Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

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O Bom Humor de Cristo

Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, foi pioneiro da aviação heróica. Sobrevoou regiões inóspitas como os Andes e o Saara. A beleza do deserto, escreveu, em Terra dos Homens, não pode ser apreciada por pessoas superficiais. Da mesma forma, o bom humor de Cristo.

Lemos os Evangelhos com a mórbida ânsia de enxergar as dores de Nosso Senhor e os seus altos ensinamentos, mas nos esquecemos que o aprendizado ocorre nos momentos de paz e sossego. A Sua alegria era constante, mesmo em momentos de ira e medo, porque Ele contemplava constantemente a face do Pai – é a chamada visão beatífica. Como é que podia estar triste?

Na realidade, só houve um momento no qual perdeu a visão beatífica. Foi na cruz, nos estertores da agonia, quando Deus se escondeu dEle, retirando-Lhe este último consolo. Proferiu então “Meu Deus, por que Me abandonaste?” Não foi uma frase de revolta, bem ao contrário, foi uma frase dirigida a nós, para que soubéssemos que continuava na cruz por amor. Foi o Seu último ato de entrega por nós.

Os Evangelhos estão repletos de episódios divertidos e alegres. Certamente, Cristo se divertia e divertia os outros nas bodas de Canaã – não é significativo o primeiro milagre ter sido feito numa festa? -, ao brincar com as crianças – certamente, elas não se aproximariam de um sujeito mal encarado -, nos jantares para os quais era convidado, nas conversas ocasionais com desconhecidos. A Sua fina ironia é a maior demonstração da Sua alegria.

Na tarde do domingo da Ressurreição, quando se aproximou incógnito de Cléofas e seu amigo, no caminho de Emaús, perguntou-lhes “Sobre o que é que vocês conversavam?” E Cléofas respondeu-Lhe, surpreso, “Será que Você é a única pessoa que não sabe o que aconteceu com Jesus Nazareno?” E Cristo replicou “Não, não sei de nada, o que é que houve?”

Em outra ocasião, os inimigos armaram uma cilada com uma pergunta traiçoeira. Cristo disse “Vou responder, mas me respondam antes: o batismo de João era de Deus ou dos homens?” Se respondessem ‘dos homens’, ficariam mal com o povo; ‘de Deus’, então por que não lhe deram ouvidos? “Não sabemos” disseram. Cristo então lhes disse “Então também não sei, também não vou responder!”

Os Evangelhos estão repletos destes episódios mas a sua beleza não é para qualquer um. Certamente, não é para mal humorados nem para pessoas acostumadas ao humor escrachado. Não conseguiremos ver o bom humor nos outros se não formos nós mesmos bem humorados. O bom humor exige o desapego desta vida, a ponto de conseguirmos rir de nós mesmos. A Sua alegria é para quem tem a esperança posta em Deus e compreende que o Seu reino não é deste mundo, este mundo é um vale de lágrimas (como diz a Salve Rainha) e esta vida é embrejada (Guimarães Rosa).

No Evangelho deste domingo, Cristo dirá “Qual o pai cujo filho lhe pede um ovo e ele dá um escorpião?”

Eta pai brincalhão!

 

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