Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

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Maconha Recreativa

O Colorado é o primeiro estado americano a vender maconha para fins recreativos.

Recreativo?!

Recreação, para mim, é jogar bola, tomar sorvete ou ir ao cinema. Agora, “ficar doidão” mudou de nome. Chama-se “recreação”. É o Newspeak, a inversão revolucionária do vocabulário. Os droguistas – meu neologismo para os teóricos favoráveis à liberação das drogas –  usam dois argumentos. Primeiro: a legalização permite o controle governamental e, assim, inibe o mercado negro. Segundo: cigarro e álcool também são drogas, semelhantes à maconha, por exemplo.

O professor Olavo de Carvalho mais uma vez desmantela estas falácias. A legalização não acaba com o mercado negro; vide a pirataria de CDs e DVDs. No caso das drogas, é justamente o contrário, vem atender aos interesses dos produtores e distribuidores. Cigarro e álcool não podem ser comparados a drogas como a maconha porque não induzem à ação anti-social. Você já viu alguém fumar um Hollywood e ficar doidão? E o álcool só se torna um problema se ingerido sistematicamente, em quantidade e ao longo de muito tempo, levando ao alcoolismo; a diferença é de espécie, não de grau. Dá para comparar uma cerveja com um cigarro de maconha? Um cálice de vinho com uma carreira de cocaína?

Os objetivos ocultos por trás dos argumentos dos droguistas são dois. Grana e totalitarismo. O mercado das drogas é o mais lucrativo do mundo, seguido pelo tráfico de armas e de seres humanos, aí incluídos escravidão sexual e órgãos. Investidores internacionais, sem ética nem moral, querem ganhar dinheiro a qualquer custo. Para isso, nada melhor do que maconha, cocaína, crack, haxixe, lsd, ecstasy, heroína. Só de pensar, eles já entram em transe, nem precisam cheirar. Quanto ao totalitarismo, os déspotas precisam aniquilar as populações, abobalhá-las, levá-las ao vício porque o maior obstáculo à implantação das tiranias é o homem virtuoso. No caso específico das drogas, se houvesse mais virtude haveria menos dependentes – muitos jovens caem no vício devido à desesperança acarretada pela futilidade da vida dos pais.

Tenha tudo isso em mente ao assistir a boa reportagem feita pelo programa Sem Fronteiras – “Maconha já está sendo vendida legalmente no Colorado (EUA)“. Dê atenção especial ao lúcido depoimento do doutor Nicholas Pace. Os argumentos dos droguistas são hilariantes quando se conhece os interesses ocultos. O verme, exposto ao sol, morre por si. Sob este ponto de vista, a reportagem tem a verdadeira “finalidade recreativa”.

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O Livro Negro da Esquerda Americana

“Roubar os capitalistas é moral, camaradas” eu ouvi Khrushchev dizer durante suas “férias de seis dias” de 1959 na Romênia. “Não se espantem, camaradas. Usei intencionalmente o verbo roubar. Roubar os nossos inimigos é moral, camaradas.” “Os capitalistas são inimigos mortais do marxismo”, ouvi Fidel Castro discursar em 1972 quando passei férias em Cuba como convidado do seu irmão, Raul. “Matá-los é moral, camaradas!”.

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O artigo abaixo foi publicado no dia 13 no WND. O autor, general Ion Mihai Pacepa é o oficial de mais alta patente que desertou do bloco soviético. O seu novo livro, Disinformation, escrito em co-autoria com o professor Ronald Rychlak, foi lançado em junho pelo WND Books.

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The Black Book of the American Left

O livro “The Black Book of the American Left: Collected Conservative Writings” deve ser lido por todo cidadão americano que ama este país. A obra é um chacoalhão de alerta: os Estados Unidos estão sendo infectados pela peste bubônica do marxismo, que, no passado, contaminou o próprio autor do livro.

Na década de 1970, David atingiu os mais altos cargos dos movimentos de esquerda americanos. Depois, acabou entendendo que o marxismo é uma mentira – o primeiro passo na direção do roubo e do assassinato – e desde então tem dedicado a vida para avisar que o marxismo está colocando em risco a liberdade e a democracia americanas. Uma pesquisa de opinião pública da Rasmussen Reports mostra que, realmente, hoje apenas 53% dos americanos preferem o capitalismo ao socialismo.

Um dos mais populares night clubs de Nova Iorque é o KGB Bar, com temática soviética. O local, enfeitado com a bandeira soviética e com uma fotografia do “Camarada Lênin”, fica lotado por uma nova geração de escritores marxistas que lêem os seus trabalhos. Poucas semanas atrás, esta enorme cidade elegeu, por maioria esmagadora (73% dos votos), um prefeito abertamente marxista, e o conselho de Seattle tem uma nova membro que disse, com orgulho, ter usado “o emblema socialista com honra”. O Pravda, jornal pós-soviético da Russia, que sabia que o socialismo era apenas uma máscara sorridente do marxismo, irritou-se: “Deve ficar claro que, como o rompimento de um grande dique, a enxurrada americana na direção do marxismo está acontecendo com uma velocidade de tirar o fôlego, contra um pano de fundo de uma manada passiva e infeliz, desculpe, prezado leitor, quero dizer, o povo”.

Os Estados Unidos ainda não perceberam realmente que o marxismo está infectando o país porque a mídia de massa tem feito o possível para esconder esse truísmo e porque nem o Partido Republicano nem o tea party chamaram a atenção para os perigos do marxismo. A nossa mídia também está escondendo o fato de que a única coisa que o marxismo deixou atrás de si foi sempre países parecendo acampamentos de trailer devastados por furacões, e líderes marxistas ardendo no inferno de Dante – todos, sem exceção, de Trotsky a Stalin, de Khrushchev a Brezhnev, de Tito a Enver Hoxha, juntamente com Mátyás Rakosi, Sékou Touré, Nyeree, Ceausescu e Hugo Chavez.

David Horowitz nasceu em uma família de marxistas confessos, tinha o marxismo no sangue e teve uma carreira de sucesso como ativista, escritor e jornalista marxista. Em 1974, alguns dos seus camaradas marxistas – líderes dos Panteras Negras – assassinaram um guarda-livros recrutado por David para fazer a contabilidade de uma escola dos Panteras Negras a qual ajudara a fundar. Aquele crime horrível chocou David e o convenceu a abandonar a carreira de esquerdista de sucesso e passar para o outro lado da barricada política americana.

O David Horowitz Freedom Center e a FrontPage Magazine, criada por David em 1988, marcou o início da sua cruzada anti-marxista, que jamais parou. O livro “The Professors: The 101 Most Dangerous Academics in America” (2006) e a Academic Bill of Rights (ABR) foram outros marcos na sua vida: o início da sua ainda hoje vigorosa campanha contra a doutrinação marxista nas universidades americanas. (A bem da verdade: apesar de nunca ter encontrado pessoalmente com David, eu colaboro com a FrontPage Magazine e tenho repetidamente expressado a minha admiração pelo seu rompimento com o marxismo. David também elogiou publicamente o meu rompimento com o comunismo.)

No prefácio de “The Black Book of the American Left”, o primeiro dos nove volumes das suas memórias, David Horowitz escreveu “para o bem ou para o mal, fui condenado a passar o resto dos meus dias” combatendo o marxismo “com o qual eu rompi por iniciativa própria”. Em maio de 1989, ele e outros dois proeminentes ex-marxistas, Ronald Radosh e Peter Collier, foram à Polônia participar de uma conferência sobre o fim do comunismo. Lá, David disse aos dissidentes poloneses: “para mim, a tradição da minha família a respeito dos sonhos socialistas acabou. O socialismo não é mais um sonho de um futuro revolucionário. É apenas um pesadelo do passado. Mas, para vocês, o pesadelo não é um sonho. É uma realidade ainda em andamento. O meu sonho para o povo da Polônia socialista é que um dia vocês acordem do pesadelo e sejam livres”. Poucos meses depois, os diálogos entre o governo polonês e os líderes do Solidariedade levaram às primeiras “eleições livres” (semi-free elections) do bloco soviético.

No dia 9 de novembro de 1989, quando vi pela televisão o Muro de Berlim sendo derrubado, os meus olhos lacrimejaram. Eu estava muito orgulhoso de ser cidadão americano. O mundo inteiro estava expressando a sua gratidão aos Estados Unidos por sua luta de 45 anos de Guerra Fria contra o mal soviético. “O comunismo morreu!” ouvi as pessoas gritando. Realmente, o comunismo morreu como forma de governo. Mas logo ficou provado que o marxismo, cujo 141° aniversário acabara de ser celebrado, havia sobrevivido.

O filósofo francês Jacques Derrida, que disse ter rompido com o marxismo mas que confessou que ainda é paralisado pela emoção ao ouvir a Internacional, nos lembra que o primeiro substantivo do Manifesto Comunista de Marx é espectro: “Um espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo”. De acordo com Derrida, Marx começou o “Manifesto Comunista” com a palavra espectro porque um espectro nunca morre. David Horowitz concordou. “Após a morte de Stalin”, escreveu nas suas memórias, os meus pais – cujas vidas haviam sido dedicadas ao marxismo – compreenderam ter “servido a uma quadrilha de déspotas cínicos responsáveis por matar mais camponeses, causar mais fome e miséria humana, e assassinar mais esquerdistas como eles do que os governos capitalistas desde o início dos tempos. (…) Eu tinha 17 anos na época, e no funeral da Old Left eu jurei a mim mesmo não repetir a sina dos meus pais. (…) Mas a minha juventude me impediu de ver o que aquela catástrofe havia revelado. Continuei com a minha fantasia de um futuro socialista. Quando a New Left começou a emergir poucos anos depois, eu estava pronto para acreditar em um novo início e estava ávido por assistir ao seu nascimento”.

David Horowitz agora documenta que uma nova geração de americanos, aos quais não está mais sendo ensinada história e que conhecem pouco ou nada da longa luta do nosso país contra o marxismo, está dando a esta heresia – responsável pelo assassinato de mais de 90 milhões de pessoas – outra vida nova. Em 2008, o Partido Democrata retratou os Estados Unidos como um “império capitalista decadente e racista”, incapaz de prover assistência médica para os pobres, de reconstruir as suas “escolas em frangalhos”, ou de substituir as “fábricas fechadas que no passado proporcionaram uma vida decente para homens e mulheres de todas as raças” e garantiram que iam mudar isso drasticamente por meio do aumento de impostos sobre os americanos ricos e sobre as empresas americanas e seus proprietários, para financiar programas para os pobres. Isso é marxismo em estado puro. No “Manifesto Comunista”, Marx pintou o capitalismo como “um império decadente e racista” e garantiu erradicá-lo defendendo 10 “transgressões dos direitos de propriedade” os quais vieram a ser conhecidos como os “Dez Pontos do Manifesto Comunista”. Dentre eles: pesado imposto de renda com aumento progressivo e gradual, abolição dos direitos de herança, abolição da propriedade.

Se você conhece o “Manifesto”, como David conhece, vai pensar que Marx em pessoa escreveu o programa econômico do Partido Democrata, o qual contém todos os dez pontos acima citados. Se você não conhece o “Manifesto”, dê uma olhada no “The Black Book of the American Left”. Os jovens de hoje, cuja idade é igual à que David tinha quando ignorou os inauditos crimes de Stalin, acreditam em jantar grátis. Não é de admirar que, na corrida eleitoral de 2008 o Partido Democrata lotou estádios com jovens exigindo a redistribuição da riqueza dos Estados Unidos. Algumas daquelas assembléias eleitorais pareceram, para mim, uma repetição das aglomerações de Ceausescu – mais de 80 mil jovens reunidos em frente do agora famoso templo grego imitando a Casa Branca erguido em Denver, para exigir a redistribuição da riqueza americana. O Partido Democrata conquistou a Casa Branca e as duas câmaras do Congresso.

As pessoas se acostumaram a olhar com complacência a “redistribuição de riqueza”, mas David Horowitz demonstra, de maneira convincente, que isso é a quintessência do marxismo, e que o marxismo sempre termina em colapso econômico. Eu concordo. “Roubar os capitalistas é moral, camaradas” eu ouvi Khrushchev dizer durante suas “férias de seis dias” de 1959 na Romênia. “Não se espantem, camaradas. Usei intencionalmente o verbo roubar. Roubar os nossos inimigos é moral, camaradas.” “Roubar os capitalistas é um dever dos marxistas” pontificava o presidente da Romênia, Nicolae Ceausescu, durante os anos em que fui o seu conselheiro de segurança nacional. “Os capitalistas são inimigos mortais do marxismo”, ouvi Fidel Castro discursar em 1972 quando passei férias em Cuba como convidado do seu irmão, Raul. “Matá-los é moral, camaradas!”.

Na minha outra vida cheguei ao topo da entidade marxista – o império soviético – criado por meio da redistribuição da riqueza do seu povo, e para escapar da sua tirania eu fui obrigado a recomeçar a minha vida do zero, como David. Redistribuição de riqueza é roubo disfarçado – um passo antes do homicídio – e o roubo e o homicídio se tornaram políticas públicas no dia de nascimento do marxismo soviético. Imediatamente após a revolução de novembro de 1917, os marxistas soviéticos confiscaram a riqueza da família imperial, apoderaram-se das terras dos russos ricos, nacionalizaram a indústria e o sistema bancário e mataram a maior parte dos donos de terras. Em 1929, confinando os camponeses em fazendas coletivas, os marxistas soviéticos roubaram as suas propriedades juntamente com os animais e ferramentas. Em poucos anos, virtualmente toda a economia soviética estava funcionando a base de propriedades roubadas. Quando o povo começou a protestar contra o roubo, os marxistas transformaram o Império Soviético em um estado policial tirânico. Mais de 20 milhões de pessoas foram mortas para manter aquele império gulag sob controle. A longo prazo, entretanto, roubo e crime não compensam, mesmo quando cometidos por uma superpotência. O colapso da União Soviética em 1991 é a maior prova disso.

No dia 7 de fevereiro de 2009 a capa da Newsweek estampou: “Somos todos socialistas agora”. Isso também foi dito pelo jornal Scînteia de Ceausescu quando ele transformou a Romênia em um monumento ao marxismo. Dois anos após tomar o poder, o marxista Partido Democrata americano produziu os mesmos resultados do marxismo de Ceausescu – em escala americana. Mais de 14 milhões de americanos perderam o emprego, e quase 42 milhões de pessoas recorreram a programas de alimentação do governo. O crescimento do PIB caiu de 3 a 4% para 1,6%. A dívida nacional cresceu para o valor sem precedentes de $17 trilhões, e o valor projetado para 2019 é de $18 trilhões. O Scînteia foi à falência. A Newsweek foi vendida por um dólar.

Vamos dar nome aos bois: estamos falando de marxismo. Marxismo nos Estados Unidos!

“The Black Book of the American Left” não podia ter vindo à luz em melhor momento. Os Estados Unidos precisam entender imediatamente que o marxismo é uma mentira, e que essa mentira é o primeiro passo na direção do roubo e do assassinato.

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Comunismo e Nazismo: farinha do mesmo saco

“Mas uma nova geração de pessoas, cujo conhecimento da vida sob o comunismo é pouco ou nulo, está tentando dar a esta heresia, agora vestida em trajes socialistas, uma nova vida na França, Grécia, Espanha, Portugal, Venezuela, Argentina, Brasil e Equador, e poucas pessoas estão prestando atenção a este fato.”

O artigo abaixo foi publicado no World Net Daily em 8 de julho de 2013. O autor é o general Ion Mihai Pacepa, oficial de mais alta patente do bloco comunista que obteve asilo político nos Estados Unidos. O seu novo livro, Disinformation, em co-autoria com o professor Ronald Rychlak, foi publicado pelo WND Books em junho de 2013.

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Comunismo e Nazismo: dois monstros idênticos

Exclusivo: o general Ion Mihai Pacepa analisa o livro definitivo sobre duas “pestes bubônicas”

O livro “The Devil in History: Communism, Fascism and Some Lessons of the Twentieth Century”, do professor Vladimir Tismaneanu, é o livro definitivo sobre estas duas pestes bubônicas. Extremamente documentado e elegantemente escrito, traz à luz não apenas as semelhanças ideológicas entre fascismo e comunismo mas também os métodos de manipulação semelhantes usados por ambos para criar movimentos de massa destinados a fins apocalípticos.

Eu vivi tanto sob o Terceiro Reich quanto sob o Império Soviético e sei que um mero mortal qualquer que ousasse traçar um mínimo paralelo entre comunismo e nazismo acabaria atrás das grades – se tivesse sorte. Os nazistas, indignados, descartavam qualquer relação com o comunismo, do mesmo modo como os comunistas, nervosamente, rejeitavam qualquer comparação com o nazismo/fascismo. Mas não os seus líderes. No dia 23 de agosto de 1939, quando o ministro das realações exteriores soviético, Vyacheslav Molotov, e o seu colega alemão equivalente, Joachim von Ribbentrop, se reuniram no Kremlin para assinar o infame Pacto de Não-agressão Hitler-Stalin, Stalin estava eufórico. Ele disse a Ribbentrop: “O governo soviético leva muito a sério este novo pacto. Eu posso garantir, sob a minha palavra de honra, que a União Soviética não trairá o seu parceiro”. (John Toland, “Adolf Hitler” (New York: Doubleday, 1976) página 548)

Havia muitas razões para Stalin estar alegre. Tanto ele quanto Hitler acreditavam na necessidade histórica de expandir o território dos seus impérios. Stalin chamava isso de “revolução do proletariado mundial”. Hitler chamava de “Lebensraum” (espaço vital). Ambos basearam as suas tiranias no roubo. Hitler roubou a riqueza dos judeus. Stalin roubou a riqueza da igreja e da burguesia. Ambos odiavam religião, e ambos substituíram Deus pelo culto às suas próprias pessoas. Ambos eram também profundamente anti-semitas. Hitler matou cerca de 6 milhões de judeus. Durante a década de 1930, apenas Stalin – oriundo da Georgia, onde os judeus haviam sido escravos até 1871 – prendeu cerca de 7 milhões de russos (a maior parte judeus) sob a acusão de espionagem a serviço do sionismo americano e os matou.

“The Devil In History” não é o primeiro livro a estudar a relação entre Fascismo e Comunismo, mas é o primeiro escrito por um eminente estudioso em cujo sangue correm os genes dos dois movimentos. Os pais de Vladimir Tismaneanu lutaram pelo fascismo nas Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil Espanhola, viveram em Moscou durante a Segunda Guerra Mundial como ativistas comunistas, compreenderam as tragédias provocadas pelo comunismo e terminaram a vida profundamente desencantados. O próprio Vladimir foi seduzido pelo marxismo (especialmente pelo neo-marxismo da Escola de Frankfurt) até deixar a Romênia, aos 30 anos de idade, em 1981. Ele se tornou professor anti-comunista especialista em estudos soviéticos e do leste europeu quando o marxismo-leninismo estava com força total e chefiou a Comissão Presidencial da Romênia para o Estudo da Ditadura Comunista em seu país, que condenou fortemente as atrocidades do comunismo. O primeiro livro de Vladimir em inglês foi publicado em 1988. O título é revelador – “The Crisis of Marxist Ideology in Eastern Europe: The Poverty of Utopia”. Quando muitos kremlinologistas focavam os seus estudos nas elites comunistas e nos conflitos mortais, Tismaneanu percebeu que o comportamento das elites era explicado pelo sistema de crenças leninista. Os líderes comunistas eram assassinos, sem dúvida, mas eram assassinos com uma ideologia. Nicolae Ceausescu, a quem conheci muito bem, era um comunista fanático que acreditava realmente que o comunismo estava do lado certo da história.

“The Devil In History” é tanto um livro sobre o passado quanto um livro sobre o futuro. Em novembro de 1989, quando o Muro de Berlim foi derrubado, milhões de pessoas gritaram “O comunismo morreu”. O comunismo soviético, como forma de governo, realmente morrera. Mas uma nova geração de pessoas, cujo conhecimento da vida sob o comunismo é pouco ou nulo, está tentando dar a esta heresia, agora vestida em trajes socialistas, uma nova vida na França, Grécia, Espanha, Portugal, Venezuela, Argentina, Brasil e Equador, e poucas pessoas estão prestando atenção a este fato. Em 15 de fevereiro de 2003, milhões de europeus tomaram as ruas, não para celebrar a liberdade desfrutada graças à luta dos americanos para impedir que eles se tornassem escravos soviéticos, mas para condenar o imperialismo americano, conforme descrito em “Empire” (de Michael Hardt e Antonio Negri, Harvard University Press, 2000), livro cujo co-autor, Antonio Negri, um terrorista disfarçado de professor marxista, esteve preso pelo envolvimento no sequestro e assassinato do primeiro ministro italiano Aldo Moro. O jornal The New York Times chamou o atual Manifesto Comunista de Negri de “o livro quente e inteligente do momento”. (David Pryce-Jones, “Evil Empire, The Communist ‘hot, smart book of the moment’”, National Review Online, 17 de setembro de 2001).

Durante 27 anos da minha outra vida, na Romênia, eu estive envolvido em operações destinadas a criar inúmeros Antonios Negris para desempenhar o papel de guerreiros da Guerra Fria em toda a Europa Oriental e usá-los para jogar a região contra os Estados Unidos. “The Devil In History” é um estudo enciclopédico sobre como a máquina de desinformação soviética e pós-soviética usou aqueles Negris para converter o antigo ódio europeu pelos nazistas em ódio aos EUA, o novo poder de ocupação.

Em 1851, quando Luís Bonaparte, o vil sobrinho de Napoleão, tomou o poder na França, Karl Marx disse a sua agora famosa máxima: “A história sempre se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. “The Devil In History” documenta os atuais esforços dos esquerdistas para reviver as mentiras soviéticas, e isto mostra a sua ridícula natureza.

“The Devil In History” tem não apenas importância ideológica mas também histórica, pois torna o seu autor, Vladimir Tismaneanu, uma versão americana conservadora de Eric Hobsbawm, o mais respeitado historiador britânico.

Hobsbawm, morto há pouco com a venerável idade de 95 anos, era um polímata erudito, um esplêndido pesquisador e um excelente escritor. Infelizmente, também resolveu ser um marxista profissional e os marxistas são, por definição, mentirosos. Eles são obrigados a mentir porque a realidade de todas as sociedades marxistas tem sido desvatadora, a um nível espantoso. Mais de 115 milhões de pessoas foram mortas em todo mundo na tentativa de manter vivas as mentiras do marxismo.

O quarteto de livros mais respeitado de Hobsbawm, “The Age of Revolution” e “The Age of Extremes”, aos quais dedicou a maior parte da sua vida, também são uma mentira: apresentam a história da revolução marxista soviética, evolução e ‘descentralização’ (evolution and devolution) que ignoram totalmente os gulags. São como uma história do nazismo ignorando o Holocausto, ou uma história do Egito desconsiderando os faraós e as pirâmides. Hobsbawm filiou-se ao Partido Comunista Britânico em 1936, e nele permaneceu mesmo após o seu eterno ídolo, a União Soviética, ter sucumbido. Hobsbawm jamais retirou a sua filiação ao Partido Comunista. Ele explicou: “O Partido… teve o primeiro, ou mais precisamente, o único direito real das nossas vidas… As exigências do Partido têm prioridade absoluta… Se ele mandar você abandonar a namorada ou a esposa, você deve fazê-lo”.

Vladimir Tismaneanu também se filiou ao Partido Comunista quando jovem – como eu fiz – mas rompeu com o Partido quando o comunismo ainda estava com força total – como eu fiz – e expôs os seus males ao resto do mundo – como eu também fiz. A bem da verdade, devo registrar a minha imensa admiração por Tismaneanu e dizer que o considero um bom amigo, embora jamais tenhamos nos encontrado. Sob o meu ponto de vista, ele é o maior especialista em Comunismo Romeno e um dos maiores estudiosos do mundo sobre o Leste Europeu. O seu “Stalinism for All Seasons” é o mais amplo estudo sobre o Comunismo Romeno e o seu “Fantasies of Salvation: Democracy, Nationalism, and Myth in Post-Communist Europe” recebeu o prêmio romeno-americano da Academy of Arts and Sciences. Por sua incansável atividade de pesquisa, Vladimir Tismaneanu tornou-se um membro do prestigioso Institut fur die Wissenschaften von Menschen em Viena, Áustria, e recebeu o título de Public Policy Scholar do Woodrow Wilson International Center for Scholars.

A despeito da cobertura da imprensa sobre a corrida nuclear durante a Guerra Fria, nós, no topo do serviço de inteligência do bloco soviético naqueles anos, lutamos, naquela guerra, pela conquista das mentes – na Europa, na esquerda americana, no Terceiro Mundo – pois sabíamos ser impossível ganhar as batalhas militares. A Guerra Fria acabou realmente, mas, diferentemente das outras guerras, não terminou com um inimigo derrotado depondo as armas. No ano 2000, alguns dos meus antigos colegas da KGB tomaram o Kremlin e transformaram a Rússia na primeira ditadura de inteligência da história. Mais de seis mil antigos agentes da KGB estão nos governos russos federal e local. Seria como tentar democratizar a Alemanha com os oficiais da Gestapo no comando.

Vladimir Tismaneanu é o analista político perfeito para os dias de hoje, pois é um especialista nos dois legados, nazista e comunista. A despeito de diagnósticos otimistas e do excessivo wishful thinking, estas duas patologias não estão mortas. O esclarecedor livro de Vladimir Tismaneanu é um antítodo contra os novos experimentos do radicalismo utópico e da engenharia social.

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O sistema de saúde socialista

Um dos maiores mitos sobre o marxismo é a suposta virtude de igualdade para todos. Eu vivi muitos anos no círculo mais íntimo de um governo marxista pregador deste ideal utópico de igualdade, e é fato que isto não passa de ficção científica. Mentiras. Areia nos olhos do povo.

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Este artigo foi publicado no JP Media em 6 de julho de 2012. Foi escrito por Ion Mihai Pacepa, oficial de mais alta patente que desertou do bloco comunista.

Atenção: usei o termo “nacionalizado” para descrever o novo sistema de saúde dos EUA porque, até o surgimento do ObamaCare, o cidadão americano não era obrigado a se inscrever em nenhum plano de saúde; agora, tornou-se uma imposição estatal.

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Um pesadelo romeno de 20 anos: o fim do sistema de saúde socialista

Na minha outra vida na Romênia comunista, dirigi uma grande organização de inteligência que, entre outras tarefas, tinha como obrigação manter vivo um sistema de saúde nacionalizado que foi responsável por, no fim das contas, falir o país e gerar um sentimento de desprezo por parte da população. Aquele sistema, bastante parecido com o Affordable Health Care for America Act, era um pesadelo burocrático. E ainda continua sendo para os países do antigo império soviético.

Um relatório da União Européia sobre o “Sistema de Saúde em Transição” da Romênia pós-comunista afirmou que este sistema “devastou o país”, cuja taxa de mortalidade infantil (20,2 por mil habitantes) estava entre as mais altas da Europa e cuja taxa de mortalidade era 70% mais alta do que a média européia. [i] A revista médica mais lida no mundo, The Lancet, informou que, mesmo vinte anos após o colapso da União Soviética, “a expectativa de vida ao nascer é de 66 anos na Rússia, 16 anos menor do que a do Japão e 14 menor do que a média da União Européia”. [ii]

A minha experiência me faz acreditar que a recente decisão da Suprema Corte americana de manter vivo o Affordable Health Care for America Act constituiu um muito necessário chacoalhão para acordar o nosso movimento conservador. Desde 2009, quando o Partido Democrata começou a nacionalizar secretamente o sistema de saúde americano, o nosso movimento conservador não fez nada além de chorar e lamentar e esperar por Deus no céu e pela Suprema Corte na terra para salvar os EUA de tamanha calamidade.

Chegou a hora de assumirmos as rédeas da situação. As primeiras três palavras da Constituição americana são “We the people”. Por isso, “nós, o povo” somos quem deve decidir qual o tipo de sistema de saúde queremos, pois ele é financiado com o dinheiro dos nossos impostos. Para tomar a decisão correta na eleição de novembro, “nós, o povo” precisamos conhecer a verdade: os Estados Unidos são hoje o primeiro país do mundo quando se fala em sensibilidade médica e qualidade do sistema de saúde, e não há razão para correr e mudar o nosso sistema da noite para o dia.

Nos Estados Unidos, quem manda é o médico. Isto é crucial para salvar vidas. Se o médico percebe algum problema, pode iniciar logo todos os tipos de exames, ter os resultados o mais rápido possível e iniciar imediatamente o tratamento. Já na Grã Bretanha, onde o sistema de saúde nacionalizado é administrado por burocratas, um paciente precisa esperar cerca de 18 semanas por uma ressonância magnética.

Nos EUA, uma cirurgia pode ser agendada para o dia seguinte, mas, no sistema de saúde nacionalizado do Canadá, o paciente precisa esperar meses por uma operação. Nos EUA, a capacidade do médico de agir rapidamente sem precisar esperar aprovações burocráticas pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

O Prêmio Nobel de Medicina conta o resto da história. No século passado, o sistema de saúde de mercado aberto dos EUA foi premiado com 72 prêmios Nobel. A União Soviética, inventora do sistema de saúde nacionalizado, não ganhou nenhum. (A Rússia dos Czares conseguiu um Nobel de Medicina em 1904 pela teoria do reflexo condicionado de Pavlov.)

Mais uma verdade: o sistema de saúde dos Estados Unidos pode e deve ser melhorado, mas em 2008 e 2009 o país estava passando pela segunda pior crise econômica da sua história, e melhorar a economia deveria ter sido a tarefa mais urgente. Quando o Partido Democrata chegou ao poder, entretanto, estava tão infectado pelo marxismo que iniciou o reinado nacionalizando o nosso sistema de saúde. Os ditadores marxistas sempre têm feito isto onde quer que cheguem ao poder.

O sistema de saúde é vital para todos e os marxistas, onde quer que tenham conseguido tomar o controle político, começaram por consolidar o regime nacionalizando o sistema de saúde. Em 1948, os líderes marxistas romenos, após terem montado o primeiro governo marxista daquele país, anunciaram orgulhosamente que estavam se livrando do velho sistema de saúde “capitalista” destinado somente aos ricos, e o estavam substituindo por um “sistema socialista” para “levar a assistência médica a cada um dos romenos”. Ninguém sabia como seria esse “sistema socialista”, mas o seu apelo populista soava bem, e a maior parte dos romenos aplaudiu. Eu também aplaudi, e paguei um alto preço por isso.

Mais uma verdade: os Estados Unidos gradualmente passaram de um país de trabalho escravo negro para um país que elegeu livremente um americano negro para presidente. O “Affordable Health Care for America Act”, entretanto, foi imposto ao país da noite para o dia, da mesma forma que o sistema de saúde marxista foi imposto na Romênia. O diabo sempre está com pressa. De acordo com dados do Senado americano (do U.S. Senate Historical Office), o Affordable Health Care for America Act foi o segundo projeto de lei na história aprovado pelo Senado na véspera do Natal. O primeiro foi em 1895, quando o Senado aprovou um projeto sobre o emprego de soldados Confederados aposentados. Aquele sim foi um verdadeiro presente de Natal. O projeto de lei de 2009 foi um presente do demônio, aprovado secretamente, na hora das bruxas, meia-noite.

O sistema de saúde dos Estados Unidos representa um sexto do valor total da economia. O produto interno bruto americano é de 14,1 trilhões de dólares, e um sexto significa algo em torno de 2,35 trilhões de dólares. Como uma nota de dólar mede pouco mais de 16 cm, um trilhão de dólares enfileirados cobriria uma distância de 155.956.000 quilômetros – ultrapassando em mais de 6 milhões de quilômetros a distância entre a terra e o sol. [iii] Esta inimaginável quantia de dinheiro de impostos foi paga por “nós, o povo”, que devíamos pelo menos ter dado uma palavra sobre como ele devia ser gasto.

“Temos que aprovar o projeto para que vocês possam descobrir o que há nele” disse Nancy Pelosi, na época porta-voz da U.S. House of Representatives controlada pelos democratas, falando em 2010 na Legislative Conference for the National Association of Counties. Foi a primeira vez que isto ocorreu na história americana. Esta era a norma no leste europeu, onde os regimes marxistas se cobriam de segredo.

Poucos anos após a Romênia ter sido abençoada com um sistema de saúde nacionalizado administrado por burocratas no lugar de médicos, os hospitais estavam tão degradados que havia casos frequentes de dois pacientes ocupando o mesmo leito. Sauve qui peut (salve-se quem puder) tornou-se o lema da privilegiada nomenklatura marxista, que tirou o seu próprio sistema de saúde das mãos dos hospitais destinados a servir “os idiotas”, denominação dada pelo presidente romeno Nicolae Ceausescu ao seu próprio povo. O Partido Comunista apoderou-se do Helias, um hospital construído por uma fundação ocidental, e o destinou para servir exclusivamente às necessidades da nomenklatura do partido. A Securitate, versão romena da KGB, tomou posse de um hospital particular (chamado Dr. Dimitrie Gerota) e o transformou em um centro médico (renomeado Dr. Victor Babes) destinado só para o seu pessoal. O mesmo fez o Ministério da Defesa. Na década de 1970, eu mesmo construí um hospital para o meu serviço de inteligência estrangeiro, o DIE. O hospital não tinha nome e estava escondido na Floresta Băneasa perto de Bucareste, para ficar protegida dos olhos dos “idiotas”.

Os nossos funcionários políticos americanos, que aprovaram sem pensar o Affordable Health Care for America Act de mais de 2000 páginas, também para lutaram para se proteger. Todos, dos funcionários do Congresso aos funcionários da Casa Branca, outorgaram a si mesmos versões americanas do Helias e do Gerota. Nenhum deles quis colocar a sua vida nas mãos de um sistema de saúde nacionalizado administrado por burocratas. Cerca de 1200 companhias doadoras do Partido Democrata e sindicatos representando 543.812 trabalhadores também receberam renúncia da parte da lei de reforma do sistema de saúde.

Já escrevi uma vez – mas é bom repetir – a respeito de outra desastrosa consequência dos sistemas de saúde administrados por burocratas: a caixinha. As pessoas nos Estados Unidos não estão acostumadas a subornar para conseguir as coisas. Na Romênia comunista, entretanto, a caixinha era o único jeito de conseguir uma consulta com um médico confiável ou uma cama limpa no hospital. Em 2008, The Lancet informou que na Rússia cada médico e cada enfermeira ainda tinham “o seu pequeno imposto” e que “todos eles preferem dinheiro colocado num envelope, é claro”. As enfermeiras cobravam 50 rublos para esvaziar um urinol e 200 rublos para fazer uma lavagem intestinal. As cirurgias começavam em 300 rublos, mas “o céu é o limite”. [iv] Nos Estados Unidos, a caixinha pode não começar de forma tão ostensiva, mas o suborno com certeza logo vai virar regra, de um jeito ou de outro. Na França, por exemplo, a burocracia governamental introduziu recentemente uma franquia de €1 em cada consulta médica, descrita como uma contribution au remboursement de la dette sociale (contribuição para reembolso da dívida social). Isto foi seguido por uma franquia de €18 nos procedimentos médicos “dispendiosos”. Agora, os pacientes franceses estão aprendendo que, se colocarem discretamente um envelope com dinheiro no bolso do avental de laboratório branco do médico pendurado no seu consultório, eles terão mais “atenção”. Uma pequena atenção extra pode ser vital neste tipo de sistema de saúde administrado pelo governo, onde os médicos são obrigados por lei a examinar de sessenta e setenta pacientes por dia.

Um dos maiores mitos sobre o marxismo é a suposta virtude de igualdade para todos. Se todos pudessem ter o mesmo de tudo, o mundo seria um paraíso na terra. Todos os marxistas acreditam que só o estado pode criar tal paraíso. Este ideal utópico agora capturou a imaginação das pessoas nos Estados Unidos também. Eu vivi muitos anos no círculo mais íntimo de um governo marxista pregador deste ideal utópico de igualdade, e é fato que isto não passa de ficção científica. Mentiras. Areia nos olhos do povo. Escrevi, como co-autor, um livro inteiro sobre isto, a ser lançado em breve. Mas imagens costumam ser melhores do que palavras. Os meus compatriotas romenos, que pagaram com 1.104 vidas para se libertar do paraíso marxista, nos deram algumas imagens dolorosamente vívidas: um filme de 2007 chamado The Death of Mr. Lazarescu, ganhador de mais de vinte prêmios internacionais.

Para ver o desastre que um sistema de saúde nacionalizado pode gerar, nada melhor do que assistir The Death of Mr. Lazarescu. Este filme foi inspirado na história real de sofrimento de Constantin Nica, engenheiro romeno aposentado que teve o azar de envelhecer em um país que, vinte anos após o seu último ditador comunista ter sido metralhado pelo seu próprio povo, ainda mantinha um apavorante sistema de saúde governamental e burocratizado.

O roteiro do filme acompanha o fictício paciente Mr. Lazarescu, colocado em uma ambulância do governo romeno que fica perambulando entre diversos hospitais públicos. Nos primeiros três hospitais, apesar dos médicos determinarem a necessidade de uma operação, a burocracia governamental recusa a cirurgia porque ele é muito velho e não tem dinheiro suficiente para a caixinha da equipe hospitalar. Mr. Lazarescu resolutamente recusa-se a desistir, mas, no quarto hospital, os maléficos burocratas vencem – ele morre após uma cirurgia tardia e malfeita. (O verdadeiro Mr. Nica foi despejado por uma ambulância em um banco de praça e deixado lá para morrer.) O inimigo real de Mr. Lazarescu não era a sua doença, mas a atitude autoritária e fria tão profundamente arraigada na prática burocrática. Ante o realismo do filme, até mesmo o jornal The New York Times – forte apoiador do sistema de saúde administrado pelo governo – foi obrigado a admitir que a película “envolve o espectador no mundo que retrata”. [v]

Sugiro fortemente ao nosso movimento conservador o uso deste filme como instrumento de campanha eleitoral. Vamos exibí-lo em todo país, nas convenções conservadoras, nas maiores reuniões de campanha. Pode ser uma proposta cara, mas custará infinitamente menos do que o prejuízo de longo prazo eventualmente gerado por mais quatro anos de esforços do Partido Democrata em “socializar” os Estados Unidos. Este filme ilustra perfeitamente o efeito de longo alcance de um país administrado por burocratas e não por “nós, o povo”.

O cineasta americano Michael Moore glorificou o sistema de saúde britânico nacionalizado em seu documentário Sicko, de 2007, premiado no Festival de Cinema de Cannes e recebedor de uma ovação de pé de 15 minutos por 2 mil pessoas. Em fevereiro de 2012, entretanto, o primeiro ministro britânico, David Cameron, anunciou que o seu governo privatizaria novamente o sistema de saúde nacionalizado do país. Por mais de 40 anos o povo da Grã Bretanha assistiu repetidamente o seu próprio The Death of Mr. Lazarescu. Funcionou lá. Deve funcionar aqui.

[i] “Romania: Health Care System in Transition,” European Observatory on Health Care System, 2000, p.4.
[ii] Helen Womak, “RUssia’s next president needs to tackle health care reforms,” The Lancet, Volume 371, Issue 9614, pages 711-714, March 1, 2008.
[iii] Ross Kaminsky, “What Will Obama’s Plans Cost the Nation?” Human Events, March 17, 2008, p. 1.
[iv] Helen Womack, “Russia’s next president needs to tackle health care reforms,” The Lancet, Volume 371, Issue 9614, Pages 711-714, March 1, 2008.
[v] Stephen Holden, ” The Death of Mr. Lazarescu,” The New York Times, January 2, 2008.

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O triste fim dos aduladores

“Durante os meus anos no topo do serviço de inteligência do bloco soviético, infelizmente conheci muito bem diversos tiranos, e é fato que eles desprezam quem se curva diante deles.” – Ion Mihai Pacepa

O artigo abaixo foi publicado no PJ Media em 22 de setembro de 2012 e foi escrito pelo general romeno Ion Mihai Pacepa, oficial de mais alta patente que desertou do bloco soviético.

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Quando você se curva a um tirano, ele odeia você mais ainda

Segundo o Departamento de Estado, o assassinato do embaixador Christopher Stevens e dos três oficiais americanos encarregados de defendê-lo foi uma reação impulsiva, repentina e não planejada a um filme de baixo orçamento chamado “A Inocência dos Muçulmanos”. Isso não passa de uma canção de ninar de conto de fadas para fazer dormir a indignação americana. A única reação a esta fantasia parece ter sido entre os líderes terroristas muçulmanos, que a entenderam como uma ordem para atacar impunemente as nossas embaixadas em todo o mundo. A embaixada americana no Paquistão está agora sob cerco. Milhares de outros muçulmanos “furiosos” estão gritando “Morte à América” e queimando bandeiras americanas na frente das nossas embaixadas no Egito, Indonésia, Sudão, Kwait, Afeganistão, Tunísia, Iêmen, Alemanha e Grã-Bretanha, para citar só algumas.

Durante os meus anos no topo do serviço de inteligência do bloco soviético, infelizmente conheci muito bem diversos tiranos, e é fato que eles desprezam quem se curva diante deles. Em abril de 1978, o presidente Jimmy Carter aclamou Nicolae Ceausescu, o désposta comunista romeno, como um “grande líder nacional e internacional”. Eu estava de pé ao lado dos dois na Casa Branca, e mal podia acreditar no que ouvia. Horas depois, estava no carro com Ceausescu, saindo da Casa Branca. Ele pegou uma garrafa com álcool e o passou por todo o rosto, em reação a ter sido afetuosamente beijado pelo presidente americano no Salão Oval. Com nojo, Ceausescu disparou uma ofensa contra Carter.

Três meses mais tarde, o presidente Carter assinou o meu pedido de asilo político, e eu disse a ele quem realmente era Ceausescu, e como havia reagido àquele beijo na Casa Branca. Entretanto, na memorável data de 19 de julho de 1979, vi pela TV, incrédulo, o presidente Carter repetir o gesto. Ele beijou carinhosamente Leonid Brezhnev nas duas faces durante o primeiro encontro deles, em Viena.

Também é fato que Brezhnev desprezava as pessoas que se curvavam a ele. Cinco meses após o infame beijo Carter-Brezhnev, uma equipe terrorista da KGB assassinou Hafizullah Amin, primeiro-ministro do Afeganistão, educado nos Estados Unidos, e o substituiu por uma marionete russa. Em seguida, a União Soviética invadiu o Afeganistão, e o presidente Carter protestou timidamente boicotando os Jogos Olímpicos em Moscou. Este novo sinal da fraqueza americana incentivou o regime Taliban e o terrorismo de Osama bin Laden.

Na década de 1990, o governo americano praticamente ignorou o primeiro assalto de bin Laden ao World Trade Center, os atentados a bomba contra as embaixadas americanas na África e o ataque ao destroyer USS Cole. No mesmo período, confiamos as nossas tarefas de segurança nacional e de política externa às mãos das Nações Unidas – cuja resposta veio no dia 3 de maio de 2001, quando a ONU expulsou os Estados Unidos da Comissão de Direitos Humanos.

Mal havíamos colocado os pés no século XXI quando os terroristas de bin Laden desencadearam uma implacável guerra contra o nosso país, com os catastróficos ataques terroristas de 11 de setembro. Logo depois, a Coréia do Norte retirou-se do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, expulsou os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica e deu início a uma venenosa campanha anti-americana. “Vamos exterminar os nossos inimigos declarados, os imperialistas americanos!” é o slogan coreano estampado nos habitáculos dos jatos, nas cabines dos marinheiros e nos postos de sentinela do exército.

Quando Ronald Reagan se tornou presidente, os Estados Unidos estavam sendo tratados com desprezo pelos tiranos mais insignificantes ao redor do mundo. A União Soviética marchava em Angola, Vietnã, Cuba, Etiópia, Síria, El Salvador, Nicarágua, Peru e, é claro, no Afeganistão. O presidente Reagan reverteu esta situação chamando os tiranos e as suas tiranias pelos seus verdadeiros nomes, e os tratando como tal. Você se lembra do “Império do Mal”? Segundo a agência de notícias soviética TASS, estas palavras demonstravam que Reagan era um “anti-comunista lunático e belicoso”. Mas foi precisamente este “anti-comunista lunático” o vencedor da Guerra Fria de 44 anos e foi ele quem restabeleceu a grandeza aos Estados Unidos.

Infelizmente, em 1993, tivemos outro presidente sem personalidade, que retomou a política de Carter de se curvar ante os déspotas comunistas. Em 22 de abril de 2000, durante a Semana Santa, entre a Sexta-feira da Paixão e o Domingo de Páscoa, agentes do presidente Bill Clinton prenderam e mandaram de volta para a Cuba comunista um menino de seis anos, que havia sobrevivido miraculosamente a um naufrágio no qual morrera a sua mãe; ela estava tentando livrar o filho único da tirania de Fidel Castro.

Para Fidel, o esperto e fotogênico Elián González era um “traidor” que podia se tornar um símbolo de liberdade tanto para os exilados de Miami quanto para o povo de Havana, e prejudicar a imagem de Castro no país e no exterior. Assim, tão logo Elián foi encontrado vagando pelo oceano em uma bóia, Fidel Castro reuniu 300 mil cubanos nas ruas de Havana para protestar contra o “sequestro” de Elián pelos Estados Unidos. Fidel tentou, então, atrair Elián de volta – como Ceausescu havia tentado me atrair quando escapei da Romênia. As duas avós de Elián foram despachadas para os Estados Unidos levando álbuns com fotos dos parentes do menino, de colegas de escola, casa, cachorro, papagaio e da carteira escolar vazia “aguardando o seu retorno”. Cuba deu às avós roupas novas e pagou as despesas da viagem. Elas estavam, é claro, acompanhadas por agentes cubanos coordenando cada um dos seus movimentos nos Estados Unidos.

Elián, por si, não caiu nos truques de Castro. Infelizmente, o presidente Clinton e a sua procuradora geral, Janet Reno, engoliram a isca, e o menino voltou para Cuba. Logo em seguida, o Pravda começou a exultar: “como o rompimento de um grande dique, a queda americana na direção do marxismo está acontecendo com velocidade de tirar o fôlego, contra o pano de fundo dos passivos e infelizes não-pensantes – desculpe-me, caro leitor –, quero dizer: do povo.” [2]

Elián González tornou-se um símbolo internacional de liberdade. Hoje, a casa em Miami onde ele viveu como uma criança livre é um museu simples, no qual os visitantes podem ver um relicário popular para o menino – agora, um prisioneiro de 19 anos de idade numa ilha comunista de mortos de fome. O uniforme escolar de Elián ainda está pendurado no armário ao lado de muitas roupas que ele nunca teve a chance de usar. Também está em exposição uma foto gigante da Associated Press mostrando um agente federal americano apontando uma arma automática para Elián, escondido num guarda-roupas. [3]

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De acordo com as leis internacionais, as nossas embaixadas são parte do território dos EUA, e um ataque armado contra uma embaixada americana é considerado um ato de guerra contra os Estados Unidos. Até o momento, tudo indica que o ataque armado contra o nosso consulado em Benghazi foi planejado e executado por terroristas. Se isto for comprovado, o assassinato do embaixador Christopher Stevens foi, realmente, um ato de guerra contra os Estados Unidos.

Um sentinela da segurança líbia no consulado, ferido gravemente no assim chamado ataque “espontâneo”, testemunhou que “não havia uma única mosca do lado de fora” até 9:35 da noite, quando pelo menos 125 homens armados atacaram o complexo vindos de todas as direções. Lançaram granadas de mão enquanto gritavam “Deus é grande”.  Feriram o sentinela, e em seguida foram para as vilas que fazem parte do complexo do consulado.

Por sua vez, o presidente interino da Líbia, Mohamed el-Megarif, disse que os terroristas escolheram uma “data específica” para o ataque, e que “estrangeiros” participaram dele.

O nosso embaixador na Líbia foi assassinado no dia 11 de setembro de 2012, dia de luto nos Estados Unidos pela morte de quase três mil americanos, também vítimas de terroristas islâmicos. Acontece que este dia é, na verdade, a celebração de um aniversário importante para o Kremlin – 125 anos do nascimento de Feliks Dzerzhinsky, o fundador da KGB, agora renomeada FSB.

Esteve o Kremlin envolvido no assassinato do nosso embaixador na Líbia? Ainda não sabemos. Mas sabemos que o embaixador foi morto com armas e munição russas. Também sabemos da propensão do Kremlin e de suas agências de inteligência pelo uso do simbolismo, uma arma emocional habilmente manejada por todos os czares russos e pelos seus sucessores comunistas.

O emblema da União Soviética era formado pela foice e pelo martelo para simbolizar a aliança entre o proletariado e os camponeses. O emblema da KGB era uma espada e um escudo, simbolizando os seus deveres: colocar os inimigos do país sob a espada e abrigar e proteger a revolução comunista. A maior parte das organizações terroristas financiadas pela KGB eram chamadas de movimentos de “libertação” para simbolizar o compromisso do Kremlin de libertar o resto do mundo da “tirania americana”. A Organização para Libertação da Palestina no Oriente Médio (criada e financiada pela KGB), o Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), criado pela KGB com a ajuda de Fidel Castro (que depois se envolveu profundamente em sequestro de pessoas e aviões, atentados a bomba e guerrilha), e o Exército de Libertação Nacional da Bolívia, criado pela KGB em 1964 com a ajuda de Ernesto “Che” Guevara, são apenas alguns deles.

Acima de tudo, é fato que o chefe da KGB, Yury Andropov, e os seus vice-reis do leste europeu, abriram uma garrafa de champagne para comemorar a explosão da bomba terrorista na Zion Square em Jerusalém no dia 4 de julho de 1975, que deixou 15 mortos e 64 feridos. Foi um insulto direto aos Estados Unidos, cuja data nacional é o Quatro de Julho. Também é significativo que o primeiro ataque ao World Trade Center de Nova Iorque, concebido para derrubar a Torre Norte sobre a Torre Sul e gerar uma carnificina, aconteceu no dia 26 de fevereiro de 1993, quando o Kremlin celebrava os 41 anos do primeiro teste nuclear soviético. O ataque suicida contra o destroyer USS Cole, no qual morreram 17 marinheiros e ficaram feridos 39, ocorreu no dia 12 de outubro de 2000. Era o aniversário do início da principal ofensiva israelense, ocorrida em 1973, decisiva para a vitória na guerra do Yom Kippur. O significado das fracassadas tentativas dos atentados a bomba em Detroit e Nova Iorque no Natal de 2009 não precisa de explicação.

Por fim, sabemos que, durante a Guerra Fria, a KGB era um estado dentro do estado, mas agora a KGB é o estado. Em 2003, três anos após o antigo oficial da KGB Vladimir Putin se sentar, com estardalhaço, no trono do Kremlin, cerca de seis mil oficiais aposentados da KGB – a organização responsável pelo massacre de 20 milhões de pessoas apenas na União Soviética – ocupavam o governo federal e os governos locais da Rússia.

Não estou mais no olho do furacão, nem tenho inside information para saber se o criminoso ataque ao nosso consulado em Benghazi foi concebido pelos antigos oficiais da KGB, hoje governantes da Rússia. Mas o nosso FBI é uma excelente organização, capaz de descobrir a resposta. Infelizmente, por razões políticas, a administração e os líderes do Partido Democrata têm tirado conclusões rápido demais, sem conhecer a verdade. Para eles, o prestígio e a segurança da administração parecem ser muito mais importantes do que o prestígio e a segurança dos Estados Unidos.

Os americanos são pessoas orgulhosas do seu país e o amam com ternura. Esperemos que em novembro eles escolham proteger a segurança e o prestígio dos Estados Unidos, e não da administração atual.

[1] Sang-Hun Choe, “N. Korea fuels hatred of all things American,” The Associated Press, January 15, 2003, internet edition.
[1] President Nicolae Ceausescu’s State Visit to the USA: April 12-17, 1978, English version. Bucharest: Meridiane Publishing House, 1978, p. 78.
[2] “American capitalism gone with a whimper,” Pravda, April 27, 2004.
[3] Elián González saga still vivid for many, 10 years later,” CNN, April 22, 2010.

Nota do Tradutor: o artigo original tem mesmo duas notas [1], ambas sem indicação no corpo do texto.

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E eles nada perceberam

O Apanhador no Campo de Centeio é uma fotografia. Salinger captou o exato momento em que a sociedade americana se transformava, passando de uma nação cristã para uma nação pagã, tentando manter a aparência de virtude enquanto se preocupava em encher o bolso de grana. É o retrato da hipocrisia de toda uma época, pintado por um menino inconformado com a mentira e a falsidade, preocupado com o destino que a verdade e a sinceridade iam tomando numa sociedade onde cada um cuidava de si, incapaz de enxergar o outro – a necessidade que o outro tem de nós e a necessidade que nós temos do outro. O egoísmo cegou toda uma civilização, para a qual não há desculpa porque a cegueira foi voluntária.

Naquele tempo, todos casavam e se davam em casamento. Comiam e bebiam.Trabalhavam no campo, trabalhavam no moinho. Exatamente igual a hoje. Comemos e bebemos, trabalhamos e descansamos, cuidamos das nossas coisinhas…

Hein?! Deus? A Verdade? Os nossos irmãos? Ora…

“E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos.

– Por isso, também vós ficais preparados! Porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do Homem.”

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A KGB e o Assassinato de JFK: A Nova Prova

“Para entender realmente os mistérios da espionagem soviética, de nada ajuda ver um filme de agente secreto ou ler um romance de espiões, pois isto é apenas diversão. Você precisa ter vivido naquele mundo de segredo e falsidade durante uma vida, como eu vivi, e mesmo assim pode não entender o que está acontecendo nos momentos mais obscuros, a menos que seja um dos pouquíssimos no topo da pirâmide.”

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O artigo abaixo, publicado no site PJ Media em 20 de novembro, foi escrito pelo general Ion Mihai Pacepa, o oficial de mais alta patente que desertou do bloco comunista.

A Mão da KGB no Assassinato de JFK: A Nova Prova

O presidente John F. Kennedy foi assassinado faz 50 anos, e a maior parte das pessoas ainda acredita erroneamente que o culpado foi a CIA ou o FBI, a máfia ou os empresários conservadores americanos. Também há 50 anos, o Kremlin deu início a uma intensa operação de desinformação mundial, de codinome “Dragon”, destinada a desviar a atenção da ligação da KGB com Lee Harvey Oswald. Há uma conexão entre os fatos: Oswald era um marine americano que desertou para Moscou, retornou aos Estados Unidos três anos depois com a sua esposa russa, matou o presidente Kennedy e foi preso antes de conseguir pôr em prática o seu plano de fugir para Moscou. Em uma carta datada de 1° de julho de 1963, Oswald pediu à embaixada soviética em Washington, D.C., para conceder à sua esposa um visto imediato de entrada na União Soviética e outro para ele separadamente (na carta, “separadamente” está escrito com erro de ortografia e sublinhado).

A operação “Dragon” do Kremlin está descrita no meu livro Programmed to Kill: Moscow’s Responsibility for Lee Harvey Oswald’s Assassination of President John Fitzgerald Kennedy. Em 2010, este livro foi exibido na Organization of American Historians junto com uma resenha do professor Stan Weber (McNeese State University). Ele descreveu o livro como um “novo e excelente trabalho exemplar sobre a morte do presidente Kennedy” e “leitura obrigatória por toda e qualquer pessoa interessada no assunto”. [i]

Programmed to Kill é uma análise real do crime do século da KGB cometido durante a era Khrushchev. Naqueles dias, o antigo conselheiro chefe da KGB na Romênia havia se tornado o comandante do onipotente serviço de espionagem estrangeiro soviético e me levou para os mais altos círculos da camarilha da inteligência do bloco soviético. O meu livro também contém uma apresentação real dos frenéticos esforços de Khrushchev para proteger o seu traseiro. Lembrando-se de que o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand pelo terrorista sérvio Gavrilo Princip, em 1914, havia dado início à Primeira Guerra Mundial, Khrushchev temia que o conhecimento pelos EUA do envolvimento da KGB com Oswald podia ser o estopim da primeira guerra nuclear. Os interesses de Khrushchev coincidiram com os interesses de Lyndon Johnson, o novo presidente americano, prestes a enfrentar eleições em menos de um ano, e qualquer conclusão implicando a União Soviética no assassinato forçaria Johnson a tomar uma ação política ou militar indesejada, prejudicando ainda mais a sua popularidade, já baixa por causa da guerra no Vietnã.

De acordo com novos documentos da KGB, disponíveis após Programmed to Kill ter sido publicado, o esforço soviético para desviar a atenção do envolvimento da KGB no assassinato de Kennedy começou no dia 23 de novembro de 1963 – o dia imediatamente seguinte ao dia em que Kennedy foi morto – e teve início com um memorando para o Kremlin assinado pelo comandante da KGB Vladimir Semichastny. Ele pediu ao Kremlin para publicar imediatamente um artigo em um “jornal progressista em um dos países do Ocidente… mostrando a tentativa, por círculos reacionários nos EUA, de tirar a responsabilidade pelo assassinato de Kennedy dos verdadeiros criminosos, [ou seja], os racistas e ultra-direitistas, culpados pela propagação e crescimento da violência e terror nos Estados Unidos”.

O Kremlin concordou. Dois meses mais tarde, R. Palme Dutt, editor de um jornal britânico controlado pelos comunistas chamado Labour Monthly, assinou um artigo levantando o espectro do envolvimento da CIA sem oferecer a mínima prova. “[A maior parte d]os comentaristas” Dutt escreveu “suspeita de um golpe de ultra-direitistas ou racistas de Dallas… [que], com a manifesta cumplicidade necessária por parte de uma ampla gama de autoridades, exibe todos os carimbos de um trabalho da CIA”. A carta super secreta de Semichastny e o subsequente artigo de Dutt foram reveladas pelo ex-presidente russo Boris Yeltsin no seu livro The Struggle for Russia, publicado 32 anos após o assassinato de Kennedy.

Não é de admirar que Yeltsin tenha sido desalojado do palácio por um golpe da KGB transferindo o trono do Kremlin para as mãos da KGB – que ainda o segura com firmeza. Em 31 de dezembro de 1999, Yeltsin surpreendeu a Rússia e o resto do mundo ao anunciar a sua aposentadoria. “Entendo que devo fazê-lo” [ii] explicou, falando em frente de uma árvore festivamente decorada para o Ano Novo junto a uma bandeira russa azul, vermelha e branca e uma águia russa dourada. Yeltsin em seguida assinou uma lei “no uso dos poderes do presidente russo” declarando que, sob o Artigo 92 Seção 3 da Constituição Russa, o poder do presidente russo seria temporariamente exercido pelo Primeiro Ministro Vladimir Putin, a partir do meio-dia de 31 de dezembro de 1999. [iii] De sua parte, o recentemente designado presidente assinou um decreto perdoando Yeltsin, supostamente ligado a pesados escândalos de suborno, “de quaisquer possíveis delitos” e concedendo a ele “total imunidade” a processos (ou até mesmo investigações e interrogatórios) referentes a “toda e qualquer” ação realizada durante o governo. Putin também deu a Yeltsin uma pensão vitalícia e uma dacha do estado. [iv]

Logo em seguida, a pequena janela no arquivo da KGB, aberta com estrondo por Yeltsin, foi fechada silenciosamente. Felizmente, antes disso ele foi capaz de revelar o memorando de Semichastny, responsável por gerar a conspiração Kennedy que nunca mais parou.

O artigo de Dutt foi seguido pelo primeiro livro sobre o assassinato de JFK publicado nos Estados Unidos: Oswald: Assassin or Fall Guy? Escrito por um antigo membro do Partido Comunista da Alemanha, Joachim Joesten, foi publicado em Nova Iorque em 1964 por Carlo Aldo Marzani, antigo membro do Partido Comunista Americano e agente da KGB. O livro de Joesten alega, sem fornecer nenhuma prova, que Oswald era “um agitador do FBI com passado na CIA”. Documentos altamente secretos da KGB contrabandeados da Rússia pelo desertor Vasili Mitrokhin, com a ajuda do MI6 britânico, em 1993 – bem depois das duas investigações do governo americano sobre o assassinato terem sido concluídas – mostram que no início dos anos 1960, Marzani recebeu subsídios num total de 672 mil dólares do Comitê Central do Partido Comunista. Isto levanta a questão do porquê Marzani ter sido pago pelo partido e não pela KGB, da qual era agente. A carta recentemente liberada de Semichastny nos dá a resposta: no dia seguinte ao do assassinato, o Kremlin assumiu o controle da operação de desinformação destinada a culpar os Estados Unidos pelo assassinato de JFK. Por este motivo, Oswald: Assassin or Fall Guy? foi promovido por uma operação conjunta do partido com a KGB.

A primeira resenha do livro, altamente elogiosa, foi assinada por Victor Perlo, membro do Partido Comunista Americano, e publicada em 23 de setembro de 1964 na publicação New Times, a qual eu conhecia como uma fachada da KGB por ter sido impressa uma vez na Romênia. Em 9 de dezembro de 1963, o jornalista “progressista” americano I. F. Stone publicou um longo artigo no qual tentou justificar porque os Estados Unidos haviam assassinado o seu próprio presidente. Ele chamou Oswald de louco direitista, mas colocou a culpa real na “belicosa Administração” dos Estados Unidos, que estava tentando vender para a Europa uma “monstruosidade nuclear”. Stone foi identificado como agente pago da KGB, de codinome “Blin”.

Joesten dedicou o seu livro a Mark Lane, esquerdista americano autor, em 1966, do best-seller Rush to Judgment, segundo o qual Kennedy fôra assassinado por um grupo americano conservador. Documentos do Arquivo Mitrokhin mostram que a KGB enviou indiretamente dinheiro para Mark Lane (dois mil dólares) e que o agente da KGB Genrikh Borovik mantinha contato regular com ele. Outro desertor da KGB, o coronel Oleg Gordievsky (antigo chefe do posto da KGB em Londres) identificou Borovik como cunhado do general Vladimir Kryuchkov; Kryuchlov se tornou comandante da KGB em 1988 e em agosto de 1991 liderou o golpe em Moscou tentando recriar a União Soviética.

O ano de 1967 viu a publicação de mais dois livros atribuídos a Joesten: The Case Against Lyndon Johnson in the Assassination of President Ken­nedy e Oswald: The Truth. Ambos sugeriam que o presidente Johnson e a CIA haviam matado Kennedy. Logo foram seguidos por A Citizen´s Dissent, de Mark Lane (1968). Lane também viajou bastante mundo afora pregando que os Estados Unidos eram um “estado policial do FBI” responsável pela morte do seu próprio presidente.

Com tais livros, a conspiração sobre Kennedy nascera, e jamais morreria. A crescente popularidade dos livros sobre o assassinato de JFK encorajou todo o tipo de gente com qualquer conhecimento remotamente relacionado com o assunto a entrar na festa, cada qual vendo os eventos a partir de sua limitada perspectiva. Alguns milhares de livros foram escritos sobre o assassinato de Kennedy, e a hemorragia continua. A despeito desta crescente montanha de papel, uma explicação satisfatória da motivação de Oswald ainda precisa ser dada, primeiramente porque a importante dimensão do assunto da política externa soviética e da prática da inteligência soviética no fim dos anos 1950 e no começo dos anos 1960 ainda não foi relacionada com Oswald por nenhuma autoridade competente. Por que não? Porque nenhuma destas autoridades jamais pertenceu à KGB, nenhuma tem familiaridade com o seu modus operandi.

Por sua própria natureza, a espionagem é um empreendimento enigmático e dúbio, e  nas mãos dos soviéticos desenvolveu-se e virou uma filosofia completa, onde cada aspecto tinha o seu próprio conjunto de regras testadas e precisas e seguia um padrão fixo. Para entender realmente os mistérios da espionagem soviética, de nada ajuda ver um filme de agentes secretos ou ler um romance de espiões, pois isto é apenas diversão. Você precisa ter vivido naquele mundo de segredo e falsidade durante uma vida, como eu vivi, e mesmo assim pode não entender o que está acontecendo nos momentos mais obscuros, a menos que seja um dos pouquíssimos no topo da pirâmide.

Por isso, fiz uma curta apresentação destes momentos sombrios, cruciais para entender como o Kremlin tem sido capaz de fazer todo mundo de bobo, levando todos a acreditar que os Estados Unidos mataram um dos seus mais amados presidentes. Clique aqui para ler “11 Facts That Destroy JFK Conspiracy Theories”. Vamos juntos retornar àquele mundo de espionagem e falsidade soviéticas. Ao fim do nosso resumo, espero que você concorde comigo de que os soviéticos têm uma mão no assassinato do presidente Kennedy. Também espero que depois você veja com olhos diferentes futuros documentos referentes ao assassinato de JFK. Talvez você possa descobrir manobras soviéticas/russas neles ocultas.

[i] Stan Weber, “A New Paradigmatic Work on the JFK Assassination,” H-Net Online, October 2009, http://www.h-net.org/reviews/showrev.php?id=25348
[ii] Barry Renfrew, “Boris Yeltsin Resigns,” The Washington Post, December 31, 1999, 6:48 a.m.
[iii] Matt Drudge Report, December 31, 1999, 11:00 AM UTC.
[iv] Ariel Cohen, “End of the Yeltsin Era,” The Washington Times, January 3, 2000, Internet Edition, cohen-20000103.

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Como o Kremlin mata

O texto abaixo foi publicado no National Review Online em 28 de novembro de 2006. O autor é o general Ion Mihai Pacepa, oficial de mais alta patente que desertou do bloco comunista.

Como o Kremlin mata

Uma longa tradição continua.

Não tenho dúvidas de que o oficial aposentado da KGB/FSB, Alexander Litvinenko, foi assassinado por ordem de Putin. Foi morto, acredito, por ter revelado os crimes de Putin e o treinamento secreto, pela FSB,  de Ayman al-Zahawiri, o número dois da al Qaeda. É fato que o Kremlin tem usado repetidamente armas radioativas para matar os seus inimigos políticos no exterior. No fim da década de 1970, Leonid Brezhnev deu a Ceausescu, via KGB e sua irmã romena, a Securitate, tálio radioativo solúvel em pó, para ser colocado na comida; o veneno servia para matar inimigos políticos no exterior. De acordo com a KGB, o tálio radioativo se desintegraria dentro do corpo da vítima, gerando uma forma de câncer fatal e galopante, e não deixando nenhum traço detectável na autópsia. A substância foi descrita para Ceausescu como uma nova geração da arma de tálio radioativo usada, sem sucesso, contra o desertor da KGB Nikolay Khokhlov na Alemanha Ocidental em 1957. (Khokhlov perdeu todos os cabelos mas não morreu.) O codinome romeno era “Radu” (de radioativo) e eu a descrevi no meu primeiro livro, Red Horizons, publicado em 1987. O Polônio 210 usado para matar Litvinenko parecer ser uma nova versão de “Radu”.

O assassinato como política externa

Os esforços sistemáticos do Kremlin para assassinar inimigos políticos no exterior (não só com veneno, é claro) começou poucos meses depois do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, realizado em fevereiro de 1956, no qual Khrushchev expôs os crimes de Stalin. Em abril daquele ano, o general Ivan Anisimovich Fadeyev, chefe do novo 13° Departamento da KGB, responsável por assassinatos no exterior, chegou a Bucareste para uma “troca de experiências” com o DIE, o serviço de inteligência estrangeira romeno, ao qual eu pertencia. Antes disso, Fadeyev havia chefiado o enorme posto de inteligência da KGB em Karlhorst, Berlim Oriental, e era conhecido em toda a nossa comunidade de inteligência como um sanguinário, responsável pelo sequestro de centenas de ocidentais e cujas tropas haviam suprimido brutalmente as demonstrações anti-soviéticas de 13 de junho de 1953 em Berlim Oriental.

Fadeyev começou a sua “troca de experiências” em Bucarest nos dizendo que Stalin havia cometido um erro indesculpável: havia apontado a lâmina do aparato de segurança do estado contra o “seu próprio povo”. Quando Khrushchev fez o seu “discurso secreto”, a sua única intenção era corrigir aquela aberração. “Os nossos inimigos” não estão na União Soviética, Fadeyev explicou. As burguesias da América e da Europa Ocidental queriam liquidar o comunismo. Elas eram os “nossos inimigos mortais”. Eram os “cachorros loucos” do imperialismo. Devíamos apontar a lâmina da nossa espada contra elas, e apenas contra elas. Era isto o que Nikita Sergeyevich realmente queria dizer com o seu “discurso secreto”.

De fato, Fadeyev disse, uma das primeiríssimas decisões de política externa de Khrushchev foi a sua ordem de 1953 para assassinar secretamente um destes “cachorros loucos”: Georgy Okolovich, o líder da National Labor Alliance (Natsionalnyy Trudovoy Soyuz, ou NTS), uma das organizações de russos exilados mais agressivamente anti-comunista da Europa Ocidental. Infelizmente, Fadeyev nos disse, o líder da equipe de assassinos Nikolay Khokhlov, chegando ao destino, havia desertado para a CIA e denunciado publicamente a mais recente arma secreta criada pela KGB: um revólver operado eletricamente escondido dentro de um maço de cigarros que disparava balas com ponta carregadas de cianeto. E, como um problema nunca vem sozinho, Fadeyev acrescentou, dois outros oficiais da KGB familiarizados com a estratégia de assassinatos haviam desertado logo após Khokhlov: Yury Rastvorov em janeiro de 1954 e Petr Deryabin em fevereiro de 1954.

Tudo isso, Fadeyev disse, havia levado a mudanças drásticas. Em primeiro lugar, Khrushchev havia ordenado à sua máquina de propaganda para espalhar por todo o mundo o boato de que ele tinha abolido a estratégia de assassinatos da KGB. Em seguida, ele denominou os assassinatos no exterior com o eufemismo “neutralizações”, renomeando a 9a Seção da KGB – como a divisão de assassinatos era chamado na época – como 13° Departamento, sepultando-a sob um segredo ainda mais profundo do que antes, e a colocando sob a sua supervisão direta. (Mais tarde, após o 13° Departamento ter sido comprometido, o nome foi alterado de novo.)

Em seguida, Khrushchev introduziu uma nova “metodologia” para a execução de operações de neutralização. A despeito da inclinação da KGB pela papelada burocrática, estes casos deviam ser tratados rigorosamente sem anotações e mantidos em segredo para sempre. Também deviam ser mantidos completamente em segredo do Politburo e de todos os demais órgãos governamentais. “O Camarada, e somente o Camarada”, Fadeyev enfatizou, podia agora aprovar neutralizações no exterior. (Nos altos círculos do bloco soviético, o termo “o Camarada” designava coloquialmente o líder de cada país.) Independentemente de quaisquer evidências produzidas pelas investigações policiais estrangeiras, a KGB – bem como as suas irmãs dos serviços secretos – jamais, sob quaisquer circunstâncias, podia admitir o envolvimento em assassinatos no exterior; todas as evidências produzidas deviam ser completamente rejeitadas como acusações ridículas. E, finalmente, após cada operação, a KGB devia secretamente espalhar “provas” no exterior acusando a CIA ou qualquer outro “inimigo” conveniente de ter cometido o ato, e assim matando, se possível, dois coelhos com uma cajadada só. Em seguida, Khrushchev mandou a KGB desenvolver uma nova geração de armas para matar sem deixar traços no corpo da vítima.

Antes de Fadeyev deixar Bucareste, o DIE havia instituído a sua própria divisão de operações de neutralização, denominada de Grupo Z, pois a letra Z era a última letra do alfabeto, significando a “solução final”. Esta nova unidade agiu, então, para conduzir a sua primeira operação de neutralização no bloco soviético sob as novas regras de Khrushchev. Em setembro de 1958, o Grupo Z, ajudado por uma equipe especial da alemã oriental Stasi, sequestrou da Alemanha Ocidental o líder anti-comunista romeno Oliviu Beldeanu. Os governos da Alemanha Oriental e da Romênia jogaram a responsabilidade pelo crime nas costas da CIA, publicando comunicados oficiais alegando que Beldeanu havia sido preso na Alemanha Oriental após ter sido secretamente infiltrado naquele país pela CIA para realizar operações de sabotagem e manobras diversionistas.

A exportação de uma tradição

Vladimir Putin parece ser apenas o mais recente de uma longa linha de czares russos mantenedor da tradição de assassinar qualquer um que atravesse o seu caminho. A prática remonta, pelo menos, ao século XIV de Ivan, o Terrível, assassino de milhares de aristrocratas e de outras pessoas, incluindo o Metropolitano Philip e o príncipe Alexander Gorbatyl-Shuisky, mortos por terem se recusado a prestar o juramento de obediência ao filho mais velho do czar, criança na época. Pedro, o Grande, lançou a sua polícia política contra todos os que falassem contra ele, desde a sua própria esposa a bêbados que contavam piadas sobre o seu governo; ele até mesmo fez a polícia política enganar e levar de volta à Rússia o próprio filho e herdeiro, o tsarevich Aleksey, a quem torturou até a morte.

Sob o comunismo, os assassinatos arbitrários se tornaram uma política de estado. Em 11 de agosto de 1918, numa ordem escrita à mão ordenando o enforcamento de pelo menos 100 kulaks na torre de Penza para servir de exemplo, Lênin escreveu: “Enforquem (enforquem sem falta, para o povo ver) não menos do que cem kulaks conhecidos, homens ricos, agiotas… Façam de tal forma que o povo num raio de centenas de quilômetros veja, estremeça, saiba e grite: eles estão amarrando e estrangulando até a morte estes kulaks agiotas”. (Esta carta fez parte de uma exposição intitulada “Revelations from the Russian Archives” exibida na Biblioteca do Congresso, Washington, D.C., em 1992.)

Durante o expurgo de Stalin, cerca de nove milhões de pessoas perderam a vida. Dos sete membros do Politburo de Lênin da época da Revolução de Outubro, somente Stalin estava vivo quando o massacre terminou.

O que eu sempre achei até mais perturbador do que a brutalidade destes crimes era o profundo envolvimento dos líderes soviéticos neles. Stalin ordenou pessoalmente que Leon Trotsky, o co-fundador da União Soviética, fôsse assassinado no México. E Stalin entregou em mãos a Ordem de Lênin para a comunista espanhola Caridad Mercader del Rio, cujo filho, o oficial da inteligência soviética, Ramón Mercader, havia assassinado Trotsky em agosto de 1940 esmagando-lhe a cabeça com uma picareta. Da mesma forma, Khrushchev colocou, com as próprias mãos, a mais alta medalha soviética no peito de Bogdan Stashinsky, oficial da KGB responsável pelo assassinado dois líderes anti-comunistas exilados na Alemanha Ocidental em 1962.

O meu primeiro contato com as operações de “neutralização” do Kremlin ocorreram em 5 de novembro de 1956, quando eu estava em treinamento no ministério de relações exteriores para assumir o meu falso cargo de representante chefe da Missão Romena na Alemanha Ocidental. Mihai Petri, um oficial do DIE atuando como ministro representante, disse-me que o “big boss” precisava de mim imediatamente. O “big boss” era o general disfarçado da KGB Mikhail Gavrilyuk, romenizado como Mihai Gavriliuc e chefe do meu DIE.

“É khorosho ver um velho amigo, Ivan Mikhaylovich” ouvi do homem descansando em uma cadeira confortável na mesa de Gavriliuc. Era o general Aleksandr Sakharovsky, que se levantou da cadeira e estendeu a mão. Ele havia criado o DIE e, como conselheiro de inteligência soviético do órgão, havia sido o meu chefe de facto até alguns meses antes, quando foi escolhido por Khrushchev para chefiar a toda-poderosa PGU (Pervoye Glavnoye Upravleniye, ou Primeira Diretoria Geral da KGB, o serviço de inteligência estrangeira da União Soviética). “Deixe-me apresentar você a Ivan Aleksandrovich” ele disse, apontando um rústico e desgastado par de óculos esporte com aros dourados. Era o general Ivan Serov, o novo chefe da KGB. Os dois visitantes estavam usando camisas típicas ucranianas floridas folgadas e calças esporte, em total contraste com os trajes acinzentados e cheio de botões estilo Stalin, até recentemente o uniforme virtual da KGB. (Até hoje para mim ainda é um mistério o motivo pelo qual a maior parte dos altos oficiais da KGB que eu conheci se esforçavam para imitar o líder soviético no poder. Seria simplesmente uma herança oriental dos tempos dos czares, quando os burocratas russos faziam qualquer coisa para adular os seus superiores?)

Os visitantes disseram que na noite anterior o premiê húngaro Imre Nagy, responsável pela cisão com o Pacto de Varsóvia e pelo pedido de ajuda às Nações Unidas, havia procurado refúgio na embaixada ioguslava. O ditador romeno Gheorghe Gheorghiu-Dej e o membro do Politburo Walter Roman (colega de Nagy dos anos de guerra quando ambos haviam trabalhado para o Comintern em Moscou) concordaram em voar para Budapeste para ajudar a KGB a sequestrar Nagy e levá-lo à Romênia. O major Emanuel Zeides, o chefe do setor alemão, fluente em húngaro, iria com eles como intérprete. “Quando Zeides Vienna você chefia nemetskogo otdeleniya” Gavriliuc me disse, finalmente deixando claro o motivo pelo qual eu havia sido convocado. Ou seja, eu seria o responsável pelo braço alemão do DIE.

Em 23 de novembro de 1956, os três membros do Politburo soviético que haviam coordenado de Budapeste a intervenção militar na Hungria enviaram um telegrama cifrado para Khrushchev:

Camarada Walter Roman, que chegou em Budapeste junto com o Camarada Dej ontem, dia 22 de novembro, teve longas discussões com Nagy… Imre Nagy e o seu grupo deixaram a embaixada ioguslava e estão agora em nossas mãos. Hoje o grupo partirá para a Romênia. O Camarada Kadar e os camaradas romenos estão preparando um adequado comunicado à imprensa. Malenkov, Suslov, Aristov.

Um ano mais tarde, Nagy e os principais membros do seu gabinete foram enforcados, após um julgamento encenado organizado pela KGB em Budapeste.

Em fevereiro de 1962, a KGB quase conseguiu assassinar o xá do Irã, que havia cometido o imperdoável “crime” de remover um governo comunista instalado no noroeste do Irã. O conselheiro-chefe da razvedka (inteligência estrangeira, em russo) do DIE jamais nos falou muito sobre a fracassada tentativa da KGB de matar o xá, mas deu ordens ao posto do DIE em Teerã para destruir todos os documentos comprometedores, suspender todas as operações dos agentes e relatar tudo, incluindo boatos, a respeito do atentado contra o xá. Poucos dias depois, ele cancelou o plano do DIE para matar o seu próprio desertor Constantin Mandache na Alemanha Ocidental com uma bomba colocada num carro porque, o conselheiro nos disse, o controle remoto, fornecido pela KGB para esta operação, poderia apresentar problemas de funcionamento. Em 1990, Vladimir Kuzichkin, oficial da KGB diretamente envolvido no atentado fracassado para matar o xá e que depois desertou para o Ocidente, publicou um livro (Inside the KGB: My Life in Soviet Espionage, Pantheon Books, 1990) no qual descreve a operação. De acordo com Kuzichkin, o xá escapou porque o controle remoto, usado para detonar uma grande quantidade de explosivos em um automóvel Volkswagen, falhou.

Dissidentes Silenciados

Em um domingo, 20 de março de 1965, fiz a minha última visita à residência de inverno de Gheorghiu-Dej em Predeal. Como de costume, encontrei-o com o seu melhor amigo, Chivu Stoica, chefe honorário da Romênia. Dej reclamou que se sentia fraco, tonto e com náuseas. “Acho que a KGB me pegou” ele disse, meio sério, meio brincando. “Eles pegaram Togliatti. É certeza” sussurrou Stoica com raiva.

Palmiro Togliatti, chefe do partido comunista italiano, havia morrido em 21 de agosto de 1964, durante uma visita à União Soviética. Nos altos círculos da comunidade de inteligência estrangeira do bloco acreditava-se que havia morrido de uma rápida forma de câncer após ter sido irradiado pela KGB a mando de Khrushchev durante férias em Yalta. O seu assassinato havia sido provocado porque, enquanto estava na União Soviética, havia escrito um “testamento” no qual expressara profundo descontentamento com os erros de Khrushchev. As frustrações de Togliatti expressavam não apenas a sua opinião mas também a de Leonid Brezhnev. De acordo com Dej, estas suspeitas foram confirmadas pelo fato de que Brezhnev foi ao funeral de Togliatti em Roma; em setembro de 1964 o Pravda publicou trechos do “testamento” de Togliatti e cinco semanas mais tarde Khrushchev foi destronado após ser acusado de conspiração impulsiva, decisões precipitadas, ações divorciadas da realidade, arrogância e governo por decreto.

Eu vi Dej amedrontado. Ele também havia criticado a política externa de Khrushchev. Mais ainda, um ano antes ele havia expulsado todos os conselheiros da KGB da Romênia e no mês de setembro anterior havia expressado a Khrushchev a sua preocupação sobre a “estranha morte” de Togliatti. Durante as eleições de 12 de março de 1965 para a Grande Assembléia Nacional da Romênia, Gheorghiu-Dej ainda parecia robusto. Uma semana depois, entretanto, morreu de uma forma galopante de câncer. “Assassinado por Moscou” sussurrou para mim o novo líder romeno, Nicolae Ceausescu, poucos meses depois. “Irradiado pela KGB” murmurou num tom de voz mais baixo ainda, afirmando “Isto ficou bem provado na autópsia”. O assunto havia vindo à tona porque Ceausescu havia me mandado comprar dispositivos ocidentais de detecção de radiação (contadores Geiger-Müller) e mandado instalá-los secretamene em seus escritórios e residências.

Logo após a invasão de Praga pelos soviéticos, Ceausescu passou do stalinismo para o maoísmo, e em junho de 1971 visitou a China Vermelha. Lá, soube do complô da KGB para matar Mao Tsé-Tung com a ajuda de Lin Biao, comandante do exército chinês, educado em Moscou. O plano falhou, e Lin Biao tentou, sem sucesso, fugir da China em um avião militar. A sua execução só foi anunciada em 1972. Durante o mesmo ano, eu soube de detalhes do plano soviético por meio de Hua Guofeng, ministro de segurança pública – que em 1977 viria a ser o líder supremo da China.

“Dez”, Ceausescu me disse. “Dez líderes internacionais que o Kremlin matou ou tentou matar” ele explicou, enumerando-os nos dedos. Laszlo Rajk e Imre Nagy, na Hungria; Lucretiu Patrascanu e Gheorghiu-Dej, na Romênia; Rudolf Slansky, líder da Checoslováquia, e Jan Masaryk, diplomata chefe do país; o xá do Irã; Palmiro Togliatti da Itália; o presidente americano John F. Kennedy e Mao Tsé-Tung. (Entre os líderes dos serviços de inteligência satélites de Moscou era consenso que a KGB estava envolvida no assassinato do presidente Kennedy.)

Imediatamente, Ceausescu ordenou que eu criasse uma unidade super-secreta de contrainteligência para operações em países socialistas (isto é, no bloco soviético). “Você tem mil pessoas para isto.” Advertiu também que a nova unidade devia ser “não existente”. Nenhum nome, nenhum título, nenhuma placa na porta. A nova unidade recebeu somente a designação genérica U.M. 0920/A, e o seu comandante recebeu a categoria de chefe de diretoria do DIE.

Ordem para Matar

No inesquecível dia de 22 de julho de 1978, Ceausescu e eu estávamos escondidos, de tocaia para caçar pelicanos em um canto remoto do Delta do Danúbio, onde nem mesmo um pássaro poderia nos ouvir. Como homem disciplinado e general aposentado, ele era fascinado pela sociedade estruturada dos pelicanos brancos. Os pássaros mais velhos – os avós – sempre ficavam na parte frontal da praia, perto da água e da fonte de alimentação. Os seus filhos respeitadores se alinhavam atrás deles em filas ordenadas, enquanto os netos passavam o tempo se movimentando na parte de trás. Eu frequentemente ouvia o meu chefe expressar o seu desejo de que a Romênia tivesse a mesma rígida estrutura social.

“Quero que você dê ‘Radu’ para Noel Bernard” Ceausescu sussurrou no meu ouvido. Noel Bernard era na época o diretor do programa romeno da Radio Free Europe (RFE), e por anos vinha enfurecendo Ceausescu com os seus comentários. “Você não precisa me relatar os resultados”, acrescentou. “Vou saber pelos jornais ocidentais e…” O fim da frase de Ceausescu foi apagada pelo rá-tá-tá metódico da submetralhadora. Ele atirou com cerimoniosa precisão, primeiramente na linha frontal dos pelicanos, depois na distância média e por fim nos netinhos atrás.

Durante 27 anos eu vivi com o pesadelo de que, mais cedo ou mais tarde, eu receberia uma ordem para matar alguém. Até aquela ordem de Ceausescu, eu tinha estado em segurança, pois as operações de neutralização estavam a cargo do chefe do DIE. Mas em março de 1978 eu fui designado chefe interino do DIE e não havia mais como eu escapar de me envolver nos assassinatos políticos, convertidos no principal instrumento de política externa de todo o bloco soviético.

Dois dias depois Ceausescu me enviou para Bonn para entregar uma mensagem secreta para o chanceler Helmut Schimdt, e lá eu pedi asilo político nos Estados Unidos.

Os assassinatos continuam

Noel Bernard continuou a informar os romenos sobre os crimes de Ceausescu, e no dia 21 de dezembro de 1981 ele faleceu devido a uma forma galopante de câncer. Em 1° de janeiro de 1988, o seu sucessor, Vlad Georgescu, iniciou uma série de programas sobre o meu livro Red Horizons na RFE. Meses depois, quando a série acabou, Georgescu informou aos seus ouvintes que a Securitate havia repetidamente avisado que ele poderia ser morto se transmitisse Red Horizons. “Se eles me matarem por ter feito a série sobre o livro de Pacepa, morrerei com a clara consciência de que cumpri o meu dever como jornalista” Georgescu afirmou publicamente. Poucos meses depois, ele morreu de uma forma galopante de câncer.

O Kremlin também continuou matando secretamente os seus oponentes políticos. Em 1979, a KGB de Brezhnev infiltrou Makhail Talebov na corte do premiê afegão pró-americano Hafizullah Amin como cozinheiro. A missão de Talebov era envenenar o primeiro ministro. Após diversas tentativas, Brezhnev ordenou à KGB o uso de força armada. Em 27 de dezembro de 1979, cinquenta oficiais da KGB da unidade de elite “Alfa”, liderada pelo coronel Grigory Boyarnov, ocuparam o palácio de Amin e mataram todas as pessoas para eliminar testemunhas. No dia seguinte, a KGB de Brezhnev levou para Cabul Bebrak Kemal, um comunista afegão refugiado em Moscou e o instalou como primeiro ministro. A operação de neutralização da KGB teve o seu papel na geração do terrorismo internacional de hoje.

Em 13 de maio de 1981, a mesma KGB organizou, com a ajuda da Bulgária, um atentado para matar o Papa João Paulo II, que havia iniciado uma cruzada contra o comunismo. Mehmet Ali Aqca, o atirador, admitiu ter sido recrutado pelos búlgaros, e identificou os seus oficiais de contato na Itália: Sergey Antonov, representante chefe do escritório dos Bálcãs em Roma, que foi preso; e o major Zhelvu Vasilief, do escritório do adido militar, que não pôde ser preso devido ao seu status de diplomata e foi chamado de volta a Sofia. Aqca também admitiu que, após o assassinato, ele devia ser secretamente retirado da Itália em um caminhão TIR [N do T: abreviatura de Transports Internationaux Routiers] (no bloco soviético, os caminhões TIR eram usados pelos serviços de inteligência para atividades operacionais.) Em maio de 1991 o governo italiano reabriu as investigações sobre a tentativa de assassinato e em 2 de março de 2006 concluiu que o Kremlin estava realmente por trás dela.

No Natal de 1989, Ceausescu foi executado após um julgamento no qual as acusações eram provenientes, quase palavra por palavra, do meu livro Red Horizons. Recentemente soube que Nestor Ratesh, diretor aposentado do programa romeno da RFE, após dois anos de pesquisa nos arquivos da Securitate, havia obtido evidências suficientes para provar que tanto Noel Bernard quanto Vlad Georgescu haviam sido mortos pela Securitate por ordem de Ceausescu. O resultado da sua pesquisa será objeto de um livro a ser publicado pela RFE.

Armas Fortes e Estabilidade

Quando a União Soviética entrou em colapso, os russos tiveram uma oportunidade única para acabar com a sua velha forma bizantina de estado policial, responsável por isolar o país durante séculos e deixá-lo mal equipado para lidar com as complexidades da sociedade moderna. Infelizmente, os russos não cumpriram o seu dever. Desde a queda do comunismo, eles têm encarado uma nativa forma de capitalismo tocada pelos velhos burocratas comunistas, especuladores e cruéis mafiosos que ampliaram as injustiças sociais. Assim, após um período de crescimento, os russos gradualmente – e talvez agradecidamente – retornaram para a sua histórica forma de governo, a tradicional samoderzhaviye russa, uma forma de autocracia que remonta ao século XIV de Ivan, o Terrível, no qual um senhor feudal governava o país com a ajuda da sua polícia política pessoal. Bem ou mal, a velha polícia política pode parecer para a maioria dos russos como uma defesa contra a ganância dos novos capitalistas domésticos.

Não será fácil romper uma tradição de cinco séculos. Isto não significa que a Rússia não pode mudar. Mas para isto acontecer, os Estados Unidos precisam ajudar. Devemos parar de fingir que o governo russo é democrático e devemos chamá-lo pelo verdadeiro nome: um bando de seis mil oficiais aposentados da KGB – uma das mais criminosas organizações da história – ocupando os mais importantes cargos do governo federal e dos governos locais, e que está perpetuando a prática de Stalin, Khrushchev e Brezhnev de assassinar secretamente as pessoas que atravessam o seu caminho. O assassinato sempre cobra um preço, e o Kremlin devia ser obrigado a pagá-lo até que pare com os assassinatos.

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A KGB e o assassinato de JFK

A entrevista abaixo foi publicada no site FrontPageMagazine em 3 de outubro de 2007. O editor Jamie Glazov entrevistou o general Ion Mihai Pacepa.

Pacepa é autor do recente livro Disinformation: Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom, Attacking Religion and Promoting Terrorism, em parceria com o professor Ronald J. Rychlak, obra que deu origem a um documentário de cerca de 2 horas.

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Programado para matar

A Frontpage Interview hoje recebe o general Ion Mihai Pacepa, o oficial de inteligência de mais alta patente que desertou do bloco soviético. Em 1989, o presidente romeno Nicolae Ceausescu e a esposa foram executados após um julgamento onde a maior parte das acusações foram, palavra por palavra, tiradas do livro Red Horizons, de Pacepa. Esta obra foi publicada em 27 países. O seu mais recente livro é Programmed to Kill: Lee Harvey Oswald, the Soviet KGB, and the Kennedy Assassination.

FP: General Ion Mihai Pacepa, bem-vindo ao Frontpage Interview.

Pacepa: É uma grande honra estar aqui. A sua revista é uma das poucas que entendem totalmente o Kremlin.

FP: Mr. Pacepa, você tem conhecimento direto dos laços da KGB com Oswald, e também teve acesso a documentos da KGB recentemente descobertos. Fale sobre a sua experiência de perito neste assunto e sobre as provas recentemente tornadas públicas. Fale também sobre as suas conclusões.

Pacepa: Moscou, é claro, não admitiu para nós, líderes representantes dos serviços de inteligência soviéticos, qualquer envolvimento no assassinato do presidente Kennedy. O Kremlin sabia que qualquer imprudência poderia dar início à Terceira Guerra Mundial. Mas, durante 15 anos da minha outra vida no topo do serviço de inteligência do bloco soviético, estive envolvido num esforço mundial de desinformação destinado a desviar a atenção do envolvimento da KGB com Lee Harvey Oswald, o marine americano que desertou para Moscou, retornou para os EUA e assassinou o presidente Kennedy.

Lançamos boatos, publicamos artigos e até mesmo livros insinuando que os culpados estavam nos EUA, não na União Soviética. A nossa máxima “prova” foi um bilhete endereçado a “Mr. Hunt”, datado de 8 de novembro de 1963, e assinado por Oswald, cujas cópias foram descobertas nos EUA em 1975. Sabíamos que o bilhete era falso, mas os peritos americanos em grafologia atestaram a sua autenticidade, e teóricos da conspiração o conectaram com o agente da CIA E. Howard Hunt, na época bem conhecido pelo escândalo de Watergate, e o usaram para “provar” o envolvimento da CIA no assassinato do presidente Kennedy.

Documentos originais da KGB existentes no Arquivo Mitrokhin, trazidos à luz na década de 1990, finalmente provaram que o bilhete fôra forjado pela KGB durante o escândalo de Watergate. O falso bilhete foi verificado duas vezes quanto à “autenticidade” pela Technical Operations Directorate (OTU) da KGB e liberado para ser usado. Em 1975, a KGB enviou, do México, três fotocópias do bilhete para entusiastas de teorias da conspiração nos Estados Unidos. [1] (O regulamento da KGB só permitia o uso de fotocópias dos documentos falsificados para evitar o exame meticuloso do original.)

Após o colapso da União Soviética, tive esperança de que os novos líderes em Moscou revelassem a mão da KGB por trás do assassinato do presidente Kennedy. Porém, em 1993, eles publicaram Passport to Assassination: the Never-Before-Told Story of Lee Harvy Oswald by the KGB Colonel Who Knew Him, um livro sustentando que uma investigação completa sobre Oswald não havia encontrado o mínimo indício do envolvimento soviético. [2] Os carrascos não se incriminam a si mesmos.

FP: Você pode dar detalhes sobre o Arquivo Mitrokhin?

Pacepa: Na década de 1990, o oficial da KGB aposentado Vasily Mitrokhin, ajudado pelo M16 britânico, contrabandeou de Moscou cerca de 25 mil páginas de documentos da KGB altamente confidenciais. Representam uma minúscula parte do arquivo da KGB, estimado em cerca de 27 bilhões de páginas (o arquivo da alemã oriental Stasi tinha cerca de 3 bilhões). Mesmo assim, o FBI descreveu o Arquivo Mitrokhin como “o mais completo e extenso arquivo de inteligência jamais recebido de qualquer fonte”. De acordo com este arquivo, o primeiro livro americano sobre o assassinato, Oswald: Assassin or Fall Guy?, que culpa a CIA e o FBI pelo crime, foi idealizado pela KGB. O autor do livro, Joachim Joesten, um comunista americano nascido na Alemanha, ficou cinco dias em Dallas após o assassinato, e em seguida foi para a Europa e sumiu de vista. Poucos meses depois, o livro de Joesten foi publicado pelo comunista americano Carlo Aldo Marzani (New York), que recebeu 80 mil dólares da KGB para produzir livros pro-soviéticos, mais 10 mil dólares por ano para divulgá-los agressivamente. Outros documentos do Arquivo Mitrokhin identificam o primeiro crítico americano deste livro, Victor Perlo, como um agente disfarçado da KGB.

O livro de Joesten foi dedicado ao americano Mark Lane, descrito no Arquivo Mitrokhin como um esquerdista que recebeu dinheiro anonimamente da KGB. Em 1966, Lane publicou o best-seller Rush to Judgment, alegando que Kennedy havia sido morto por um grupo americano direitista. Estes dois livros encorajaram as pessoas com algum conhecimento minimamente relacionado com a matéria a entrar na briga. Cada qual via os acontecimentos da sua própria perspectiva, mas todos acusavam grupos americanos pelo crime. O representante do distrito de New Orleans, Jim Garrison, olhou ao redor do seu distrito doméstico e em 1967 prendeu um homem do lugar, a quem acusou de conspiração com os grupos da inteligência americana para assassinar Kennedy e assim parar os mais recentes esforços de acabar com a Guerra Fria. O acusado foi inocentado em 1969, mas Garrison apegou-se à sua história, escrevendo primeiramente A Heritage of Stone (Putnam, 1970) e por fim publicando On the Trail of the Assassins (Sheriden Square, 1988), um dos livros inspiradores do filme JFK de Oliver Stone.

A conspiração do assassinato de Kennedy nascera – e jamais morreria. De acordo com outro documento, em abril de 1977, Yury Andropov, chefe da KGB, informou o Politburo que a KGB estava lançando uma nova campanha de desinformação para implicar ainda mais “os serviços especiais americanos” no assassinato de Kennedy. Infelizmente, o Arquivo Mitrokhin silencia sobre o assunto daí em diante.

FP: Você descobriu documentos escritos pessoalmente pelo assassino, Lee Harvey Oswald, sugerindo que ele estava ligado ao departamento da KGB para assassinatos no exterior e que voltou aos Estados Unidos vindo da União Soviética apenas temporariamente, em missão. Duas investigações federais e mais de 2500 livros analisaram o assassinato mas ninguém tocou neste assunto. Por quê?

Pacepa: Porque nenhum dos investigadores ou pesquisadores estavam suficientemente familiarizados com as práticas e códigos de operação da KGB. O FBI recentemente disse ao Congresso americano que somente um interlocutor árabe nativo pode captar os sutis detalhes da uma interceptação telefônica da al-Qaida – especialmente ligações com a dupla linguagem de inteligência. Passei 23 anos da minha outra vida falando por meio destes códigos. Até mesmo a minha própria identidade era coficiada. Em 1955, quando me tornei oficial da inteligência estrangeira, fui informado que dali em diante o meu nome seria Mihai Podeanu, e Podeanu permaneci até 1978, quando rompi com o comunismo. Todos os meus subordinados – e todos os demais oficiais de inteligência estrangeira do bloco soviético – usavam códigos nos relatórios escritos, ao falar com as suas fontes e até mesmo nas conversas com os seus próprios colegas. Quando deixei a Romênia para sempre, o meu serviço de espionagem era a “universidade”, o líder do país era o “Arquiteto”, Viena era “Videle” e assim por diante.

Em uma entrevista publicada nos EUA, o general da KGB, Boris Solomantin, durante muito tempo representante-chefe do PGU (inteligência estrangeira soviética) disse: “Não me considero um homem que conhece tudo sobre inteligência – como alguns oficiais deste Primeiro Departamento [isto é, do PGU], escritores tentando se mostrar. Em inteligência e contrainteligência somente o homem que está chefiando estes serviços conhece tudo. Estou dizendo isto porque todas as questões sobre criptografia e máquinas de criptografia estavam sob responsabilidade de outro departamento – em uma diretoria fora da minha, similar à sua National Security Agency”. [3]

Durante os meus últimos dez anos na Romênia, também gerenciei o equivalente do país à NSA, e me familiarizei com os sistemas de codificação usados por todo o serviço de inteligência do bloco soviético. Este conhecimento me permitiu perceber que as aparentemente inócuas cartas de Oswald e da sua esposa soviética para a embaixada soviética em Washington, D.C. (disponibilizadas para a Warren Commission) eram mensagens veladas para a KGB. Nelas, encontrei a prova de que Oswald havia sido enviado para os EUA em missão temporária, e que ele planejava retornar para a impenetrável União Soviética após a conclusão da sua tarefa.

Levei muitos anos para separar o joio do trigo enquanto percorria as pilhas de relatórios de investigação gerados pela morte violenta do jovem presidente americano, mas, quando terminei, estava enfeitiçado pela abundânica de impressões digitais da KGB em toda a história de Oswald e do seu assassino, Jack Ruby.

FP: Dê exemplos concretos.

Pacepa: Por exemplo, no bilhete escrito a mão em russo deixado por Oswald para a esposa soviética, Marina, pouco antes de tentar assassinar o general americano Edwn Walker, que serviu como um ensaio para o assassinato do presidente Kennedy. Aquele importantísimo bilhete contém dois códigos da KGB: amigos (código para oficial de suporte) e Cruz Vermelha (código para ajuda financeira). No bilhete, Oswald diz a Marina o que fazer caso ele fôsse preso. Ele reforça que ela deve entrar em contato com a “embaixada” (soviética), que eles têm “amigos aqui” e que a “Cruz Vermelha” vai ajudá-la financeiramente. De particular importância é a instrução de Oswald para ela “mandar para a embaixada a informação do que aconteceu a mim”. Na época, o código para embaixada era “escritório” mas parece que Oswald queria ter certeza de que Marina iria entender que ela devia informar imediatamente a embaixada soviética. É de se notar que Marina nao mencionou este bilhete às autoridades americanas após a prisão de Oswald. Ele foi encontrado na casa de Ruth Paine, uma amiga americana com a qual Marina estava no momento do assassinato.

FP: Segundo a conclusão da Warren Commission e do House Select Committee on Assassinations, Oswald não tinha a menor conexão com a KGB. Mas, de acordo com o seu livro, Oswald encontrou-se secretamente com um oficial do departamento de assassinatos da KGB na Cidade do México poucas semanas antes de matar o presidente Kennedy. Qual a prova disso?

Pacepa: Há muitas evidências sutis provando a conexão de Oswald com a KGB. Um indício tangível é a carta enviada por ele à embaixada soviética em Washington poucos dias antes de se encontrar com o “Camarada Kostin” na Cidade do México. A CIA identificou Valery Kostikov como um oficial do 13° Departamento da PGU para “wet affairs” (expressão na qual wet é um eufemismo para sangrento). Um rascunho escrito à mão daquela carta foi encontrada entre os pertences de Oswald após o assassinato. A já mencionada Ruth Paine testemunhou que Oswald reescreveu aquela carta diversas vezes antes de datilografá-la na máquina de escrever dela. Marina garantiu que ele “redatilografou o envelope dez vezes”. Era importante para ele. Uma fotocópia da carta final enviada por Oswald para a embaixada soviética foi recuperada pela Warren Commission. Deixe-me citar algumas frases daquela carta, na qual eu também inseri, entre parênteses, a versão antes rascunhada por Oswald:

“Isto é para informar você dos eventos recentes desde as minhas reuniões com o camarada Kostin [no rascunho: “sobre novos eventos desde as minhas entrevistas com o camarada Kostine”] na embaixada da União Soviética, Cidade do México, México. Não pude permanecer no México [riscado no rascunho: “porque considerei desnecessário”] indefinidamente devido às restrições do meu visto mexicano, de apenas 15 dias de duração. Não tive a chance de pedir um novo visto [no rascunho: “solicitando uma prorrogação”] a não ser usando o meu nome real, por isso voltei para os Estados Unidos.”

O fato de Oswald ter usado um codinome operacional para Kostikov confirma, para mim, que tanto a sua reunião com Kostikov na Cidade do México como a sua correspondência com a embaixada soviética em Washington foram conduzidas em um contexto operacional da PGU. O fato de Oswald não ter usado o seu nome real para obter o visto mexicano confirma esta conclusão.

Agora, vamos sobrepor esta carta combinada ao guia gratuito Esta Semana – de 28 de setembro a 4 de outubro de 1963, e a um dicionário Castelhano-Inglês, ambos encontrados entre os pertences de Oswald. O guia tem o número de telefone da embaixada soviética sublinhado, os nomes Kosten e Oswald anotados em cirílico na página listando os “Diplomatas no México” e, na página anterior, marcas de verificação perto de cinco cinemas. [4] Atrás do dicionário Castelhano-Inglês, Oswald escreveu: “comprar ingressos [plural] para a tourada” [5] e a praça de touros Plaza México está circulada no mapa da Cidade do México. [6] O Palácio de Belas Artes, local predileto dos turistas que se juntam aos domingos de manhã para assistir o Balé Folclórico, também está marcado no mapa de Oswald, [7].

Ao contrário do que Oswald informou, ele não foi visto na embaixada soviética em nenhum momento durante a sua estadia na Cidade do México – a CIA tinha câmeras de vigilância na entrada da embaixada na época. [8] Resumindo: todos os fatos acima, reunidos, sugerem para mim que Oswald recorreu a uma reunião não programada, ou “iron meeting” – zheleznaya yavka, em russo – para uma conversa urgente com Kostikov na Cidade do México. A “iron meeting” era um procedimento padrão da KGB para situações de emergência: “iron” significava firme ou inalterável.

Na minha época eu aprovei muito poucas “iron meetings” na Cidade do México (local favorito para o contato com nossos agentes importantes morando nos EUA) e a reunião “iron meeting” de Oswald parece, para mim, uma “iron meeting” típica. Ou seja, um breve encontro em um cinema para marcar uma reunião para o dia seguinte nas touradas (na Cidade do México, elas acontecem às 4h30 na tarde do domingo); um encontro breve em frente do Palácio de Belas Artes para passar para Kostikov um dos ingressos comprado por Oswald para a tourada; e uma longa reunião para discussão na tourada de domingo.

Não posso, é claro, ter certeza de que tudo aconteceu exatamente desta forma – cada oficial de apoio tem as suas próprias peculiaridades. Mas independentemente de como eles possam ter entrado em contato, é claro que Kostikov e Oswald se encontraram secretamente naquele fim de semana de 28 e 29 de setembro de 1963. Na terça-feira seguinte, ainda na Cidade do México, ele telefonou para a embaixada soviética a partir da embaixada cubana e pediu ao guarda em serviço para conectá-lo com o “Camarada Kostikov” com o qual ele “conversou em 28 de setembro”. Aquele telefonema foi interceptado pela CIA.

FP: Cada partido comunista era gerenciado por um politburo ao estilo soviético, todos os exércitos do bloco soviético usavam o mesmo uniforme, cada força policial do Leste Europeu foi substituída por uma milícia ao estilo soviético. Como este padrão soviético refletiu no serviço de inteligência do bloco?

Pacepa: “Tudo o que você verá aqui é idêntico ao que eu vi no seu serviço” disse-me Sergio del Valle – Ministro do Interior cubano e chefe geral da segurança nacional e da inteligência estrangeira – quando me apresentou para os dirigentes do serviço de espionagem cubano, o DGI. [9] Até mesmo o treinamento dos oficiais do DGI era baseado nos mesmos manuais recebidos da PGU por nós, do serviço de espionagem romeno, o DIE – Departamentul de Informatii Externe.

Sim, a inteligência soviética, como o governo soviético em geral, tinha uma forte propensão por padrões. Pela sua própria natureza, a espionagem é um empreendimento enigmático e dúbio, mas nas mãos dos soviéticos desenvolveu-se e virou uma filosofia completa, onde cada aspecto tinha o seu próprio conjunto de regras testadas e precisas e seguia um padrão fixo.

Durante os muitos anos que passei pesquisando os laços de Oswald com a KGB, peguei as informações reais e verificáveis sobre a sua vida desenvolvidas pelo governo americano e pesquisadores independentes relevantes, e as examinei à luz dos padrões operacionais da PGU – pouco conhecidos por estrangeiros devido ao absoluto segredo então – como hoje – endêmico na Rússia. Novos insights sobre o assassinato de repente ganharam vida. As experiências de Oswald como marine servindo no Japão, por exemplo, se encaixaram perfeitamente no padrão da PGU para recrutar membros das forças armadas americanas fora dos Estados Unidos que, por muitos anos, eu apliquei nas operações romenas. Também ficou óbvio que o armário no terminal de ônibus usado por Oswald em 1959, após retornar aos EUA vindo do Japão, para depositar uma mochila de lona cheia de fotografias de aviões militares americanos, era de fato uma intelligence dead drop [N do T: local onde duas pessoas de um serviço secreto podem colocar e retirar objetos sem precisar se encontrar]. [10] Durante aqueles anos o uso de tais armários era moda na PGU – e no DIE.

As operações da espionagem soviética podem ser separadas de acordo com padrões, se você estiver familiarizado com elas. Os peritos em contrainteligência chamam estes padrões de “evidência operacional”, mostrando as impressões digitais do perpetrador.

FP: A maior parte do trabalho do assassinato de Kennedy sugere que Oswald era um marine de baixo escalão sem informações importantes a oferecer para a KGB. Também era nitidamente perturbado e um tanto imprevisível. Se isto é verdade, por que a KGB o recrutou?

Pacepa: Isto é desinformação soviética – disseminada também pelo meu DIE, sob ordens da KGB. A verdade é bem diferente. Veja um exemplo. Como operador de radar na Base Aérea de Atsugi no Japão, Oswald sabia a altitude de vôo dos super-secretos aviões espiões U-2 da CIA que sobrevoavam a União Soviética partindo daquela base. Em 1959, quando eu era o chefe do posto de inteligência da Romênia na Alemanha Ocidental, um requerimento soviético endereçado a mim pediu “tudo, incluindo boatos” sobre a altitude de vôo dos aviões U-2. O Ministro de Defesa soviético sabia que os aviões U-2 haviam sobrevoado a União Soviética diversas vezes, mas o Comando de Defesa Aérea não havia sido capaz de rastreá-los porque os radares soviéticos da época não alcançavam grandes altitudes.

Francis Gary Powers, o piloto do U-2 abatido pelos soviéticos em 1° de maio de 1960, acreditava que os soviéticos haviam sido capazes de atingi-lo porque Oswald os havia informado sobre a altitude do seu vôo. De acordo com as declarações de Powers, Oswald tinha acesso “não somente aos códigos de radar e rádio mas também ao novo equipamento de radar MPS-16 com reconhecimento de altura” e a altitude na qual o U-2 voava, que era um dos segredos mais bem guardados.[11]

Parece que Oswald, que desertou para a União Soviética em 1959, era uma das pessoas presentes na audiência do julgamento espetacular de Powers em Moscou. Em 15 de fevereiro de 1962, Oswald escreveu para o irmão Robert: “Ouvi pela Voz da América que eles libertaram Powers, o sujeito do avião de espionagem U-2. É uma grande notícia onde você está, acredito. Ele parecia ser um americano fino e inteligente quando eu o vi em Moscou.” [12]

Terá sido um procedimento normal para a KGB mandar Oswald observar o julgamento de Powers como uma recompensa por ter ajudado a União Soviética abater o U-2.

FP: Yuri Nosenko, um oficial da KGB que desertou para os Estados Unidos em 1964, disse a Gerald Posner, pesquisador do assassinato: “Estou surpreso pela importância dada ao fato de [Oswald] ser um marine. O que ele era na Marinha – major, capitão, coronel?” [13] Como você explica esta declaração de Nosenko?

Pacepa: É fato que Nosenko desertou de boa fé. Mas ele pertenceu ao departamento doméstico da KGB e não sabia nada sobre as fontes estrangeiras da PGU – como um agente de nível médio do FBI não sabe nada sobre as fontes da CIA no exterior.

O recrutamento de membros das forças armadas era uma das mais altas prioridades da PGU na época. A busca por “serzhant” era a minha principal prioridade durante os três anos (1957-59) em que fui designado para residir na Alemanha Ocidental, e ainda era uma das principais prioridades em 1978, quando rompi com o comunismo. Evidentemente, a PGU gostaria de ter recrutado coronéis americanos, mas era difícil se aproximar deles, enquanto oficiais de baixo escalão eram mais acessíveis e podiam fornecer excelentes informações se usados corretamente.

Um bom exemplo é o sargento Robert Lee Johnson. Na década de 1950 ele estava servindo no exterior onde, como Oswald, ficou apaixonado pelo comunismo. Em 1953, Johnson secretamente entrou na unidade militar soviética na Berlin Oriental, onde pediu – como Oswald obviamente fez – garantia de asilo político no “paraíso dos trabalhadores”. Uma vez lá, Johnson foi recrutado pela PGU e persuadido a voltar temporariamente aos EUA para executar uma “tarefa histórica” antes de iniciar a sua nova vida na União Soviética – como foi o caso de Oswald. Realmente, o sargento Johnson foi recompensado secretamente com a patente de major do Exército Vermelho e recebeu congratulações escritas pelo próprio Khrushchev. [14]

De acordo com o coronel da PGU Vitaly Yurchenko, que desertou para a CIA em 1985 e logo em seguida re-desertou, o oficial chefe americano John Anthony Walker – outro “serzhant” – foi o maior agente da história da PGU, “ultrapassando em importância até o roubo soviético dos projetos anglo-americanos da primeira bomba atômica”. John F. Lehman, secretário americano da Marinha na época da prisão de Walker, concordou. [15]

FP: Em 1962, quando Oswald retornou da União Soviética, trouxe com ele um documento de 13 páginas intitulado “Diário Histórico”. Por que tinha este nome?

Pacepa: “Histórico” era um slogan da PGU na época. O termo foi cunhado pelo general Aleksandr Sakharovsky, antigo conselheiro-chefe soviético para a Securitate romena e comandante da PGU por imprecedentes 14 anos. “Histórico” era a sua expressão favorita. A Securitate tinha a “tarefa histórica” de eliminar a burguesia do solo romeno, como ele constantemente pregava para nós. O “dever histórico” da PGU era cavar a cova da burguesia internacional. Dogonyat i peregonyat era a nossa “tarefa histórica monumentalnaya”, ele nos disse logo após Khrushchev ter lançado aquele famoso slogan sobre a sua crítica ao Ocidente e sobre a superação do Ocidente no espaço de dez anos.

Diários pessoais também eram uma invenção de Sakharovsky. Todos os nossos oficiais e agentes ilegais enviados ao Ocidente com biografia fictícia deviam levar algum tipo de apoio escrito para a memória, para lembrarem exatamente onde, quando e o que supostamente haviam feito em vários períodos da sua alegada vida. Até o fim da década de 1950, estas anotações eram transportadas na forma de microdots ou filmes flexíveis escondidos em algum objeto de uso diário, mas, é claro, apresentavam o risco potencial de se tornar prova incriminatória se fôssem encontrados. Em janeiro de 1959, Sakharovsky deu ordens a todos os serviços de inteligência estrangeira do bloco soviético para dissimular estas biografias na forma de diários, rascunhos de livros, cartas pessoais ou notas autobiográficas. Estas notas eram escritas por especialistas em desinformação, copiadas à mão pelo agente ilegal ou de inteligência, normalmente imediatamente antes dele partir para o Ocidente, e em seguida passavam pela fronteira livremente.

Um exame miscroscópico do “Diário Histórico” de Oswald realmente mostrou que “foi escrito em uma ou duas sessões”. [16] Também foi copiado muito apressadamente, como sugerem os diversos erros de ortografia.

FP: O seu livro dá uma intrigante guinada no modo como conta o enredo. No fim, você diz que a evidência sugere que Oswald perdeu o apoio da PGU (Inteligência Estrangeira Soviética), e que ele foi sozinho para matar o presidente Kennedy. Isto é um tanto surpreendente. Conte-nos o que você sabe e explique a sua interpretação.

Pacepa: Em outubro de 1962, a Suprema Corte da Alemanha Ocidental realizou o julgamento público de Bogdan Stashinsky, desertor da inteligência soviética condecorado por Khrushchev por ter assassinado inimigos da União Soviética moradores no Ocidente. Este julgamento revelou Khrushchev ao mundo como um insensível assassino político. Em 1963, o extravagante ditador soviético já era um tirano incapacitado e ofegante. A mínima referência a qualquer envolvimento soviético no assassinato do presidente americano poderia ter sido fatal para Khrushchev. Assim, a KGB – como também o meu DIE – cancelou todas as operações destinadas a assassinar inimigos no Ocidente.

A PGU tentou, sem sucesso, desprogramar Oswald. Os documentos disponíveis mostram que, para provar para a PGU que ele era capaz de executar com segurança o assassinato ordenado, Oswald fez um ensaio atirando – apesar de ter errado por pouco – no general americano Edwin Walker. Oswald fez um pacote, completo com fotografias, mostrando como ele tinha planejado esta operação, e em seguida levou este material para a Cidade do México para provar ao “Camarada Kostin”, o seu oficial de apoio, a sua capacidade. Apesar de Oswald ter conseguido executar a tentativa de assassinato de Walker sem ser identificado como o atirador, Moscou permaneceu inflexível.

O obstinado Oswald estava arrasado, mas no fim ele foi em frente por si só, totalmente convicto de estar cumprindo a sua tarefa “histórica”. Tinha apenas 24 anos e tinha dado o melhor de si para obter armas de modo imperceptível e para fabricar documentos de identidade, usando os métodos aprendidos com a KGB. Até o derradeiro final ele também seguiu as instruções de emergência recebidas originalmente da KGB – não admitir nada e pedir um advogado.

Como Oswald já sabia demais sobre o plano original, entretanto, Moscou providenciou para que fôsse silenciado para sempre, caso continuasse tentando realizar o impensável. Era outro padrão soviético. Sete chefes da própria polícia política soviética foram secreta ou abertamente assassinados para evitar incriminar o Kremlin. Alguns foram envenenados (Vyacheslav Menzhinsky, em 1934), outros executados como espiões ocidentais (Genrikh Yagoda em 1938, Nikolay Yezhov em 1939, Lavrenty Beriya e Vsevolod Merkulov em 1953, e Viktor Abakumov em 1954).

Além do mais, imediatamente após as notícias do assassinato de Kennedy, Moscou lançou a operação “Dragão”, um esforço de desinformação no qual o meu serviço esteve profundamente envolvido. O objetivo – plenamente atingido – era jogar a culpa em vários grupos nos Estados Unidos por terem matado o seu próprio presidente.

FP: A primeira resenha sobre Programmed to Kill, feita pela Publishers Weekly, afirma que o seu livro é baseado em histórias antigas de inteligência e não oferece nenhum motivo convincente sobre o interesse soviético pelo assassinato. O que você diz a respeito?

Pacepa: Em 3 de janeiro de 1988, o The New York Times publicou uma resenha parecida sobre o meu primeiro livro, Red Horizons, afirmando que ele continha apenas “histórias esquálidas” sobre o presidente romeno Nicolae Ceausescu. Dois anos depois, entretanto, Ceausescu foi executado após um julgamento cujas acusações eram provenientes, palavra por palavra, do meu livro – que ainda continua vendendo.

FP: Então tudo isso – se isso é verdade – não era um pouco estranho para Khrushchev ter arriscado tanto? Poderia ter causado uma guerra mundial?

Pacepa: Khrushchev, o meu chefe de facto por nove anos, era irracional. Hoje, as pessoas se lembram dele como um camponês que consertou as maldades de Stalin. O Khrushchev que eu conheci era sanguinário, impetuoso e extrovertido, e tendia a destruir todos os projetos tão logo caíssem nas suas mãos. A irracionalidade de Khrushchev fez dele o mais controverso e imprevisível dos líderes soviéticos. Desmascarou os crimes de Stalin mas converteu o assassinato político no principal instrumento da sua política externa. Criou a política de coexistência pacífica com o Ocidente mas acabou por empurrar o mundo para a iminência de uma guerra nuclear. Concluiu o primeiro acordo para o controle de armas nucleares, mas tentou garantir a posição de Fidel Castro no comando de Cuba com a ajuda de armas nucleares. Restabeleceu as relações de Moscou com a Iugoslávia de Tito mas rompeu com Beijing e assim destruiu a unidade do mundo comunista. Em 11 de setembro de 1971, Khrushchev morreu em desonra, como uma não-pessoa, não sem antes ter visto as suas memórias publicadas no Ocidente dando a sua versão da história.

FP: General Ion Mihai Pacepa, obrigado por ter vindo à Frontpage Interview. Ao lado das suas novas revelações e dos importantes fatos e assuntos trazidos à tona sobre o assassinato de Kennedy, o seu livro serve como mais um lembrete sobre a natureza maléfica da KGB e sobre a entidade sinistra e verdadeiramente tenebrosa que nós enfrentamos no regime soviético.

Obrigado por sua luta pela verdade e pela memória histórica.

Será uma honra recebê-lo mais uma vez.

Pacepa: Parabéns pela sua coragem em debater este tema tão controverso.

Notas:
[1] Cristopher Andrew and Vasily Mitrokhin, The Mitrokhin Archive and the Secret History of the KGB (New York, Perseus Books Group, 1999), p. 229.
[2] Oleg Nechiporenko, Passport to Assassination: the Never-Before-Told Story of Lee Harvy Oswald by the KGB Colonel who knew him (New York: Carol Publishing Group, 1993).
[3] Washington Post Magazine, April 23, 1995.
[4] Warren Commission Exhibit 2486.
[5] Testimony of Ruth Hyde Paine, Warren Commission Vol. 3, pp. 12-13.
[6] Warren Commission Exhibit 1400.
[7] Priscilla Johnson McMillan, Marina and Lee (New York: Harper & Row, 1977), p. 496.
[8] Edward Jay Epstein, Legend: The Secret World of Lee Harvey Oswald (New York: Reader’s Digest Press), p. 16.
[9] Dirección General de Inteligencia
[10] Epstein, Legend, p. 89.
[11] Francis Gary Powers, with Curt Gentry, Operation Overflight: The U-2 spy pilot tells his story for the first time (New York: Holt, Rinehart, 1970), p. 357.
[12] Warren Commission Exhibit 315.
[13] Gerald Posner, Case Closed: Lee Harvey Oswald and the Assassination of JFK (New York: Random House, 1993), p. 49.
[14] Christopher Andrew and Oleg Gordievsky, KGB: The Inside Story Of Its Foreign Operations from Lenin to Gorbachev (New York: HarperCollins, 1990), p. 462.
[15] John Barron, Breaking the Ring (Boston: Houghton Mifflin, 1987), pp. 148, 212.
[16] Epstein, Legend, pp. 109, 298n.

Jamie Glazov é editor da Frontpage Magazine. Tem Ph.D. em História com especialidade em política externa russa, americana e canadense. É o autor de Canadian Policy Toward Khrushchev’s Soviet Union e co-editor (com David Horowitz) de The Hate America Left. Editou e escreveu a introdução de Left Illusions, de David Horowitz. O seu novo livro é United in Hate: The Left’s Romance with Tyranny and Terror. Para ver os seus simpósios, entrevistas e artigos anteriores, clique aqui. Email: jglazov@rogers.com.

***

Ion Mihai Pacepa

O general Ion Mihai Pacepa é um ex-oficial da Securitate, polícia política secreta romena, para quem começou a trabalhar em 1951. É o oficial de mais alta patente que desertou do bloco soviético. Fugiu para os EUA em 1978. Engenheiro de formação, é escritor e articulista.

Na época da deserção, era conselheiro do ditador romeno Nicolae Ceausescu, chefe do serviço de inteligência para assuntos exteriores e secretário de estado. Conhecia pessoalmente inúmeros tiranos de primeiro escalão, bem como as operações por eles levadas a cabo, como a Teologia da Libertação, o terrorismo islâmico, a operação contra o Papa Pio XII, só para citar algumas.

Por isso, a sua fuga foi o mais duro golpe sofrido pelo serviço secreto comunista. Pela deserção e pela contribuição ao Ocidente, Pacepa recebeu duas sentenças de morte emitidas por Ceausescu. O ditador também ofereceu um prêmio de 2 milhões de dólares por sua cabeça, quantia à qual se somou 1 milhão ofertado por Yasser Arafat e mais 1 milhão de Muammar al-Gaddafi.

O seu livro Red Horizons: Chronicles of a Communista Spy Chief, sobre a corrupção do governo Ceausescu, era tido pelo presidente Reagan como a sua “Bíblia para lidar com ditadores socialistas”. A obra foi grandemente responsável pela queda do tirano. Best-seller na Romênia, foi traduzido para 27 idiomas.

Recentemente, escreveu, em parceria com o professor Ronald J. Rychlak, o livro Disinformation: Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom, Attacking Religion and Promoting Terrorism, obra que deu origem a um documentário de cerca de 2 horas.

Pacepa tem 85 anos e mora nos EUA, sob identidade secreta.

*

Algumas frases do general:

Sobre o Terrorismo: “Infelizmente, eu testemunhei o nascimento do terrorismo anti-americano”

Teologia da Libertação: “O meu primeiro contato com os esforços da KGB de usar a religião para expandir mundialmente a influência do Kremlin ocorreu em 1959. ‘A religião é o ópio do povo’ ouvi Nikita Khrushchev dizer, citando a famosa frase de Marx ‘então vamos dar ópio ao povo’”.

Raul Castro: “Eu me encontrei com Raul Castro muitas vezes, em Cuba e na Romênia. Ele era responsável pela coordenação do serviço de inteligência cubano (a Dirección General de Inteligencia – DGI) e, no início dos anos 1970, entrou no negócio de drogas juntamente com o departamento onde eu trabalhava (Departamentul de Informatii Externe – DIE).”

Campanha da KGB contra Pio XII: “Em 1974, Andropov admitiu para nós que, soubéssemos na época o que sabemos hoje, jamais teríamos ido atrás do Papa Pio XII. Referia-se a informações recentemente liberadas mostrando que Hitler, longe de ser amigo de Pio XII, na verdade tramou contra ele.”

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