Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

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Pelas Mãos de Maria

São Bernardo de Claraval, Doutor da Igreja, nasceu em 1090 em Fontaine-lès-Dijon e faleceu em 20 de agosto de 1153, na Abadia de Claraval, França. Dentre tantas coisas que fez, destacam-se a elaboração da regra dos Templários e a criação da invocação “Oh clemente, Oh piedosa, Oh doce sempre, Virgem Maria”, da Salve Rainha.

Um fato curioso ilustra bem a sua personalidade: quando, aos 22 anos de idade, entrou para a Ordem de Cister, levou junto 30 amigos e parentes. Alguns anos depois, nomeado abade na recém-fundada Abadia de Claraval, atraiu tanta gente que novas casas foram construídas para evitar a superlotação.

Bernardo foi intelectual e contemplativo, mas não se encerrou em sua cela. Teve ativa participação na vida pública, foi conselheiro de reis e Papas, liderou uma cruzada, teve presença marcante em concílios e fundou dezenas de mosteiros.

Na Carta Encíclica Doctor Mellifluus, escrita em 1953, oitavo centenário da morte do santo, o Papa Pio XII destacou a sua importância histórica e os traços mais marcantes do seu caráter.

A encíclica dá destaque à devoção de Bernardo pela Mãe de Deus. Pio XII reproduz uma bela página de um dos seus escritos: “…Chama-se estrela do mar, e o nome é bem apropriado à Virgem Mãe. Ela na verdade é comparada muito justamente a uma estrela; porque assim como a estrela emite os seus raios, sem se corromper, assim também a Virgem dá à luz o seu Filho sem lesar a sua integridade. Os raios não diminuem a claridade à estrela, nem o Filho à Virgem a sua integridade. Ela é, portanto, aquela nobre estrela que nasceu de Jacó, cujos raios iluminam todo o universo, cujo esplendor brilha no céu e penetra no inferno… É ela, digo, a estrela preclara e exímia, erguida necessariamente sobre este grande e largo mar, que ilumina com os seus méritos e ilustra com seus exemplos. Oh! tu, quem quer que sejas, que te vês mais flutuar à mercê das ondas neste mundo em tempestade do que andar sobre a terra; não tires os olhos do fulgor dessa estrela, se não queres ser submergido pelas tempestades. Se se levantarem os ventos das tentações, se topares nos escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria. Se fores arremessado pelas ondas da soberba, da ambição, da murmuração e da inveja: olha para a estrela, invoca Maria. Se a ira, a avareza ou as atrações da carne sacudirem a barquinha da alma: olha para Maria. Se, perturbado pela enormidade do pecado, cheio de confusão pela fealdade da consciência, cheio de medo pelo horror do juízo, começares a ser devorado pelos abismos da tristeza e do desespero: pensa em Maria. Nos perigos, nas aflições, nas incertezas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste da tua boca nem do teu coração; e para obter o auxílio da sua oração, nunca deixes o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes perder; se a invocas, não podes desesperar; se pensas nela, não te podes enganar. Se ela te ampara, não cais; se te protege, não tens que temer; se te guia, não te cansas; se te é propícia, chegas ao fim…”

O santo, audaciosamente, também escreveu: “Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria”.

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O Bom Humor de Cristo

Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, foi pioneiro da aviação heróica. Sobrevoou regiões inóspitas como os Andes e o Saara. A beleza do deserto, escreveu, em Terra dos Homens, não pode ser apreciada por pessoas superficiais. Da mesma forma, o bom humor de Cristo.

Lemos os Evangelhos com a mórbida ânsia de enxergar as dores de Nosso Senhor e os seus altos ensinamentos, mas nos esquecemos que o aprendizado ocorre nos momentos de paz e sossego. A Sua alegria era constante, mesmo em momentos de ira e medo, porque Ele contemplava constantemente a face do Pai – é a chamada visão beatífica. Como é que podia estar triste?

Na realidade, só houve um momento no qual perdeu a visão beatífica. Foi na cruz, nos estertores da agonia, quando Deus se escondeu dEle, retirando-Lhe este último consolo. Proferiu então “Meu Deus, por que Me abandonaste?” Não foi uma frase de revolta, bem ao contrário, foi uma frase dirigida a nós, para que soubéssemos que continuava na cruz por amor. Foi o Seu último ato de entrega por nós.

Os Evangelhos estão repletos de episódios divertidos e alegres. Certamente, Cristo se divertia e divertia os outros nas bodas de Canaã – não é significativo o primeiro milagre ter sido feito numa festa? -, ao brincar com as crianças – certamente, elas não se aproximariam de um sujeito mal encarado -, nos jantares para os quais era convidado, nas conversas ocasionais com desconhecidos. A Sua fina ironia é a maior demonstração da Sua alegria.

Na tarde do domingo da Ressurreição, quando se aproximou incógnito de Cléofas e seu amigo, no caminho de Emaús, perguntou-lhes “Sobre o que é que vocês conversavam?” E Cléofas respondeu-Lhe, surpreso, “Será que Você é a única pessoa que não sabe o que aconteceu com Jesus Nazareno?” E Cristo replicou “Não, não sei de nada, o que é que houve?”

Em outra ocasião, os inimigos armaram uma cilada com uma pergunta traiçoeira. Cristo disse “Vou responder, mas me respondam antes: o batismo de João era de Deus ou dos homens?” Se respondessem ‘dos homens’, ficariam mal com o povo; ‘de Deus’, então por que não lhe deram ouvidos? “Não sabemos” disseram. Cristo então lhes disse “Então também não sei, também não vou responder!”

Os Evangelhos estão repletos destes episódios mas a sua beleza não é para qualquer um. Certamente, não é para mal humorados nem para pessoas acostumadas ao humor escrachado. Não conseguiremos ver o bom humor nos outros se não formos nós mesmos bem humorados. O bom humor exige o desapego desta vida, a ponto de conseguirmos rir de nós mesmos. A Sua alegria é para quem tem a esperança posta em Deus e compreende que o Seu reino não é deste mundo, este mundo é um vale de lágrimas (como diz a Salve Rainha) e esta vida é embrejada (Guimarães Rosa).

No Evangelho deste domingo, Cristo dirá “Qual o pai cujo filho lhe pede um ovo e ele dá um escorpião?”

Eta pai brincalhão!

 

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