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Comunismo e Nazismo: farinha do mesmo saco

“Mas uma nova geração de pessoas, cujo conhecimento da vida sob o comunismo é pouco ou nulo, está tentando dar a esta heresia, agora vestida em trajes socialistas, uma nova vida na França, Grécia, Espanha, Portugal, Venezuela, Argentina, Brasil e Equador, e poucas pessoas estão prestando atenção a este fato.”

O artigo abaixo foi publicado no World Net Daily em 8 de julho de 2013. O autor é o general Ion Mihai Pacepa, oficial de mais alta patente do bloco comunista que obteve asilo político nos Estados Unidos. O seu novo livro, Disinformation, em co-autoria com o professor Ronald Rychlak, foi publicado pelo WND Books em junho de 2013.

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Comunismo e Nazismo: dois monstros idênticos

Exclusivo: o general Ion Mihai Pacepa analisa o livro definitivo sobre duas “pestes bubônicas”

O livro “The Devil in History: Communism, Fascism and Some Lessons of the Twentieth Century”, do professor Vladimir Tismaneanu, é o livro definitivo sobre estas duas pestes bubônicas. Extremamente documentado e elegantemente escrito, traz à luz não apenas as semelhanças ideológicas entre fascismo e comunismo mas também os métodos de manipulação semelhantes usados por ambos para criar movimentos de massa destinados a fins apocalípticos.

Eu vivi tanto sob o Terceiro Reich quanto sob o Império Soviético e sei que um mero mortal qualquer que ousasse traçar um mínimo paralelo entre comunismo e nazismo acabaria atrás das grades – se tivesse sorte. Os nazistas, indignados, descartavam qualquer relação com o comunismo, do mesmo modo como os comunistas, nervosamente, rejeitavam qualquer comparação com o nazismo/fascismo. Mas não os seus líderes. No dia 23 de agosto de 1939, quando o ministro das realações exteriores soviético, Vyacheslav Molotov, e o seu colega alemão equivalente, Joachim von Ribbentrop, se reuniram no Kremlin para assinar o infame Pacto de Não-agressão Hitler-Stalin, Stalin estava eufórico. Ele disse a Ribbentrop: “O governo soviético leva muito a sério este novo pacto. Eu posso garantir, sob a minha palavra de honra, que a União Soviética não trairá o seu parceiro”. (John Toland, “Adolf Hitler” (New York: Doubleday, 1976) página 548)

Havia muitas razões para Stalin estar alegre. Tanto ele quanto Hitler acreditavam na necessidade histórica de expandir o território dos seus impérios. Stalin chamava isso de “revolução do proletariado mundial”. Hitler chamava de “Lebensraum” (espaço vital). Ambos basearam as suas tiranias no roubo. Hitler roubou a riqueza dos judeus. Stalin roubou a riqueza da igreja e da burguesia. Ambos odiavam religião, e ambos substituíram Deus pelo culto às suas próprias pessoas. Ambos eram também profundamente anti-semitas. Hitler matou cerca de 6 milhões de judeus. Durante a década de 1930, apenas Stalin – oriundo da Georgia, onde os judeus haviam sido escravos até 1871 – prendeu cerca de 7 milhões de russos (a maior parte judeus) sob a acusão de espionagem a serviço do sionismo americano e os matou.

“The Devil In History” não é o primeiro livro a estudar a relação entre Fascismo e Comunismo, mas é o primeiro escrito por um eminente estudioso em cujo sangue correm os genes dos dois movimentos. Os pais de Vladimir Tismaneanu lutaram pelo fascismo nas Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil Espanhola, viveram em Moscou durante a Segunda Guerra Mundial como ativistas comunistas, compreenderam as tragédias provocadas pelo comunismo e terminaram a vida profundamente desencantados. O próprio Vladimir foi seduzido pelo marxismo (especialmente pelo neo-marxismo da Escola de Frankfurt) até deixar a Romênia, aos 30 anos de idade, em 1981. Ele se tornou professor anti-comunista especialista em estudos soviéticos e do leste europeu quando o marxismo-leninismo estava com força total e chefiou a Comissão Presidencial da Romênia para o Estudo da Ditadura Comunista em seu país, que condenou fortemente as atrocidades do comunismo. O primeiro livro de Vladimir em inglês foi publicado em 1988. O título é revelador – “The Crisis of Marxist Ideology in Eastern Europe: The Poverty of Utopia”. Quando muitos kremlinologistas focavam os seus estudos nas elites comunistas e nos conflitos mortais, Tismaneanu percebeu que o comportamento das elites era explicado pelo sistema de crenças leninista. Os líderes comunistas eram assassinos, sem dúvida, mas eram assassinos com uma ideologia. Nicolae Ceausescu, a quem conheci muito bem, era um comunista fanático que acreditava realmente que o comunismo estava do lado certo da história.

“The Devil In History” é tanto um livro sobre o passado quanto um livro sobre o futuro. Em novembro de 1989, quando o Muro de Berlim foi derrubado, milhões de pessoas gritaram “O comunismo morreu”. O comunismo soviético, como forma de governo, realmente morrera. Mas uma nova geração de pessoas, cujo conhecimento da vida sob o comunismo é pouco ou nulo, está tentando dar a esta heresia, agora vestida em trajes socialistas, uma nova vida na França, Grécia, Espanha, Portugal, Venezuela, Argentina, Brasil e Equador, e poucas pessoas estão prestando atenção a este fato. Em 15 de fevereiro de 2003, milhões de europeus tomaram as ruas, não para celebrar a liberdade desfrutada graças à luta dos americanos para impedir que eles se tornassem escravos soviéticos, mas para condenar o imperialismo americano, conforme descrito em “Empire” (de Michael Hardt e Antonio Negri, Harvard University Press, 2000), livro cujo co-autor, Antonio Negri, um terrorista disfarçado de professor marxista, esteve preso pelo envolvimento no sequestro e assassinato do primeiro ministro italiano Aldo Moro. O jornal The New York Times chamou o atual Manifesto Comunista de Negri de “o livro quente e inteligente do momento”. (David Pryce-Jones, “Evil Empire, The Communist ‘hot, smart book of the moment’”, National Review Online, 17 de setembro de 2001).

Durante 27 anos da minha outra vida, na Romênia, eu estive envolvido em operações destinadas a criar inúmeros Antonios Negris para desempenhar o papel de guerreiros da Guerra Fria em toda a Europa Oriental e usá-los para jogar a região contra os Estados Unidos. “The Devil In History” é um estudo enciclopédico sobre como a máquina de desinformação soviética e pós-soviética usou aqueles Negris para converter o antigo ódio europeu pelos nazistas em ódio aos EUA, o novo poder de ocupação.

Em 1851, quando Luís Bonaparte, o vil sobrinho de Napoleão, tomou o poder na França, Karl Marx disse a sua agora famosa máxima: “A história sempre se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. “The Devil In History” documenta os atuais esforços dos esquerdistas para reviver as mentiras soviéticas, e isto mostra a sua ridícula natureza.

“The Devil In History” tem não apenas importância ideológica mas também histórica, pois torna o seu autor, Vladimir Tismaneanu, uma versão americana conservadora de Eric Hobsbawm, o mais respeitado historiador britânico.

Hobsbawm, morto há pouco com a venerável idade de 95 anos, era um polímata erudito, um esplêndido pesquisador e um excelente escritor. Infelizmente, também resolveu ser um marxista profissional e os marxistas são, por definição, mentirosos. Eles são obrigados a mentir porque a realidade de todas as sociedades marxistas tem sido desvatadora, a um nível espantoso. Mais de 115 milhões de pessoas foram mortas em todo mundo na tentativa de manter vivas as mentiras do marxismo.

O quarteto de livros mais respeitado de Hobsbawm, “The Age of Revolution” e “The Age of Extremes”, aos quais dedicou a maior parte da sua vida, também são uma mentira: apresentam a história da revolução marxista soviética, evolução e ‘descentralização’ (evolution and devolution) que ignoram totalmente os gulags. São como uma história do nazismo ignorando o Holocausto, ou uma história do Egito desconsiderando os faraós e as pirâmides. Hobsbawm filiou-se ao Partido Comunista Britânico em 1936, e nele permaneceu mesmo após o seu eterno ídolo, a União Soviética, ter sucumbido. Hobsbawm jamais retirou a sua filiação ao Partido Comunista. Ele explicou: “O Partido… teve o primeiro, ou mais precisamente, o único direito real das nossas vidas… As exigências do Partido têm prioridade absoluta… Se ele mandar você abandonar a namorada ou a esposa, você deve fazê-lo”.

Vladimir Tismaneanu também se filiou ao Partido Comunista quando jovem – como eu fiz – mas rompeu com o Partido quando o comunismo ainda estava com força total – como eu fiz – e expôs os seus males ao resto do mundo – como eu também fiz. A bem da verdade, devo registrar a minha imensa admiração por Tismaneanu e dizer que o considero um bom amigo, embora jamais tenhamos nos encontrado. Sob o meu ponto de vista, ele é o maior especialista em Comunismo Romeno e um dos maiores estudiosos do mundo sobre o Leste Europeu. O seu “Stalinism for All Seasons” é o mais amplo estudo sobre o Comunismo Romeno e o seu “Fantasies of Salvation: Democracy, Nationalism, and Myth in Post-Communist Europe” recebeu o prêmio romeno-americano da Academy of Arts and Sciences. Por sua incansável atividade de pesquisa, Vladimir Tismaneanu tornou-se um membro do prestigioso Institut fur die Wissenschaften von Menschen em Viena, Áustria, e recebeu o título de Public Policy Scholar do Woodrow Wilson International Center for Scholars.

A despeito da cobertura da imprensa sobre a corrida nuclear durante a Guerra Fria, nós, no topo do serviço de inteligência do bloco soviético naqueles anos, lutamos, naquela guerra, pela conquista das mentes – na Europa, na esquerda americana, no Terceiro Mundo – pois sabíamos ser impossível ganhar as batalhas militares. A Guerra Fria acabou realmente, mas, diferentemente das outras guerras, não terminou com um inimigo derrotado depondo as armas. No ano 2000, alguns dos meus antigos colegas da KGB tomaram o Kremlin e transformaram a Rússia na primeira ditadura de inteligência da história. Mais de seis mil antigos agentes da KGB estão nos governos russos federal e local. Seria como tentar democratizar a Alemanha com os oficiais da Gestapo no comando.

Vladimir Tismaneanu é o analista político perfeito para os dias de hoje, pois é um especialista nos dois legados, nazista e comunista. A despeito de diagnósticos otimistas e do excessivo wishful thinking, estas duas patologias não estão mortas. O esclarecedor livro de Vladimir Tismaneanu é um antítodo contra os novos experimentos do radicalismo utópico e da engenharia social.

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Como o Kremlin mata

O texto abaixo foi publicado no National Review Online em 28 de novembro de 2006. O autor é o general Ion Mihai Pacepa, oficial de mais alta patente que desertou do bloco comunista.

Como o Kremlin mata

Uma longa tradição continua.

Não tenho dúvidas de que o oficial aposentado da KGB/FSB, Alexander Litvinenko, foi assassinado por ordem de Putin. Foi morto, acredito, por ter revelado os crimes de Putin e o treinamento secreto, pela FSB,  de Ayman al-Zahawiri, o número dois da al Qaeda. É fato que o Kremlin tem usado repetidamente armas radioativas para matar os seus inimigos políticos no exterior. No fim da década de 1970, Leonid Brezhnev deu a Ceausescu, via KGB e sua irmã romena, a Securitate, tálio radioativo solúvel em pó, para ser colocado na comida; o veneno servia para matar inimigos políticos no exterior. De acordo com a KGB, o tálio radioativo se desintegraria dentro do corpo da vítima, gerando uma forma de câncer fatal e galopante, e não deixando nenhum traço detectável na autópsia. A substância foi descrita para Ceausescu como uma nova geração da arma de tálio radioativo usada, sem sucesso, contra o desertor da KGB Nikolay Khokhlov na Alemanha Ocidental em 1957. (Khokhlov perdeu todos os cabelos mas não morreu.) O codinome romeno era “Radu” (de radioativo) e eu a descrevi no meu primeiro livro, Red Horizons, publicado em 1987. O Polônio 210 usado para matar Litvinenko parecer ser uma nova versão de “Radu”.

O assassinato como política externa

Os esforços sistemáticos do Kremlin para assassinar inimigos políticos no exterior (não só com veneno, é claro) começou poucos meses depois do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, realizado em fevereiro de 1956, no qual Khrushchev expôs os crimes de Stalin. Em abril daquele ano, o general Ivan Anisimovich Fadeyev, chefe do novo 13° Departamento da KGB, responsável por assassinatos no exterior, chegou a Bucareste para uma “troca de experiências” com o DIE, o serviço de inteligência estrangeira romeno, ao qual eu pertencia. Antes disso, Fadeyev havia chefiado o enorme posto de inteligência da KGB em Karlhorst, Berlim Oriental, e era conhecido em toda a nossa comunidade de inteligência como um sanguinário, responsável pelo sequestro de centenas de ocidentais e cujas tropas haviam suprimido brutalmente as demonstrações anti-soviéticas de 13 de junho de 1953 em Berlim Oriental.

Fadeyev começou a sua “troca de experiências” em Bucarest nos dizendo que Stalin havia cometido um erro indesculpável: havia apontado a lâmina do aparato de segurança do estado contra o “seu próprio povo”. Quando Khrushchev fez o seu “discurso secreto”, a sua única intenção era corrigir aquela aberração. “Os nossos inimigos” não estão na União Soviética, Fadeyev explicou. As burguesias da América e da Europa Ocidental queriam liquidar o comunismo. Elas eram os “nossos inimigos mortais”. Eram os “cachorros loucos” do imperialismo. Devíamos apontar a lâmina da nossa espada contra elas, e apenas contra elas. Era isto o que Nikita Sergeyevich realmente queria dizer com o seu “discurso secreto”.

De fato, Fadeyev disse, uma das primeiríssimas decisões de política externa de Khrushchev foi a sua ordem de 1953 para assassinar secretamente um destes “cachorros loucos”: Georgy Okolovich, o líder da National Labor Alliance (Natsionalnyy Trudovoy Soyuz, ou NTS), uma das organizações de russos exilados mais agressivamente anti-comunista da Europa Ocidental. Infelizmente, Fadeyev nos disse, o líder da equipe de assassinos Nikolay Khokhlov, chegando ao destino, havia desertado para a CIA e denunciado publicamente a mais recente arma secreta criada pela KGB: um revólver operado eletricamente escondido dentro de um maço de cigarros que disparava balas com ponta carregadas de cianeto. E, como um problema nunca vem sozinho, Fadeyev acrescentou, dois outros oficiais da KGB familiarizados com a estratégia de assassinatos haviam desertado logo após Khokhlov: Yury Rastvorov em janeiro de 1954 e Petr Deryabin em fevereiro de 1954.

Tudo isso, Fadeyev disse, havia levado a mudanças drásticas. Em primeiro lugar, Khrushchev havia ordenado à sua máquina de propaganda para espalhar por todo o mundo o boato de que ele tinha abolido a estratégia de assassinatos da KGB. Em seguida, ele denominou os assassinatos no exterior com o eufemismo “neutralizações”, renomeando a 9a Seção da KGB – como a divisão de assassinatos era chamado na época – como 13° Departamento, sepultando-a sob um segredo ainda mais profundo do que antes, e a colocando sob a sua supervisão direta. (Mais tarde, após o 13° Departamento ter sido comprometido, o nome foi alterado de novo.)

Em seguida, Khrushchev introduziu uma nova “metodologia” para a execução de operações de neutralização. A despeito da inclinação da KGB pela papelada burocrática, estes casos deviam ser tratados rigorosamente sem anotações e mantidos em segredo para sempre. Também deviam ser mantidos completamente em segredo do Politburo e de todos os demais órgãos governamentais. “O Camarada, e somente o Camarada”, Fadeyev enfatizou, podia agora aprovar neutralizações no exterior. (Nos altos círculos do bloco soviético, o termo “o Camarada” designava coloquialmente o líder de cada país.) Independentemente de quaisquer evidências produzidas pelas investigações policiais estrangeiras, a KGB – bem como as suas irmãs dos serviços secretos – jamais, sob quaisquer circunstâncias, podia admitir o envolvimento em assassinatos no exterior; todas as evidências produzidas deviam ser completamente rejeitadas como acusações ridículas. E, finalmente, após cada operação, a KGB devia secretamente espalhar “provas” no exterior acusando a CIA ou qualquer outro “inimigo” conveniente de ter cometido o ato, e assim matando, se possível, dois coelhos com uma cajadada só. Em seguida, Khrushchev mandou a KGB desenvolver uma nova geração de armas para matar sem deixar traços no corpo da vítima.

Antes de Fadeyev deixar Bucareste, o DIE havia instituído a sua própria divisão de operações de neutralização, denominada de Grupo Z, pois a letra Z era a última letra do alfabeto, significando a “solução final”. Esta nova unidade agiu, então, para conduzir a sua primeira operação de neutralização no bloco soviético sob as novas regras de Khrushchev. Em setembro de 1958, o Grupo Z, ajudado por uma equipe especial da alemã oriental Stasi, sequestrou da Alemanha Ocidental o líder anti-comunista romeno Oliviu Beldeanu. Os governos da Alemanha Oriental e da Romênia jogaram a responsabilidade pelo crime nas costas da CIA, publicando comunicados oficiais alegando que Beldeanu havia sido preso na Alemanha Oriental após ter sido secretamente infiltrado naquele país pela CIA para realizar operações de sabotagem e manobras diversionistas.

A exportação de uma tradição

Vladimir Putin parece ser apenas o mais recente de uma longa linha de czares russos mantenedor da tradição de assassinar qualquer um que atravesse o seu caminho. A prática remonta, pelo menos, ao século XIV de Ivan, o Terrível, assassino de milhares de aristrocratas e de outras pessoas, incluindo o Metropolitano Philip e o príncipe Alexander Gorbatyl-Shuisky, mortos por terem se recusado a prestar o juramento de obediência ao filho mais velho do czar, criança na época. Pedro, o Grande, lançou a sua polícia política contra todos os que falassem contra ele, desde a sua própria esposa a bêbados que contavam piadas sobre o seu governo; ele até mesmo fez a polícia política enganar e levar de volta à Rússia o próprio filho e herdeiro, o tsarevich Aleksey, a quem torturou até a morte.

Sob o comunismo, os assassinatos arbitrários se tornaram uma política de estado. Em 11 de agosto de 1918, numa ordem escrita à mão ordenando o enforcamento de pelo menos 100 kulaks na torre de Penza para servir de exemplo, Lênin escreveu: “Enforquem (enforquem sem falta, para o povo ver) não menos do que cem kulaks conhecidos, homens ricos, agiotas… Façam de tal forma que o povo num raio de centenas de quilômetros veja, estremeça, saiba e grite: eles estão amarrando e estrangulando até a morte estes kulaks agiotas”. (Esta carta fez parte de uma exposição intitulada “Revelations from the Russian Archives” exibida na Biblioteca do Congresso, Washington, D.C., em 1992.)

Durante o expurgo de Stalin, cerca de nove milhões de pessoas perderam a vida. Dos sete membros do Politburo de Lênin da época da Revolução de Outubro, somente Stalin estava vivo quando o massacre terminou.

O que eu sempre achei até mais perturbador do que a brutalidade destes crimes era o profundo envolvimento dos líderes soviéticos neles. Stalin ordenou pessoalmente que Leon Trotsky, o co-fundador da União Soviética, fôsse assassinado no México. E Stalin entregou em mãos a Ordem de Lênin para a comunista espanhola Caridad Mercader del Rio, cujo filho, o oficial da inteligência soviética, Ramón Mercader, havia assassinado Trotsky em agosto de 1940 esmagando-lhe a cabeça com uma picareta. Da mesma forma, Khrushchev colocou, com as próprias mãos, a mais alta medalha soviética no peito de Bogdan Stashinsky, oficial da KGB responsável pelo assassinado dois líderes anti-comunistas exilados na Alemanha Ocidental em 1962.

O meu primeiro contato com as operações de “neutralização” do Kremlin ocorreram em 5 de novembro de 1956, quando eu estava em treinamento no ministério de relações exteriores para assumir o meu falso cargo de representante chefe da Missão Romena na Alemanha Ocidental. Mihai Petri, um oficial do DIE atuando como ministro representante, disse-me que o “big boss” precisava de mim imediatamente. O “big boss” era o general disfarçado da KGB Mikhail Gavrilyuk, romenizado como Mihai Gavriliuc e chefe do meu DIE.

“É khorosho ver um velho amigo, Ivan Mikhaylovich” ouvi do homem descansando em uma cadeira confortável na mesa de Gavriliuc. Era o general Aleksandr Sakharovsky, que se levantou da cadeira e estendeu a mão. Ele havia criado o DIE e, como conselheiro de inteligência soviético do órgão, havia sido o meu chefe de facto até alguns meses antes, quando foi escolhido por Khrushchev para chefiar a toda-poderosa PGU (Pervoye Glavnoye Upravleniye, ou Primeira Diretoria Geral da KGB, o serviço de inteligência estrangeira da União Soviética). “Deixe-me apresentar você a Ivan Aleksandrovich” ele disse, apontando um rústico e desgastado par de óculos esporte com aros dourados. Era o general Ivan Serov, o novo chefe da KGB. Os dois visitantes estavam usando camisas típicas ucranianas floridas folgadas e calças esporte, em total contraste com os trajes acinzentados e cheio de botões estilo Stalin, até recentemente o uniforme virtual da KGB. (Até hoje para mim ainda é um mistério o motivo pelo qual a maior parte dos altos oficiais da KGB que eu conheci se esforçavam para imitar o líder soviético no poder. Seria simplesmente uma herança oriental dos tempos dos czares, quando os burocratas russos faziam qualquer coisa para adular os seus superiores?)

Os visitantes disseram que na noite anterior o premiê húngaro Imre Nagy, responsável pela cisão com o Pacto de Varsóvia e pelo pedido de ajuda às Nações Unidas, havia procurado refúgio na embaixada ioguslava. O ditador romeno Gheorghe Gheorghiu-Dej e o membro do Politburo Walter Roman (colega de Nagy dos anos de guerra quando ambos haviam trabalhado para o Comintern em Moscou) concordaram em voar para Budapeste para ajudar a KGB a sequestrar Nagy e levá-lo à Romênia. O major Emanuel Zeides, o chefe do setor alemão, fluente em húngaro, iria com eles como intérprete. “Quando Zeides Vienna você chefia nemetskogo otdeleniya” Gavriliuc me disse, finalmente deixando claro o motivo pelo qual eu havia sido convocado. Ou seja, eu seria o responsável pelo braço alemão do DIE.

Em 23 de novembro de 1956, os três membros do Politburo soviético que haviam coordenado de Budapeste a intervenção militar na Hungria enviaram um telegrama cifrado para Khrushchev:

Camarada Walter Roman, que chegou em Budapeste junto com o Camarada Dej ontem, dia 22 de novembro, teve longas discussões com Nagy… Imre Nagy e o seu grupo deixaram a embaixada ioguslava e estão agora em nossas mãos. Hoje o grupo partirá para a Romênia. O Camarada Kadar e os camaradas romenos estão preparando um adequado comunicado à imprensa. Malenkov, Suslov, Aristov.

Um ano mais tarde, Nagy e os principais membros do seu gabinete foram enforcados, após um julgamento encenado organizado pela KGB em Budapeste.

Em fevereiro de 1962, a KGB quase conseguiu assassinar o xá do Irã, que havia cometido o imperdoável “crime” de remover um governo comunista instalado no noroeste do Irã. O conselheiro-chefe da razvedka (inteligência estrangeira, em russo) do DIE jamais nos falou muito sobre a fracassada tentativa da KGB de matar o xá, mas deu ordens ao posto do DIE em Teerã para destruir todos os documentos comprometedores, suspender todas as operações dos agentes e relatar tudo, incluindo boatos, a respeito do atentado contra o xá. Poucos dias depois, ele cancelou o plano do DIE para matar o seu próprio desertor Constantin Mandache na Alemanha Ocidental com uma bomba colocada num carro porque, o conselheiro nos disse, o controle remoto, fornecido pela KGB para esta operação, poderia apresentar problemas de funcionamento. Em 1990, Vladimir Kuzichkin, oficial da KGB diretamente envolvido no atentado fracassado para matar o xá e que depois desertou para o Ocidente, publicou um livro (Inside the KGB: My Life in Soviet Espionage, Pantheon Books, 1990) no qual descreve a operação. De acordo com Kuzichkin, o xá escapou porque o controle remoto, usado para detonar uma grande quantidade de explosivos em um automóvel Volkswagen, falhou.

Dissidentes Silenciados

Em um domingo, 20 de março de 1965, fiz a minha última visita à residência de inverno de Gheorghiu-Dej em Predeal. Como de costume, encontrei-o com o seu melhor amigo, Chivu Stoica, chefe honorário da Romênia. Dej reclamou que se sentia fraco, tonto e com náuseas. “Acho que a KGB me pegou” ele disse, meio sério, meio brincando. “Eles pegaram Togliatti. É certeza” sussurrou Stoica com raiva.

Palmiro Togliatti, chefe do partido comunista italiano, havia morrido em 21 de agosto de 1964, durante uma visita à União Soviética. Nos altos círculos da comunidade de inteligência estrangeira do bloco acreditava-se que havia morrido de uma rápida forma de câncer após ter sido irradiado pela KGB a mando de Khrushchev durante férias em Yalta. O seu assassinato havia sido provocado porque, enquanto estava na União Soviética, havia escrito um “testamento” no qual expressara profundo descontentamento com os erros de Khrushchev. As frustrações de Togliatti expressavam não apenas a sua opinião mas também a de Leonid Brezhnev. De acordo com Dej, estas suspeitas foram confirmadas pelo fato de que Brezhnev foi ao funeral de Togliatti em Roma; em setembro de 1964 o Pravda publicou trechos do “testamento” de Togliatti e cinco semanas mais tarde Khrushchev foi destronado após ser acusado de conspiração impulsiva, decisões precipitadas, ações divorciadas da realidade, arrogância e governo por decreto.

Eu vi Dej amedrontado. Ele também havia criticado a política externa de Khrushchev. Mais ainda, um ano antes ele havia expulsado todos os conselheiros da KGB da Romênia e no mês de setembro anterior havia expressado a Khrushchev a sua preocupação sobre a “estranha morte” de Togliatti. Durante as eleições de 12 de março de 1965 para a Grande Assembléia Nacional da Romênia, Gheorghiu-Dej ainda parecia robusto. Uma semana depois, entretanto, morreu de uma forma galopante de câncer. “Assassinado por Moscou” sussurrou para mim o novo líder romeno, Nicolae Ceausescu, poucos meses depois. “Irradiado pela KGB” murmurou num tom de voz mais baixo ainda, afirmando “Isto ficou bem provado na autópsia”. O assunto havia vindo à tona porque Ceausescu havia me mandado comprar dispositivos ocidentais de detecção de radiação (contadores Geiger-Müller) e mandado instalá-los secretamene em seus escritórios e residências.

Logo após a invasão de Praga pelos soviéticos, Ceausescu passou do stalinismo para o maoísmo, e em junho de 1971 visitou a China Vermelha. Lá, soube do complô da KGB para matar Mao Tsé-Tung com a ajuda de Lin Biao, comandante do exército chinês, educado em Moscou. O plano falhou, e Lin Biao tentou, sem sucesso, fugir da China em um avião militar. A sua execução só foi anunciada em 1972. Durante o mesmo ano, eu soube de detalhes do plano soviético por meio de Hua Guofeng, ministro de segurança pública – que em 1977 viria a ser o líder supremo da China.

“Dez”, Ceausescu me disse. “Dez líderes internacionais que o Kremlin matou ou tentou matar” ele explicou, enumerando-os nos dedos. Laszlo Rajk e Imre Nagy, na Hungria; Lucretiu Patrascanu e Gheorghiu-Dej, na Romênia; Rudolf Slansky, líder da Checoslováquia, e Jan Masaryk, diplomata chefe do país; o xá do Irã; Palmiro Togliatti da Itália; o presidente americano John F. Kennedy e Mao Tsé-Tung. (Entre os líderes dos serviços de inteligência satélites de Moscou era consenso que a KGB estava envolvida no assassinato do presidente Kennedy.)

Imediatamente, Ceausescu ordenou que eu criasse uma unidade super-secreta de contrainteligência para operações em países socialistas (isto é, no bloco soviético). “Você tem mil pessoas para isto.” Advertiu também que a nova unidade devia ser “não existente”. Nenhum nome, nenhum título, nenhuma placa na porta. A nova unidade recebeu somente a designação genérica U.M. 0920/A, e o seu comandante recebeu a categoria de chefe de diretoria do DIE.

Ordem para Matar

No inesquecível dia de 22 de julho de 1978, Ceausescu e eu estávamos escondidos, de tocaia para caçar pelicanos em um canto remoto do Delta do Danúbio, onde nem mesmo um pássaro poderia nos ouvir. Como homem disciplinado e general aposentado, ele era fascinado pela sociedade estruturada dos pelicanos brancos. Os pássaros mais velhos – os avós – sempre ficavam na parte frontal da praia, perto da água e da fonte de alimentação. Os seus filhos respeitadores se alinhavam atrás deles em filas ordenadas, enquanto os netos passavam o tempo se movimentando na parte de trás. Eu frequentemente ouvia o meu chefe expressar o seu desejo de que a Romênia tivesse a mesma rígida estrutura social.

“Quero que você dê ‘Radu’ para Noel Bernard” Ceausescu sussurrou no meu ouvido. Noel Bernard era na época o diretor do programa romeno da Radio Free Europe (RFE), e por anos vinha enfurecendo Ceausescu com os seus comentários. “Você não precisa me relatar os resultados”, acrescentou. “Vou saber pelos jornais ocidentais e…” O fim da frase de Ceausescu foi apagada pelo rá-tá-tá metódico da submetralhadora. Ele atirou com cerimoniosa precisão, primeiramente na linha frontal dos pelicanos, depois na distância média e por fim nos netinhos atrás.

Durante 27 anos eu vivi com o pesadelo de que, mais cedo ou mais tarde, eu receberia uma ordem para matar alguém. Até aquela ordem de Ceausescu, eu tinha estado em segurança, pois as operações de neutralização estavam a cargo do chefe do DIE. Mas em março de 1978 eu fui designado chefe interino do DIE e não havia mais como eu escapar de me envolver nos assassinatos políticos, convertidos no principal instrumento de política externa de todo o bloco soviético.

Dois dias depois Ceausescu me enviou para Bonn para entregar uma mensagem secreta para o chanceler Helmut Schimdt, e lá eu pedi asilo político nos Estados Unidos.

Os assassinatos continuam

Noel Bernard continuou a informar os romenos sobre os crimes de Ceausescu, e no dia 21 de dezembro de 1981 ele faleceu devido a uma forma galopante de câncer. Em 1° de janeiro de 1988, o seu sucessor, Vlad Georgescu, iniciou uma série de programas sobre o meu livro Red Horizons na RFE. Meses depois, quando a série acabou, Georgescu informou aos seus ouvintes que a Securitate havia repetidamente avisado que ele poderia ser morto se transmitisse Red Horizons. “Se eles me matarem por ter feito a série sobre o livro de Pacepa, morrerei com a clara consciência de que cumpri o meu dever como jornalista” Georgescu afirmou publicamente. Poucos meses depois, ele morreu de uma forma galopante de câncer.

O Kremlin também continuou matando secretamente os seus oponentes políticos. Em 1979, a KGB de Brezhnev infiltrou Makhail Talebov na corte do premiê afegão pró-americano Hafizullah Amin como cozinheiro. A missão de Talebov era envenenar o primeiro ministro. Após diversas tentativas, Brezhnev ordenou à KGB o uso de força armada. Em 27 de dezembro de 1979, cinquenta oficiais da KGB da unidade de elite “Alfa”, liderada pelo coronel Grigory Boyarnov, ocuparam o palácio de Amin e mataram todas as pessoas para eliminar testemunhas. No dia seguinte, a KGB de Brezhnev levou para Cabul Bebrak Kemal, um comunista afegão refugiado em Moscou e o instalou como primeiro ministro. A operação de neutralização da KGB teve o seu papel na geração do terrorismo internacional de hoje.

Em 13 de maio de 1981, a mesma KGB organizou, com a ajuda da Bulgária, um atentado para matar o Papa João Paulo II, que havia iniciado uma cruzada contra o comunismo. Mehmet Ali Aqca, o atirador, admitiu ter sido recrutado pelos búlgaros, e identificou os seus oficiais de contato na Itália: Sergey Antonov, representante chefe do escritório dos Bálcãs em Roma, que foi preso; e o major Zhelvu Vasilief, do escritório do adido militar, que não pôde ser preso devido ao seu status de diplomata e foi chamado de volta a Sofia. Aqca também admitiu que, após o assassinato, ele devia ser secretamente retirado da Itália em um caminhão TIR [N do T: abreviatura de Transports Internationaux Routiers] (no bloco soviético, os caminhões TIR eram usados pelos serviços de inteligência para atividades operacionais.) Em maio de 1991 o governo italiano reabriu as investigações sobre a tentativa de assassinato e em 2 de março de 2006 concluiu que o Kremlin estava realmente por trás dela.

No Natal de 1989, Ceausescu foi executado após um julgamento no qual as acusações eram provenientes, quase palavra por palavra, do meu livro Red Horizons. Recentemente soube que Nestor Ratesh, diretor aposentado do programa romeno da RFE, após dois anos de pesquisa nos arquivos da Securitate, havia obtido evidências suficientes para provar que tanto Noel Bernard quanto Vlad Georgescu haviam sido mortos pela Securitate por ordem de Ceausescu. O resultado da sua pesquisa será objeto de um livro a ser publicado pela RFE.

Armas Fortes e Estabilidade

Quando a União Soviética entrou em colapso, os russos tiveram uma oportunidade única para acabar com a sua velha forma bizantina de estado policial, responsável por isolar o país durante séculos e deixá-lo mal equipado para lidar com as complexidades da sociedade moderna. Infelizmente, os russos não cumpriram o seu dever. Desde a queda do comunismo, eles têm encarado uma nativa forma de capitalismo tocada pelos velhos burocratas comunistas, especuladores e cruéis mafiosos que ampliaram as injustiças sociais. Assim, após um período de crescimento, os russos gradualmente – e talvez agradecidamente – retornaram para a sua histórica forma de governo, a tradicional samoderzhaviye russa, uma forma de autocracia que remonta ao século XIV de Ivan, o Terrível, no qual um senhor feudal governava o país com a ajuda da sua polícia política pessoal. Bem ou mal, a velha polícia política pode parecer para a maioria dos russos como uma defesa contra a ganância dos novos capitalistas domésticos.

Não será fácil romper uma tradição de cinco séculos. Isto não significa que a Rússia não pode mudar. Mas para isto acontecer, os Estados Unidos precisam ajudar. Devemos parar de fingir que o governo russo é democrático e devemos chamá-lo pelo verdadeiro nome: um bando de seis mil oficiais aposentados da KGB – uma das mais criminosas organizações da história – ocupando os mais importantes cargos do governo federal e dos governos locais, e que está perpetuando a prática de Stalin, Khrushchev e Brezhnev de assassinar secretamente as pessoas que atravessam o seu caminho. O assassinato sempre cobra um preço, e o Kremlin devia ser obrigado a pagá-lo até que pare com os assassinatos.

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Ingratidão

Hoje é aniversário da Queda do Muro de Berlim.

Se o socialismo (ou comunismo, é a mesma porcaria) é tão bom, porque precisa de muro para prender as pessoas? Por que a China corta os pés de quem tenta fugir? Por que tanta gente quer dar as costas ao paraíso cubano e conhecer os horrores do capitalismo de Miami?

O Muro de Berlim caiu, mas o comunismo não. O comunismo se metamorfoseou porque esta hidra tem duas cabeças, tese e antítese, que, cortadas, dão origem a uma terceira, a síntese. Só quem estuda entende a estratégia marxista.

O comunismo vai bem, obrigado, anda de mãos dadas com o socialismo fabiano que, aliás, é o tipo de socialismo em voga no nosso país.

Precisamos, na verdade, derrubar outro muro: o muro da ignorância. Estude, para não ser feito de trouxa e não fazer o papel de quem Lenin chamava “inocente útil” – incautos e desavisados dos quais o comunismo se alimenta.

Se o comunismo é tão bom por que as pessoas querem fugir dele? Acho que Boris Casoy está certo: “Deve ser por pura ingratidão!”

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Como os Líderes Marxistas Escondem o Passado

O texto abaixo é a tradução do artigo Lenin, Stalin, Ceausescu, Obama: How Marxist Leaders Conceal Their Pasts, publicado no PJ Media em 30 de novembro. O autor é o general Ion Mihai Pacepa, oficial de mais alta patente que desertou do bloco comunista.

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Lenin, Stalin, Ceausescu, Obama: Como os Líderes Marxistas Escondem o seu Passado

Estive ausente destas páginas por um tempo. O meu novo livro Disinformation, escrito em co-autoria com o professor Ronald Rychlak, e o documentário nele baseado monopolizaram o meu tempo. Mas, uma nauseante operação estilo glasnost em andamento nos Estados Unidos me faz sentir como se estivesse assistindo a uma reencenação da imensa glasnost que eu costumava conduzir durante a minha época como conselheiro do presidente da Romênia comunista, Nicolae Ceausescu.

Não, glasnost não é um erro de impressão ou digitação. Durante os meus anos no topo da comunidade KGB, glasnost era o codinome de uma ferramenta de inteligência ultra-secreta da ultra-secreta “ciência” negra de desinformação da KGB. A sua missão era transformar o país em um monumento ao seu líder, e retratá-lo como o próprio Deus. Isto me trouxe de volta ao JP Media e aos seus leitores, pois a glasnost só funciona para quem não sabe o que ela realmente significa.

Se você pensa que Gorbachev inventou a palavra glasnost para descrever os seus esforços na condução da União Soviética “para longe do estado totalitário e na direção da democracia, liberdade e abertura”, você não está sozinho. Toda a mídia ocidental e a maioria dos especialistas ocidentais, até mesmo os de órgãos de inteligência e defesa, acreditam nisto também – como o comitê que deu a Gorbachev o Prêmio Nobel da Paz. A venerável Enciclopédia Britânica define glasnost como “Política soviética de discussão aberta sobre questões políticas e sociais. Foi instituída por Mikhail Gorbachev no fim da década de 1980 e deu início à democratização da União Soviética”. [ i ] E o American Heritage Dictionary define glasnost como

uma política oficial do antigo governo soviético enfatizando a sinceridade na discussão de problemas e fraquezas sociais. [ ii ]

Mas glasnost é, na verdade, um velho termo russo cujo significado é dar brilho à imagem do ditador. Em meados da década de 1930 – meio século antes da glasnost de Gorbachev – a enciclopédia oficial soviética definiu a palavra glasnost como uma interpretação particular nas notícias liberadas para o público: “Dostupnost obshchestvennomy obsuzhdeniyu, kontrolyu; publichnost,”, significando a qualidade da informação disponibilizada para o controle ou para a discussão pública. [ iii ] Em outras palavras, glasnost significa, literalmente, fazer propaganda, ou seja, auto-promoção. Desde o século XVI, desde Ivan, o Terrível, o primeiro ditador a se tornar o czar de todos os russos, todos os líderes daquela nação têm usado a glasnost para se promover dentro e fora do país. Os czares comunistas adaptaram aos nossos dias a longa tradição da glasnost. A cidade de Tsaritsyn foi renomeada para Stalingrado – como São Petersburgo, assim chamada para homenagear Pedro, o Grande, foi renomeada para Leningrado para glorificar Lenin. O corpo embalsamado do mais novo santo da Rússia, Lenin, foi colocado em exibição em Moscou como uma relíquia sagrada para a adoração pública.

Como era de se esperar nos Balcãs, a glasnost romena tomou uma coloração gloriosamente bizantina. Praticamente todas as cidades tinham o seu Boulevard Gheorghiu-Dej, a sua Praça Gheorghiu-Dej, o seu Largo Gheorghiu-Dej. O retrato do seu sucessor, Nicolae Ceausescu, estava pendurado nas paredes de todos os escritórios romenos – como o busto de Putin hoje ornamenta todos os prédios da imensa burocracia russa.

Durante as eleições de 2008, quando o Partido Democrata proclamou o senador Barack Obama como um Messias americano, eu desconfiei que a glasnost havia começado a infectar os Estados Unidos. O senador concordou. Em 8 de junho de 2008, durante um discurso em New Hampshire, ele disse que o início do seu mandato presidencial seria “o momento em que a elevação dos oceanos começaria a diminuir e o nosso planeta começaria a ser curado”. [ iv ] Uma sequência indiscreta no YouTube exibida na Fox TV revelou a imagem do ídolo comunista Che Guevara pendurada na parede do escritório de campanha do senador Obama em Houston. [ v ] Logo em seguida, as assembléias eleitorais do Partido Democrata começaram a se parecer com as reuniões de despertar religioso de Ceausescu – mais de oitenta mil pessoas reunidas em frente do agora famoso templo grego semelhante à Casa Branca erguido em Denver para a aclamação do novo Messias americano.

Muitos poucos americanos consideraram esta retórica como uma nova expressão de democracia. Para mim, foi uma repetição da glasnost de Ceausescu, concebida para transformar a Romênia em um monumento a ele. “Um homem como eu só nasce a cada quinhentos anos” ele dizia sem cessar.

Estaria o senador Obama usando uma glasnost ao estilo Ceausescu? Bem, eu duvido que ele tivesse uma idéia do real significado da glasnost. Ele estava usando calças curtas – na Indonésia comunista – quando a glasnost estava na moda. Mas, quando comparo algumas das coisas que o senador, e mais tarde presidente, Obama fez, ao lado dos seus pronunciamentos públicos, com o modus operandi e a história da glasnost, eu me vejo terrivelmente perto de uma glasnost real.

Vamos fazer o exercício juntos para você julgar por si mesmo.

Em 2008, o agora falecido veterano jornalista David S. Broder comparou as táticas do senador Obama para esconder o seu passado socialista às táticas de proteção usadas pelos pilotos militares ao sobrevoar um alvo fortemente defendido por armas antiaéreas: “Eles liberam uma nuvem de fragmentos metálicos leves na esperança de confundir a mira dos projéteis ou mísseis lançados na sua direção”. [ vi ] Eis uma boa definição de glasnost.

Toda glasnost que eu conheci tinha como tarefa prioritária apagar o passado do ditador dando-lhe uma nova identidade política. A glasnost de Stalin apagou o seu horrível passado de assassino de cerca de 24 milhões de pessoas retratando-o como um deus na terra, com o seu ícone exibido proeminentemente por todo o país. A glasnost de Khruschev visava construir uma fachada internacional de paz para o homem responsável por trazer para o Ocidente os assassinatos políticos da KGB. Isto foi provado pela Suprema Corte da Alemanha Ocidental em outubro de 1962, durante o julgamento público de Bogdan Stashinsky, oficial da KGB condecorado pelo próprio Khrushchev por ter assassinado inimigos da Rússia residentes no Ocidente. [ vii ] Gorbachev, informante da KGB quando estudante da Moscow State University, [ vii ] incumbiu a sua glasnost de tirar a atenção do seu passado na KGB retratando-o como um prestidigitador que exibia uma galanteadora “Miss KGB” para os correspondentes ocidentais e era o responsável pela transformação do União Soviética em uma “sociedade marxista de pessoas livres”. [ ix ]

Em 2008, quando o senador Obama concorria para presidente, as suas políticas de tributos e o seu histórico de votos mostravam-no como “o candidato mais à esquerda jamais nomeado para presidente dos Estados Unidos”. [ x ] Você se lembra? Concorrer como socialista, entretanto, significava navegar por águas desconhecidas, e o senador decidiu dissimular a sua imagem socialista apresentando-se como um Reagan contemporâneo. [ xi ] Após ser eleito, o presidente Obama foi mais longe, exibindo-se como um Lincoln dos dias de hoje [ xii ] ou como um novo Teddy Roosevelt [ xiii ].

Os discursos de auto-promoção foram outra arma da glasnost. Os discursos da glasnost de Lenin mudaram tanto o Marxismo que os seus seguidores acabaram por chamá-lo de “Leninismo”. Stalin colocou o Marxismo, o Leninismo,  a dialética de Hegel e o materialismo de Feuerbach num mesmo balaio de glasnost e criou o seu próprio “Marxismo-Leninismo-Stalinismo”.

Os discursos da glasnost de Ceausescu eram uma ridícula mistura de Marxismo, nacionalismo e adulação bizantina chamada Ceausismo. Todos os seus discursos eram focados em Ceausescu, e todos eram tão escorregadios, indefinidos e inconstantes que ele encheu 24 volumes dos seus trabalhos reunidos sem ser capaz de descrever o real significado do Ceausismo. Em 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlin caiu, sinalizando o fim do Império Soviético. No dia 14 de novembro, Ceausescu convocou o XIV Congresso do Partido Comunista no qual fez um discurso de glasnost de quatro horas que convenceu os participantes a reelegerem a ele e à sua iletrada esposa como líderes da Romênia.

Os discursos de glasnost funcionam para quem não sabe o que a glasnost realmente significa. Eles também funcionaram para o presidente Obama. Nos seus primeiros 231 dias na Casa Branca, ele fez 263 discursos. [ xiv ] Todos eram, basicamente, sobre ele mesmo. [ xv ] O seu discurso State of Union de 2010 exibiu a palavra “Eu” 76 vezes. Em 2011, quando anunciou a morte de Osama bin Laden pelas forças americanas, o presidente Obama usou as palavras “Eu”, “mim” e “meu” 13 vezes combinadas num discurso de apenas 1300 palavras. [ xvi ] “Eu mandei o diretor da CIA… Eu me reuni repetidamente com a minha equipe de segurança nacional… Eu determinei que tínhamos inteligência suficiente para agir… Sob a minha direção, os Estados Unidos lançaram uma operação contra o Complexo de Abbottabad, no Paquistão”. [ xvii ] O discurso State of Union de 2012 do presidente Obama continha a palavra “Eu” 45 vezes, e a palavra “mim” 13 vezes. Na ocasião, ele estava na Casa Branca fazia 1080 dias, e havia feito 726 discursos. [ xviii ]

Em 2011, quando a agência S&P rebaixou a taxa de crédito dos Estados Unidos pela primeira vez na história do nosso país, o presidente Obama fez outro discurso. Foi um bom discurso, tão bom quanto um discurso pode ser – ele é um excelente orador. Mas aquele discurso foi tudo o que o presidente Obama fez. Por isso, o débito nacional aumentou, e o custo de garantia contra a inadimplência aumentou de uma base de 25 para 55 pontos.

Logo após o bárbaro assassinato do embaixador J. Christopher Stevens e três dos seus subordinados dentro do nosso posto diplomático em Benghazi, cometido na emblemática data de 11 de setembro por terroristas islâmicos assumidos, o presidente Obama fez outro discurso. Foi outro bom discurso, mas discursos não detêm o terrorismo. O subsequente ataque terrorista de 2013 na Maratona de Boston foi seguido por mais um discurso presidencial. “Extremistas domésticos. Este é o futuro do terrorismo” proclamou o presidente. Tudo o que tínhamos a fazer era fechar Guantânamo e realizar uma ligeira alteração no modo como os drones eram usados.

Poucos meses atrás, quando o governo terrorista da Síria matou cerca de 1300 pessoas com armas químicas, o presidente Obama fez diversos discursos. Mas discursar foi a sua única atitude, e isto permitiu à KGB de Putin, agora instalada no Krenlim, assumir o controle da nossa política em relação à Síria. Poucos dias atrás, quando o website do Obamacare fechou, o presidente reagiu com mais um discurso, garantindo ao país que o Obamacare “está funcionando excelentemente. Em alguns casos, na verdade, supera as expectativas”. Na opinião do jornalista do Washington Post, Ezra Klein, o discurso era quase idêntico ao que ele poderia ter feito se o lançamento de um produto tivesse ocorrido sem problemas. Ele estava certo. Foi apenas outro discurso à glasnost.

Por fim, há a tendência atual de transformar os EUA em um monumento estilo glasnost ao seu líder. Mostro abaixo uma lista de instituições e locais já nomeados em homenagem ao presidente Obama:

California: President Barack Obama Parkway, Orlando; Obama Way, Seaside; Barack Obama Charter School, Compton; Barack Obama Global Preparation Academy, Los Angeles; Barack Obama Academy, Oakland.

Florida: Barack Obama Avenue, Opa-loka; Barack Obama Boulevard, West Park.

Maryland: Barack Obama Elementary School, Upper Marlboro.

Missouri: Barack Obama Elementary School, Pine Lawn.

Minnesota: Barack and Michelle Obama Service Learning Elementary, Saint Paul.

New Jersey: Barack Obama Academy, Plainfield; Barack Obama Green Charter High School, Plainfield.

New York: Barack Obama Elementary School, Hempstead.

Pennsylvania: Obama High School, Pittsburgh.

Texas: Barack Obama Male Leadership Academy, Dallas.

Não quero dizer que o presidente Obama seja um Putin ou Ceausescu. O presidente é certamente ele mesmo – bem educado, bem falante, carismático e agradável. Pertence a uma minoria, como eu também pertenço a outra minoria. Mas ele aparentemente caiu no canto da sereia socialista e da glasnost, como eu mesmo e milhões de outros como eu em todo o mundo também caímos naquela idade da vida.

Os Estados Unidos venceram a Guerra Fria porque Ronald Reagan foi eleito presidente bem depois de ter se purgado de uma passageira paixão socialista. Foi então capaz de identificar a glasnost de Gorbachev como a fraude política que realmente era, e assim conseguiu vencê-la. Vamos torcer para que o presidente Obama faça o mesmo.

Em novembro de 2014 enfrentaremos, na minha opinião, as mais importantes eleições da história americana. Aparentemente, os eleitores decidirão quais dos dois principais partidos políticos controlará o Congresso dos EUA. Na realidade, o eleitor decidirá entre manter o nosso país como o líder do mundo livre ou transformá-lo numa irrelevância glasnost.

O PJ Media está unindo forças com o WND (o editor de Disinformation) para ajudar os seus leitores a adquirir o conhecimento para falar franca e abertamente – os inimigos a serem derrotados são o socialismo e a glasnost.

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Fontes:
[ i ] Glasnost, Britannica Concise, as published on http://concise.britanica.com/ebc/article-9365668/glasnost.
[ ii ] http://dictionary.reference.com/browser/glasnost.
[ iii ] Tolkovyy SlovarRusskogo Yazyka (Explanatory Dictionary of the Russian Language), ed. D.N. Ushakov (Moscow: “Soviet Encyclopedia” State Institute, 1935), Vol. I, p. 570.
[ iv ] http://www.youtube.com/watch?v=oQNkVmdicvA
[ v ] James Joyner, “Obama Che Guevara Flag Scandal,” Outside the Beltway, February 12, 2008, as posted at http://www.outsidethebeltway.com/archives/2008/02/obama_che_guevara_flag_scandal/.
[ vi ] David S. Broder, “Obama’s Enigma,” The Washington Post, July 13, 2008, p. B7.
[ vii ] John Barron, KGB: The Secret Work of Soviet Secret Agents (New York: Reader’s Digest Books, 1974, reprinted by Bantam Books), p. 429.
[ viii ] Zhores Medvedev, Gorbachev. New York: Norton, 1987, p. 37.
[ ix ] Mikhail Gorbachev, Perestroika: New Thinking for Our Country and the World (New York: Harper & Row, 1987), passim.
[ x ] Peter Kinder, “Missourians Reject Obama
[ xi ] Jonathon M. Seidl, Obama Compares Himself Tom Reagan: Republicans Aren’t Accusing Him Of ‘Being Socialist’”, The Blaze, October 5, 2011.
[ xii ] Alexandra`Petri, Obama is up there with Lincoln, Roosevelt, and Johnson,” The Washington Post, December 12, 2011, PostOpinions.
[ xiiii ] David Nakamura, “Obama invokes Teddy Roosevelt in speech attacking GOP policies, The Washington Post, December 6, 2011.
[ xiv ] “How Many Speeches Did Obama Give,” newswine.com, July 16, 2010, as posted on http://joysteele.newswine.com/_news/2010/07/16/4691800-how-many-speeches-did-obama-give.
[ xv ] Thomas Lifson, “Obama’s troop withdrawal speech: when politics triumphs victory,” American Thinker, June 23, 2011.
[ xvi ] “Right-Wing Media Fixated On Obama’s “Shamless” Bin Laden Speech,” MEDIAMATTERS, May 3, 2011(http://mediamatters.org/research/201105030031).
[ xvii ] George Landrith, “The ‘it’s all about me’ president,” The Daily Caller, May 5, 2011, as posted on http://dailycaller.com/2011/05/03/the-its-all-about-me-president/
[ xviii ] http://wiki.answer.com/Q/How_many_speeches_did_Obama_give (as searched in January.)

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Outubro Vermelho, Outubro Azul

No dia 13 de outubro de 1917, em Fátima, Maria realizou o maior milagre de todos os tempos: a dança do sol, testemunhada por 70 mil pessoas, fantástico fenômeno astronômico com cerca de dez minutos de duração. O principal objetivo das aparições da Virgem foi avisar sobre o perigo russo.

“… virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração… Se atenderem ao meu pedido, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições: os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas…”

No mesmo mês, na Rússia, os revolucionários lançavam o ataque final contra a monarquia.

Nossa Senhora construiu um outubro azul, cor do céu de Fátima, cor do seu manto.

Lênin e os seus sequazes produziram um outubro vermelho, cor de sangue, sangue que corre até hoje.

No mês de aniversário do milagre de Fátima, é oportuno recordar os ensinamentos de Jean Daujat no clássico livro Que é o Comunismo.

O Comunismo segue uma filosofia (o Marxismo) que tem uma concepção totalitária do homem e do seu destino; é um guia de vida e de ação para a humanidade; é decorrente dos (difíceis e pouco lidos) escritos de Marx, Engels e Lênin, e deve ser analisado como sistema filosófico, e não como sistema político, econômico, social, intelectual ou religioso. É o fruto acabado do pensamento moderno – ou seja, é a oposição radical ao pensamento cristão tradicional. A Encíclica “Divini Redemptoris”, do Papa Pio XI, declarou o Comunismo “intrinsecamente perverso”.

A primeira convicção fundamental do pensamento tradicional é que a afirmação humana tem um sentido; sim e não (“sim, sim; não, não” – Mt, 5, 37) são palavras com um sentido, e não podem ser trocadas uma pela outra. Há uma verdade e um erro que não se confundem. A primeira das convicções fundamentais do pensamento comum será, então, a dependência da nossa inteligência perante a verdade ou a realidade a conhecer. A segunda é que existe bem e mal, e que é necessário procurar o bem e amá-lo. Mais uma vez, da convicção fundamental do pensamento comum surge uma afirmação de dependência: a dependência da nossa vontade em relação ao bem amado e desejado. A submissão ao objeto é a lei espontânea da consciência humana que o pensamento moderno se esforça por destruir e o Marxismo tenta derrubar totalmente. O fundamento do pensamento cristão é a afirmação da dependência radical do homem perante Deus.

Esta é a idéia a que se opôs gradualmente o pensamento moderno até chegar o Marxismo com a sua negação radical.

O pensamento moderno é dominado pelo Idealismo (Descartes, Kant, Fichte e Hegel), que supõe o espírito humano a viver exclusivamente das suas lucubrações, indiferente à realidade tal qual é. Na raiz de todo o pensamento moderno há um alarde de orgulho, uma recusa à submissão ao objeto. E a negação dum objeto de que dependa conduz fatalmente à ação pura (Pragmatismo): se não há verdade a contemplar, mas apenas construções do espírito, só resta atuar. No Idealismo absoluto (Hegel) não há realidades – a Idéia é tudo. A dialética hegeliana, com suas três fases: tese (aparecimento da ideia), antítese (a contradição) e síntese (ponto de partida duma evolução nova), prega que a idéia está em constante ação revolucionária (nega, contradiz, muda, torna a História perene revolução). Não há verdade estável hoje, ontem ou amanhã; há apenas a ação, que faz a História. Hegel é o fulcro de todos os totalitarismos.

A filosofia marxista, entretanto, se opõe ao Idealismo; as idéias simples são produto da evolução das forças materiais no cérebro humano, de modo que são as forças materiais o verdadeiro agente criador da História. A idéia – que foi tudo para Hegel – nada vale para Marx se não resultar dum cérebro condicionado pelas forças materiais: é o materialismo integral (materialismo histórico e dialético, onde ainda vale tese, síntese e antítese).

Para Marx, nenhuma verdade merece um sim ou um não que dê sentido à afirmação feita: afirmar ou negar integram-se na própria contradição. Sem verdade estável, a evolução justificará amanhã a negação do que hoje ficou dito. O princípio fundamental do Marxismo é a negação de que o absoluto exista. O homem, para Marx, não é mais do que a ação material que exerce. Logo, o homem existirá tanto mais e será tanto mais homem quanto mais poderosa ação exercer. Veja-se como o Marxismo se opõe neste ponto ao Cristianismo: este considera o homem criado por Deus e dotado por Deus duma natureza estável que lhe permite ser e conservar-se homem; o Marxismo supõe o homem criado por si mesmo, gerador da própria existência e em permanente modificação. Não há forma de negar mais completamente Deus do que esta negação de toda a existência que de Deus possa advir, para reconhecer unicamente uma ação transformadora. Para Marx, conhecer nada é, atuar é tudo: não existe um bem a amar, só existe uma ação (revolucionária) a prosseguir. O Marxismo é recusa definitiva de todo o amor como de toda a verdade.

No exercício da Ação Marxista, o Estado Comunista pode aceitar o que rejeitou antes, se for conveniente. Daí advém uma série de posições contraditórias determinadas pelas exigências imperativas da ação e que surpreenderão apenas os que desconheçam a dialética e a lógica interna do Marxismo. Propriedade, pátria, família e religião são manipulados conforme convier. A essência permanece na ação revolucionária destruidora, incluindo a luta de classes. (A quem acredita que o Comunismo acabou com a queda do Muro de Berlim, é oportuno lembrar a pergunta do Padre Paulo Ricardo “Se o Comunismo acabou, por que o Papa está pregando contra?”)

O autor encerra o livro propondo uma escolha: Comunismo ou Cristianismo. Das duas, uma: “orgulhosa embriaguez da ação revolucionária a dominar o mundo ou dádiva de cada um à cidade de Deus”. Não há possibilidade de convivência entre os dois pensamentos.

Santo Agostinho diria: dois amores criaram dois outubros. O amor a si, até o desprezo de Deus, criou o outubro vermelho. O amor a Deus, até o desprezo de si, criou o outubro azul.

– Eis aqui a Escrava do Senhor…

São Gregório Magno

Hoje é dia de São Gregório Magno, monge beneditino, Papa, Doutor da Igreja, escritor prolífico, filho de Santa Sílvia, o primeiro Papa vindo de um monastério, canonizado por aclamação popular logo após a morte, patrono dos estudantes, professores, músicos e cantores (é o responsável pela divulgação do canto gregoriano), compilador dos sete pecados capitais (soberba, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça), a partir da obra de Evágrio Pôntico. Atribuiu a si o título de Servo dos Servos de Deus, usado até hoje pelos Papas.

Nasceu em 540, em Roma, e faleceu em 604. A sua festa ocorre no dia da sua consagração como Papa.

“A compaixão deve ser demonstrada em primeiro lugar aos católicos e só depois aos inimigos da Igreja.” Esta frase do santo cai como uma luva às elites brasileiras, ávidas por bajular os poderosos comunistas do momento.

Pio XI escreveu “o comunismo é intrinsicamente perverso” na Carta Encíclica Divinis Redemptoris. Mas parece que os brasileiros não leram este documento, pois vemos o triste espetáculo de inúmeros líderes católicos abraçados a governantes esquerdistas. Cinicamente, fecham os olhos ao mal que estes socialistas fazem à Igreja e aos católicos, sob o argumento de que, sendo “amiguinhos” deste demônios, podem fazer alguma coisa de bom, e, sendo adversários, nada conseguirão. É o mesmo raciocínio de Caifás “é conveniente que um homem morra pelo povo”, o raciocínio da conveniência. As nossas lideranças substituíram a verdade pela conveniência.

Prestem atenção, falsos líderes católicos: não há acordo com comunistas, eles aceitarão a “amizade” de vocês enquanto for adequado para eles e, no fim, todos vocês terminarão de joelhos, subjugados, lamentando ter servido o demônio em vez de ter servido Cristo. Vocês são os famosos “inocentes úteis”, ou idiotas úteis, que faziam a alegria de Lênin. Vou repetir: não tem acordo com comunista, ou você é da turma ou será usado e, mais cedo ou mais tarde, descartado.

Com gente assim, não é à toa que o Brasil está parecendo um hospício. Oremos ao poderoso São Gregório Magno…

 

Brígida – esposa e mãe

Hoje é dia de Santa Brígida, padroeira da Suécia, copadroeira da Europa, mãe de 4 meninos e 4 meninas – uma delas santa – escritora, teóloga, fundadora de monastério e mística – ufa! Nasceu em 1303 e morreu em 23 de julho de 1373, em Roma. Ficou conhecida por sua atuação política, na qual era orientada diretamente por Deus, por meio de visões e sonhos.

A política, entendida como a interação entre as pessoas visando o bem comum, é uma obrigação inescapável não apenas para os santos, mas para todos nós. Mesmo os ostras, pessoas fechadas em si mesmas e refratárias a quaisquer preocupações sociais, têm uma atitude política – no caso, a indiferença, a pior de todas as posturas políticas. Temas de debate público, como o aborto, não lhe interessam. Mas quando o governo mete a mão no seu dinheiro… epa! Aqui não! – aí ele fica uma fera. Lênin pregava o domínio sobre as populações por meio do imposto de renda progressivo. Vai reclamar do que se não quer lutar?

Brígida tinha Deus orientando-a diretamente. E a nós, simples criaturas normais, quem vai nos orientar, esclarecer e ensinar? João Bosco fez esta mesma pergunta em uma visão que teve quando ainda era criança e estava preocupado com os seus amiguinhos de rua, desamparados e órfãos, candidatos certos à vida de crime. A aparição disse ao menino para educar aquelas crianças. João Bosco perguntou “Mas quem vai me ensinar, se eu mesmo não sei?” Vou lhe dar uma Mestra, e só então João Bosco percebeu, ao lado dele, uma Senhora de indescritível beleza.

Maria deve ser a nossa primeira orientadora. É a ela a quem devemos dar ouvidos, estudando as suas aparições, rezando o terço e pedindo ajuda. Mãe da Igreja, ela nos deu o Catecismo, doutrina segura para nos orientar em caso de dúvida. Quando, por exemplo, um vigarista disfarçado de padre da auto-proclamada teologia da libertação – que não é teologia, muito menos de libertação, bem ao contrário, da escravidão porque marxista – diz alguma besteira, o Catecismo está aí para ser consultado e nos ajudar.

Em segundo lugar, alguns nomes se destacam no Brasil. Nas ciências políticas, o filósofo Olavo de Carvalho; no jornalismo, o site Mídia Sem Máscara e Reinaldo Azevedo; na atuação pública, os combativos Padre Lódi da Cruz e o Padre Paulo Ricardo. Não estou dizendo que estes homens são infalíveis, nem santos, nem têm a autoridade da doutrina da Igreja em todos os seus atos. Estou citando-os como fontes a serem estudadas. Aliás, eles próprios são os primeiros a reconhecer isto.

E, evidentemente, os ensinamentos do Papa devem sempre ser ouvidos e estudados. Rezemos a Santa Brígida, especial devota de Maria – qual santo não o é? –  copadroeira da Europa com Santa Catarina de Sena e Edith Stein, para guiar as palavras do Santo Padre em sua visita ao nosso país.

Sábado, dia de Maria

Hoje é sábado, dia de Maria. É o dia da inauguração deste blog, a ela dedicado, a Nossa Senhora das Sete Alegrias. Ele veio lutar a guerra cultural, como Nossa Mãe, em Guararapes, veio combater pela Igreja e pelo Brasil.

Nossa Senhora das Sete Alegrias é uma devoção portuguesa surgida no século XVI. As Sete Alegrias, enunciadas por um franciscano, são: a Anunciação, a Saudação de Isabel, o Nascimento de Jesus, a Visita dos Reis Magos, o Reencontro com o Menino Perdido no Templo, a Primeira Aparição do Cristo Ressuscitado e a Coroação da Virgem no Céu.

Na primeira batalha de Guararapes, a Mãe de Deus lutou ao nosso lado para expulsar os holandeses. Ali surgiu a nação brasileira: índios, portugueses e negros unidos contra o invasor. Das alegrias da Virgem Santíssima nasceu o Brasil.

Hoje, como ontem, o nosso país está sob ataque – não só ele, mas todo o ocidente. De acordo com o filósofo Olavo de Carvalho, são três os poderes internacionais interessados na implantação de uma ditadura global: o bloco comunista russo-chinês (Maria avisou em Fátima: cuidado com a Rússia!), a Nova Ordem Mundial (ou Clube Bilderberg) e o islamisno radical. Têm, como objetivo, a destruição das soberanias nacionais e do cristianismo – mais precisamente, da Igreja Católica. (Não deixe de ler o artigo O Crescimento da Cristofobia de Ives Gandra da Silva Martins.)

Neste processo, uma das principais armas usadas é o marxismo cultural, ou seja, a implantação de uma ideologia de revolta – o ódio como motor da história: a luta de classes, o feminismo, o aborto, o divórcio, a eutanásia, a revolução levada a cabo pelos marginalizados, o sex lib, o enfraquecimento das nações por meio das drogas, a destruição da identidade nacional. Os meios de comunicação de massa, o sistema educacional e o show bizz estão impregnados desta mentalidade – há exceções, gente de bem se esforçando, e nós temos que ajudá-los.

A nossa primeira tarefa é estudar para saber o que está acontecendo. A realidade das coisas é muito difícil de apreender e, se não tivermos um bom conhecimento dela, vamos acabar trabalhando para o inimigo e seremos mais um “inocente útil”, de quem Lênin riria.

A missão deste blog é contribuir na compreensão do mundo que nos cerca. Só bem informados poderemos agir com consciência na luta pelos nossos ideiais. Peço, cara leitora, caro leitor, que me envie as suas sugestões, as suas dúvidas e, acima de tudo, reze pelo sucesso deste empreendimento. A batalha é dura, mas não desanime. Maria, mais uma vez, está ao nosso lado, como, outrora, nos montes Guararapes, lutando com vigor pela Igreja e pela nação brasileira.

“(…) por ter a gente ela própria já biologicamente tríbia do nordeste branca, ameríndia, negra demonstrado ser gente, além de vigorosa, consciente de sua pré-brasileiridade, pela maneira com que repeliu franceses e holandeses. Pelo modo por que escreveu a sangue, nas batalhas dos montes Guararapes, o endereço certo do Brasil: uma nação só e não duas ou três.” – Gilberto Freyre

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