Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

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Seô Habão

No romance Grande Sertão: Veredas, o principal protagonista é Riobaldo, raso jagunço atirador, que depois vira chefe. O bando dele passava pelas terras de Seô Habão, fazendeiro avarento. Riobaldo observa o homem e compara a luta dos jagunços com a vida mesquinha do fazendeiro, cuja cobiça reduzia toda a criação a coisas a seu serviço.

Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos!

A vida é feita de escolhas, disse Viktor Frankl. Entre o estímulo e a resposta há um intervalo; neste intervalo, reside a liberdade de escolher a resposta; na resposta, reside a nossa felicidade.

Ao responder à vida, seô Habão escolhera a cobiça, a avareza, a mesquinharia, o dinheiro a qualquer custo. Como consequência, colheu a frieza do olhar (ele conservava os olhos sem olhar, num vagar vago, circunspecto) e colheu a frieza da voz (e ouvir ele acrescentar assim, com a mesma voz, sem calor nenhum, deu em mim, de repente, foram umas nervosias). Habão reduzia as pessoas a animais, tratava os empregados como se fossem juntas de bois em canga, criaturas de toda proteção apartadas. Cada pessoa, cada bicho, cada coisa obedecia. Nós íamos virando enxadeiros. Tudo se encaixava nos seus tristes cuidados domésticos (E ele cumpria sua sina, de reduzir tudo a conteúdo).

(A expressão “triste cuidados domésticos” é uma frase de Saint-Exupéry, no livro Terra dos Homens, para definir o curto alcance de visão e a falta de ideais.)

Zeca Pagodinho resumiu bem a influência do dinheiro na vida das pessoas “Quando você tem mais poder de grana, a religião fica um pouco de lado. Quanto mais rico, mais descrente.”

Ou, como diz o meu amigo Zé, “quando você encontrar um rico feliz, me mostre, porque eu ainda não vi nenhum”.

Rumo à caduca felicidade deste mundo, Habão se afastava da felicidade eterna. Calculava, conservava e juntava. Certamente, pensava Oh, alma minha, come, bebe e regala-te pois tens bens juntados para muitos anos.

Mas Cristo lhe diz: Habão, seu bobão, quando você morrer, os bens que juntastes, para quem ficarão?

– Esta noite darás conta da tua alma.

 

Vôo Noturno

No dia 31 de julho de 1944, Antoine de Saint-Exupéry, piloto de guerra, embarcou no seu último vôo, em missão de reconhecimento. Instantes depois, o seu avião desapareceu nas águas do Mediterrâneo. O seu corpo jamais foi encontrado.

Foi poeta, escritor e aviador pioneiro do correio aéreo, na heróica época em que os aparelhos eram precários e tinham poucos instrumentos. Sobrevoou a Europa, a África, o Atlântico e os Andes, sempre com risco de vida. Uma vez teve uma pane no Saara e quase morreu. “O deserto… Um dia me aconteceu chegar ao coração do deserto. Durante um reide à Indochina, em 1935, eu me vi no Egito, nos confins da Líbia, preso às areias como a um visgo, e pensei que fosse morrer.” O piloto de O Pequeno Príncipe, perdido no deserto, é uma lembrança deste episódio.

Morou mais de 2 anos nos Estados Unidos, tempo em que lutou para convencer os americanos a entrar na guerra contra os nazistas. Lá, em 1943, publicou O Pequeno Príncipe, um dos mais importantes livros já escritos.

A sua capacidade de extrair verdades universais a partir de cenas corriqueiras é a sua melhor marca. Em Terra dos Homens, escreveu uma passagem antológica ao aterrisar na cidade de Punta Arenas, extremo sul do Chile, observando pessoas comuns em suas atividades do dia a dia.

“Aterrissei na doçura da tarde. Punta Arenas! Fico parado junto a uma fonte e olho as moças. Assim, tão perto da beleza dessas moças, sinto ainda melhor o mistério humano. Em um mundo em que a vida se une tanto à vida, em que as flores amam as flores no próprio leito dos ventos, em que o cisne conhece todos os cisnes, só os homens constroem a sua solidão.

“Entre um e outro homem o espírito reserva um estranho espaço. Um sonho de moça a distancia de mim. Como atingi-la? Que posso saber dessa moça que volta para casa a passos lentos, os olhos baixos, sorrindo para si mesma, cheia de descobertas e mentiras adoráveis? Com os pensamentos, a voz e os silêncios de seu amado ela construiu um Reino – e desde então, para ela, fora desse Reino todos são bárbaros. Mais do que se estivesse em outro planeta, ela está isolada de mim em seu segredo, em seus costumes, nos murmúrios encantados de sua memória. Nascida ontem dos vulcões, da relva, do sal dos mares, essa moça já é meio divina.

“Punta Arenas! Fico parado junto a uma fonte. Velhas chegam para apanhar água: de seus dramas nada conhecerei além desse trabalho de servas. Um menino, junto ao muro, chora em silêncio. Nada ficará dele em minha lembrança a não ser a imagem de um belo menino, inconsolável para sempre. Sou um estranho. Não sei nada. Não penetro em seus Reinos.”

No dia 31 de julho de 1944, em missão de reconhecimento, Saint-Exupéry desapareceu sem deixar traços.

Em 1998, o seu bracelete de prata foi encontrado na ilha Riou, sul de Marselha.

O Bom Humor de Cristo

Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, foi pioneiro da aviação heróica. Sobrevoou regiões inóspitas como os Andes e o Saara. A beleza do deserto, escreveu, em Terra dos Homens, não pode ser apreciada por pessoas superficiais. Da mesma forma, o bom humor de Cristo.

Lemos os Evangelhos com a mórbida ânsia de enxergar as dores de Nosso Senhor e os seus altos ensinamentos, mas nos esquecemos que o aprendizado ocorre nos momentos de paz e sossego. A Sua alegria era constante, mesmo em momentos de ira e medo, porque Ele contemplava constantemente a face do Pai – é a chamada visão beatífica. Como é que podia estar triste?

Na realidade, só houve um momento no qual perdeu a visão beatífica. Foi na cruz, nos estertores da agonia, quando Deus se escondeu dEle, retirando-Lhe este último consolo. Proferiu então “Meu Deus, por que Me abandonaste?” Não foi uma frase de revolta, bem ao contrário, foi uma frase dirigida a nós, para que soubéssemos que continuava na cruz por amor. Foi o Seu último ato de entrega por nós.

Os Evangelhos estão repletos de episódios divertidos e alegres. Certamente, Cristo se divertia e divertia os outros nas bodas de Canaã – não é significativo o primeiro milagre ter sido feito numa festa? -, ao brincar com as crianças – certamente, elas não se aproximariam de um sujeito mal encarado -, nos jantares para os quais era convidado, nas conversas ocasionais com desconhecidos. A Sua fina ironia é a maior demonstração da Sua alegria.

Na tarde do domingo da Ressurreição, quando se aproximou incógnito de Cléofas e seu amigo, no caminho de Emaús, perguntou-lhes “Sobre o que é que vocês conversavam?” E Cléofas respondeu-Lhe, surpreso, “Será que Você é a única pessoa que não sabe o que aconteceu com Jesus Nazareno?” E Cristo replicou “Não, não sei de nada, o que é que houve?”

Em outra ocasião, os inimigos armaram uma cilada com uma pergunta traiçoeira. Cristo disse “Vou responder, mas me respondam antes: o batismo de João era de Deus ou dos homens?” Se respondessem ‘dos homens’, ficariam mal com o povo; ‘de Deus’, então por que não lhe deram ouvidos? “Não sabemos” disseram. Cristo então lhes disse “Então também não sei, também não vou responder!”

Os Evangelhos estão repletos destes episódios mas a sua beleza não é para qualquer um. Certamente, não é para mal humorados nem para pessoas acostumadas ao humor escrachado. Não conseguiremos ver o bom humor nos outros se não formos nós mesmos bem humorados. O bom humor exige o desapego desta vida, a ponto de conseguirmos rir de nós mesmos. A Sua alegria é para quem tem a esperança posta em Deus e compreende que o Seu reino não é deste mundo, este mundo é um vale de lágrimas (como diz a Salve Rainha) e esta vida é embrejada (Guimarães Rosa).

No Evangelho deste domingo, Cristo dirá “Qual o pai cujo filho lhe pede um ovo e ele dá um escorpião?”

Eta pai brincalhão!

 

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