Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

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Eu queria decifrar as coisas que são importantes

Hoje faz 46 anos que Guimarães Rosa nos deixou. Lembrou-me uma passagem de Grande Sertão: Veredas…

“Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!

“Sendo isto. Ao doido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas, veredazinhas.”

Neste trecho, está a explicação do título do romance.

“Eu queria decifrar as coisas que são importantes” diz Riobaldo. É uma frase-irmã à da Samaritana: “Quando vier o Cristo, Ele nos explicará todas as coisas”.

A “gã que empurra a gente” é uma referência a São Paulo: “É Deus quem opera em nós o querer e o agir”.

“A gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!” lembra Santo Agostinho “Eu Te procurava longe e Tu estavas perto; eu Te procurava fora e Tu estavas dentro. Quão tarde Vos conheci, Formosura tão nova e tão antiga. Quão tarde Vos conheci, e amei”.

“Lhe falo do sertão. Do que não sei.” o sertão é o desconhecido, é O Desconhecido, é Deus: “Ninguém conhece o Pai” disse Cristo.

“Só umas raríssimas pessoas”, como raríssimos são os homens que conhecem o Pai, raríssimos são os santos – “Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.

“E só essas poucas veredas, veredazinhas” – os santos são as veredas, são quem fertiliza o sertão, são quem fertiliza a humanidade.

O Grande Sertão é Deus; as Veredas são os santos.

Bem mineiramente, Guimarães Rosa não explicou o título do romance. Vamos ficar sem ter a explicação do genial escritor. Aliás, de acordo com Carlos Drummond de Andrade, em versos compostos dois dias após a morte do amigo, nem mesmo sabemos se ele existiu:

“Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.”

***

Dia dos Professores

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”

Riobaldo – Grande Sertão: Veredas

Prece pela Síria

No Gênesis, Deus diz a Abraão que vai destruir uma cidade. Abraão argumenta: e se houver ali homens justos, perecerá o santo com o ímpio? Deus diz: se for assim, pouparei toda a cidade por amor aos justos.

Estarei errado se concluir que a História é feita pelos santos?

Às vezes nos sentimos impotentes ante tanta barbaridade, gostaríamos de ter recursos para ajudar os outros, mas nos esquecemos que os nossos principais recursos são a nossa oração, o nosso sacrifício e a nossa virtude. Estamos viciados neste mundo de aparências e não conseguimos enxergar a essência das coisas pois nos falta a fé.

O Papa nos lembra disso, e pede para rezarmos e jejuarmos amanhã em oferecimento aos nossos irmãos da Síria. Acima das forças de paz internacionais, dos bloqueios econômicos, dos esforços diplomáticos, acima de tudo isso, estão a prece e a penitência de um homem justo, de uma mulher santa. Por isso, não espere soluções mirabolantes nem coloque a sua esperança em reuniões de cúpula. A solução – a luta pela santidade pessoal – está em suas mãos.

Você talvez esteja pensando: mas eu não sou santo, eu não sou ninguém, Deus não vai me ouvir. Respondo: a realidade da sua vida espiritual e o resultado dos seus esforços só serão conhecidos no dia do Juízo, quando todas as coisas se tornarem claras.

Por enquanto, é fé em Deus e pé na tábua!

“Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho…”
– Compadre Quelemém (Grande Sertão: Veredas)

Coroação de Maria Santíssima

“Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça.” – Ap 12, 1

Hoje, festa de Coroação de Maria Santíssima, doze frases para coroá-la.

“Pois em instantâneo eu achei a doçura de Deus: eu clamei pela Virgem… Agarrei tudo em escuros – mas sabendo de minha Nossa Senhora! O perfume do nome da Virgem perdura muito; às vezes dá saldos para uma vida inteira…” – Riobaldo – Grande Sertão: Veredas

“Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós.” – Medalha Milagrosa

“Deus criou três mundos: um mundo para a sua Igreja Militante – este mundo em que vivemos -, um mundo para a sua Igreja Triunfante – o Paraíso – e criou um mundo para Si… ao qual chamou Maria” – São Luis Maria Grignion de Montfort

“Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria”. – São Bernardo de Claraval

“O Pai a coroa, participando-lhe o seu poder, o Filho a sabedoria, o Espírito Santo o amor. As três Pessoas divinas, colocando-lhe o trono à direita de Jesus, a declaram Rainha universal do céu e da terra.” – Santo Afonso Maria de Ligório – Glórias de Maria

“Quem é esta que avança como a aurora, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?” – Ct 6, 10

“Mãe, hoje vi Nossa Senhora na Cova da Iria. Era uma Senhora tão linda, tão bonita.” – Jacinta, vidente de Fátima, 13 de maio de 1917

“Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?” – Lc 1, 42-43

“Que ela esteja com Aquele a quem trouxe no seio, que esteja junto Àquele que pôs no mundo, a quem aqueceu e nutriu, Maria, a Mãe de Deus, a ama de Deus, o reino de Deus, a imitadora de Deus” – Santo Agostinho

“Meio-dia. Vejo a Igreja aberta e entro. Mas não é para rezar, ó Mãe, que eu estou aqui dentro. Nada tenho a pedir, nada para dar. Venho somente, Mãe, para te olhar…” Paul Claudel – A Virgem do Meio-Dia

“Continuem a rezar o terço em honra de Nossa Senhora do Rosário para obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes poderá valer.” – Maria, em Fátima, 13 de julho de 1917

“Mulher, eis aí o teu filho… Eis aí tua mãe.” – Jo 19, 26-27

Seô Habão

No romance Grande Sertão: Veredas, o principal protagonista é Riobaldo, raso jagunço atirador, que depois vira chefe. O bando dele passava pelas terras de Seô Habão, fazendeiro avarento. Riobaldo observa o homem e compara a luta dos jagunços com a vida mesquinha do fazendeiro, cuja cobiça reduzia toda a criação a coisas a seu serviço.

Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos!

A vida é feita de escolhas, disse Viktor Frankl. Entre o estímulo e a resposta há um intervalo; neste intervalo, reside a liberdade de escolher a resposta; na resposta, reside a nossa felicidade.

Ao responder à vida, seô Habão escolhera a cobiça, a avareza, a mesquinharia, o dinheiro a qualquer custo. Como consequência, colheu a frieza do olhar (ele conservava os olhos sem olhar, num vagar vago, circunspecto) e colheu a frieza da voz (e ouvir ele acrescentar assim, com a mesma voz, sem calor nenhum, deu em mim, de repente, foram umas nervosias). Habão reduzia as pessoas a animais, tratava os empregados como se fossem juntas de bois em canga, criaturas de toda proteção apartadas. Cada pessoa, cada bicho, cada coisa obedecia. Nós íamos virando enxadeiros. Tudo se encaixava nos seus tristes cuidados domésticos (E ele cumpria sua sina, de reduzir tudo a conteúdo).

(A expressão “triste cuidados domésticos” é uma frase de Saint-Exupéry, no livro Terra dos Homens, para definir o curto alcance de visão e a falta de ideais.)

Zeca Pagodinho resumiu bem a influência do dinheiro na vida das pessoas “Quando você tem mais poder de grana, a religião fica um pouco de lado. Quanto mais rico, mais descrente.”

Ou, como diz o meu amigo Zé, “quando você encontrar um rico feliz, me mostre, porque eu ainda não vi nenhum”.

Rumo à caduca felicidade deste mundo, Habão se afastava da felicidade eterna. Calculava, conservava e juntava. Certamente, pensava Oh, alma minha, come, bebe e regala-te pois tens bens juntados para muitos anos.

Mas Cristo lhe diz: Habão, seu bobão, quando você morrer, os bens que juntastes, para quem ficarão?

– Esta noite darás conta da tua alma.

 

O Bom Humor de Cristo

Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, foi pioneiro da aviação heróica. Sobrevoou regiões inóspitas como os Andes e o Saara. A beleza do deserto, escreveu, em Terra dos Homens, não pode ser apreciada por pessoas superficiais. Da mesma forma, o bom humor de Cristo.

Lemos os Evangelhos com a mórbida ânsia de enxergar as dores de Nosso Senhor e os seus altos ensinamentos, mas nos esquecemos que o aprendizado ocorre nos momentos de paz e sossego. A Sua alegria era constante, mesmo em momentos de ira e medo, porque Ele contemplava constantemente a face do Pai – é a chamada visão beatífica. Como é que podia estar triste?

Na realidade, só houve um momento no qual perdeu a visão beatífica. Foi na cruz, nos estertores da agonia, quando Deus se escondeu dEle, retirando-Lhe este último consolo. Proferiu então “Meu Deus, por que Me abandonaste?” Não foi uma frase de revolta, bem ao contrário, foi uma frase dirigida a nós, para que soubéssemos que continuava na cruz por amor. Foi o Seu último ato de entrega por nós.

Os Evangelhos estão repletos de episódios divertidos e alegres. Certamente, Cristo se divertia e divertia os outros nas bodas de Canaã – não é significativo o primeiro milagre ter sido feito numa festa? -, ao brincar com as crianças – certamente, elas não se aproximariam de um sujeito mal encarado -, nos jantares para os quais era convidado, nas conversas ocasionais com desconhecidos. A Sua fina ironia é a maior demonstração da Sua alegria.

Na tarde do domingo da Ressurreição, quando se aproximou incógnito de Cléofas e seu amigo, no caminho de Emaús, perguntou-lhes “Sobre o que é que vocês conversavam?” E Cléofas respondeu-Lhe, surpreso, “Será que Você é a única pessoa que não sabe o que aconteceu com Jesus Nazareno?” E Cristo replicou “Não, não sei de nada, o que é que houve?”

Em outra ocasião, os inimigos armaram uma cilada com uma pergunta traiçoeira. Cristo disse “Vou responder, mas me respondam antes: o batismo de João era de Deus ou dos homens?” Se respondessem ‘dos homens’, ficariam mal com o povo; ‘de Deus’, então por que não lhe deram ouvidos? “Não sabemos” disseram. Cristo então lhes disse “Então também não sei, também não vou responder!”

Os Evangelhos estão repletos destes episódios mas a sua beleza não é para qualquer um. Certamente, não é para mal humorados nem para pessoas acostumadas ao humor escrachado. Não conseguiremos ver o bom humor nos outros se não formos nós mesmos bem humorados. O bom humor exige o desapego desta vida, a ponto de conseguirmos rir de nós mesmos. A Sua alegria é para quem tem a esperança posta em Deus e compreende que o Seu reino não é deste mundo, este mundo é um vale de lágrimas (como diz a Salve Rainha) e esta vida é embrejada (Guimarães Rosa).

No Evangelho deste domingo, Cristo dirá “Qual o pai cujo filho lhe pede um ovo e ele dá um escorpião?”

Eta pai brincalhão!

 

Três Homens Bons

Riobaldo, apelidado de Tatarana por sua habilidade em atirar, é o principal personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Num episódio do romance, participa da preparação para uma batalha. O chefe dos jagunços explica como vai ser o confronto e conclui dizendo que precisa de alguns homens de confiança ao lado dele no momento crítico, no calor da batalha. “Riobaldo, Tatarana, tu vem. Lugar nosso vai ser o mais perigoso. Careço de três homens bons, no próximo do meu cochicho.”

Lembrei-me desta passagem ao meditar sobre a vida de São Francisco de Assis.

Na época de São Francisco, a Igreja também passava por momentos críticos. Deus pediu ao santo que A restaurasse. O Senhor viu nele um homem bom, merecedor da Sua confiança para lutar a difícil luta de reconstruir o Edifício Espiritual. Na sua simplicidade, Francisco interpretou o pedido literalmente e pensou em reformar a igreja onde rezava. Só mais tarde percebeu a imensidão do encargo.

Hoje está chegando ao Brasil outro Francisco, outro homem bom, com uma delicada missão. Os católicos, bem como os nossos irmãos separados, passam por perseguições de todo o tipo, no mundo todo. Pior ainda, o inimigo está dentro; tomou forma na pele de marxistas (leia-se ateus) para quem a Igreja é uma instituição como outra qualquer, um sindicato ou um clube de futebol, alvo das suas maquinações – Maria avisou em Fátima: “Cuidado com a Rússia”. O Papa Francisco, em pouco tempo, já mostrou serviço. Se a tarefa é imensa, o argentino não tem medo dela.

Um Francisco – o santo -, outro Francisco – o Papa – … e o terceiro homem bom, quem é?

Ué!? Está na cara: tem que ser eu, tem que ser você, porque querer que alguém enfrente a parada mas não estar disposto a meter mãos à obra é muita folga, não acha? A nossa missão é bem clara: estudar (para não agir loucamente), orar (para entender a vontade de Deus), se sacrificar (para ganhar força) e agir (“pelos frutos os conhecereis” Mt7,20). O que tinha São Francisco a mais do que você e eu? Não podemos imitá-lo na entrega a Deus e na força de vontade e determinação? O que nos prende?

Vou dizer o que nos prende: quando a gente vê de fora a valentia dos santos em situações perigosas, acha muito bonito todas as peripécias, aventuras e ciladas. Mas quando o enredo é conosco, bom, aí a coisa não é tão bonita assim… O medo e o apego às caducas coisas da terra nos prendem. Bem cedo nos fugirão das mãos, ensina São Josemaría.

Hoje, o Edifício está aos cacos. A perseguição aos cristãos recrudesce. O lugar dos católicos é o mais perigoso. O Chefe olha para a força de homens e diz: “Careço de três homens bons. Lugar nosso vai ser o mais perigoso.” E, com esperança e confiança, diz a você:

– Riobaldo, Tatarana, tu vem.

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