoa de Cristo; a negligenciada caridade, o núcleo do ensinamento cristão: “nisto conhecerão que sois Meus discípulos: que vos amei uns aos outros”. Se Deus nos ama com amor pessoal, também quer que nos amemos uns aos outros, pois “quem não ama os seus irmãos a quem vê, como pode amar a Deus a quem não vê?”

O Senhor dos Anéis, símbolo do demônio, é ódio puro; o Senhor da Maleta, Vigário de Cristo, é mensageiro do amor. Aquele não consegue sorrir – no máximo, exibe um esgar sádico; este, sorridente, responde com bom humor aos curiosos indagadores do conteúdo da enigmática maleta:

– Não trago o código da bomba atômica!

O Bom Humor de Cristo

Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, foi pioneiro da aviação heróica. Sobrevoou regiões inóspitas como os Andes e o Saara. A beleza do deserto, escreveu, em Terra dos Homens, não pode ser apreciada por pessoas superficiais. Da mesma forma, o bom humor de Cristo.

Lemos os Evangelhos com a mórbida ânsia de enxergar as dores de Nosso Senhor e os seus altos ensinamentos, mas nos esquecemos que o aprendizado ocorre nos momentos de paz e sossego. A Sua alegria era constante, mesmo em momentos de ira e medo, porque Ele contemplava constantemente a face do Pai – é a chamada visão beatífica. Como é que podia estar triste?

Na realidade, só houve um momento no qual perdeu a visão beatífica. Foi na cruz, nos estertores da agonia, quando Deus se escondeu dEle, retirando-Lhe este último consolo. Proferiu então “Meu Deus, por que Me abandonaste?” Não foi uma frase de revolta, bem ao contrário, foi uma frase dirigida a nós, para que soubéssemos que continuava na cruz por amor. Foi o Seu último ato de entrega por nós.

Os Evangelhos estão repletos de episódios divertidos e alegres. Certamente, Cristo se divertia e divertia os outros nas bodas de Canaã – não é significativo o primeiro milagre ter sido feito numa festa? -, ao brincar com as crianças – certamente, elas não se aproximariam de um sujeito mal encarado -, nos jantares para os quais era convidado, nas conversas ocasionais com desconhecidos. A Sua fina ironia é a maior demonstração da Sua alegria.

Na tarde do domingo da Ressurreição, quando se aproximou incógnito de Cléofas e seu amigo, no caminho de Emaús, perguntou-lhes “Sobre o que é que vocês conversavam?” E Cléofas respondeu-Lhe, surpreso, “Será que Você é a única pessoa que não sabe o que aconteceu com Jesus Nazareno?” E Cristo replicou “Não, não sei de nada, o que é que houve?”

Em outra ocasião, os inimigos armaram uma cilada com uma pergunta traiçoeira. Cristo disse “Vou responder, mas me respondam antes: o batismo de João era de Deus ou dos homens?” Se respondessem ‘dos homens’, ficariam mal com o povo; ‘de Deus’, então por que não lhe deram ouvidos? “Não sabemos” disseram. Cristo então lhes disse “Então também não sei, também não vou responder!”

Os Evangelhos estão repletos destes episódios mas a sua beleza não é para qualquer um. Certamente, não é para mal humorados nem para pessoas acostumadas ao humor escrachado. Não conseguiremos ver o bom humor nos outros se não formos nós mesmos bem humorados. O bom humor exige o desapego desta vida, a ponto de conseguirmos rir de nós mesmos. A Sua alegria é para quem tem a esperança posta em Deus e compreende que o Seu reino não é deste mundo, este mundo é um vale de lágrimas (como diz a Salve Rainha) e esta vida é embrejada (Guimarães Rosa).

No Evangelho deste domingo, Cristo dirá “Qual o pai cujo filho lhe pede um ovo e ele dá um escorpião?”

Eta pai brincalhão!

 

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