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Diga “Não” à Terceira Guerra Mundial

“Durante os anos em que fui conselheiro de segurança nacional do presidente romeno Nicolae Ceausescu, conheci bem o pai do atual presidente sírio, Hafez al-Assad, e também o irmão dele, Rifaat, que estava na folha de pagamento de Ceausescu. Eram, ambos, assassinos cruéis.”

“Após eu ter obtido asilo político nos Estados Unidos, o velho Assad ordenou, secretamente, que eu fôsse assassinado.”

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O artigo abaixo foi publicado no World Net Daily em 10 de setembro de 2013. O autor é o general Ion Mihai Pacepa, oficial de mais alta patente do bloco comunista que obteve asilo político nos Estados Unidos. O seu novo livro, Disinformation, em cooautoria com o professor Ronald Rychlak, foi publicado pelo WND Books em junho de 2013.

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ATAQUE À SÍRIA

Diga “Não” à Terceira Guerra Mundial

Exclusivo: o general Ion Mihai Pacepa vê o plano de Obama como uma manobra para tirar a atenção da “ameaça real”

Do meu ponto de vista privilegiado, acredito que o atual alarido da Casa Branca sobre o bombardeio na Síria é uma operação de desinformação cuidadosamente preparada com o objetivo de tirar a atenção da incapacidade – ou da má vontade – da administração de combater o terrorismo islamofacista e sanar as finanças públicas dos Estados Unidos.

Na quarta-feira, 11 de setembro de 2013, os Estados Unidos chorarão não apenas os ataques de 2001 da al-Qaida em solo americano mas também o bárbaro assassinato do nosso embaixador na Líbia – um ato de guerra de acordo com a lei internacional – cometido um ano atrás em Benghazi por terroristas islamofacistas identificados (mas, por misterioras razões, ainda livres).

Alguns dias mais tarde, o Congresso começará a discutir o pedido da administração para aumentar o já desastroso débito nacional do país, que, no momento em que escrevo, atingiu o extraordinário valor de US$15.962.835.542.312, de longe o mais alto na história americana.

Juvenal, poeta satírico da Roma antiga, usou a expressão panem et circenses (“pão e circo”) para descrever tais manobras diversionistas. Para saciar a ralé empobrecida, os imperadores romanos orquestravam estravagâncias como distração, oferecendo inúmeras diversões grátis: boa comida, banhos públicos, gladiadores bonitões, animais exóticos, corridas da carruagens, competições esportivas, apresentações teatrais e o slogan Ave Caesar, Imperator.

Hoje, temos desinformação e guerras. Hoje, a nossa administração está tentando levar a opinião pública americana a acreditar que algumas bombas lançadas na Síria ajudarão, de alguma forma, a levar a paz ao sempre problemático Oriente Médio.

Há poucas pessoas na terra mais ansiosas do que eu para ver a brutal dinastia Assad tirada do poder na Síria. Durante os anos em que fui conselheiro de segurança nacional do presidente romeno Nicolae Ceausescu, conheci bem o pai do atual presidente sírio, Hafez al-Assad, e também o irmão dele, Rifaat, que estava na folha de pagamento de Ceausescu. Eram, ambos, assassinos cruéis.

Após eu ter obtido asilo político nos Estados Unidos, o velho Assad ordenou, secretamente, que eu fôsse assassinado. (Após o meu primeiro livro, “Red Horizons”, ter revelado que Rifaat Assad era um agente pago do DIE, o serviço de inteligência externa romeno, o FBI me deu uma fotografia de um agente de inteligência da Síria com o aviso de que ele havia sido enviado para os Estados Unidos para me identificar e “neutralizar”.) Mas isso é problema meu – assim como a mal calculada “Red Line” de Obama é problema dele – e não deve ter nada a ver com o meu ponto de vista sobre qual deve ser a política dos Estados Unidos em relação à Síria.

A Síria não atacou os Estados Unidos e não temos nenhum aliado envolvido na atual briga síria – nem temos dinheiro para desperdiçar nesta briga, a menos que peçamos emprestado da China. Bashar al-Assad é mesmo um tirano, mas ele já era um tirano quando o presidente Obama restabeleceu relações diplomáticas com o seu governo, mesmo com 137 nações tendo votado na Assembléia Geral das Nações Unidas pela condenação daquele tirânico regime. Assad já era um tirano em 27 de março de 2011 quando a Secretária de Estado americana Hillary Clinton disse ao mundo “Há um líder diferente na Síria hoje. Muitos membros do Congresso, de ambos os partidos, que foram à Síria recentemente disseram acreditar que ele é um reformador”. John Kerry, sucessor de Hillary, evidentemente compartilhava o ponto de vista dela sobre Bashar Assad quando bebia e jantava com ele – conforme visto em fotografias amplamente divulgadas.

Agora, de repente, Bashar se tornou o pior dos demônios. Um ataque precipitado à Síria, com ou sem a aprovação do Congresso, pode transformar aquele país em um caos pior do que já é, e levá-lo a uma situação semelhante à ocasionada pelo nosso bombardeio na Líbia. Esta nova catástrofe pode gerar uma cadeia de desastres similar à impensada e precipitada reação militar ao assassinato do arqueduque da Áustria, Franz Ferdinand, em 1914, que levou a uma sucessão de calamidades incluindo a Primeira Guerra Mundial, a revolução soviética, a tomada do poder pelos nazistas na Alemanha, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria.

O novo eixo anti-americano Moscou-Teerã-Pequim já prometeu retaliar duramente se bombardearmos a Síria. De acordo com o antigo diretor da Central de Inteligência James Woolsey, até mesmo o ridículo governo da Coréia do Norte poderia detonar uma arma nuclear em território americano causando o colapso da nossa rede elétrica e da infraestrutura dela dependente – comunicações, transportes, serviços bancários e financeiros, comida e água necessários para manter a vida de 300 milhões de americanos. Todo o país ficaria no escuro em questão de minutos – e o resto do mundo poderia seguir o mesmo caminho. Outro estudo documentado estima que, em meados de 2014, o governo terrorista do Irã será capaz de enriquecer urânio para uso bélico tão rapidamente que os Estados Unidos não conseguirá pará-lo militarmente. O nosso estilo de vida seria alterado para sempre.

Os Estados Unidos têm lutado contra diversas entidades islâmicas nos últimos 12 anos. É hora de paz, não de guerra. Na minha outra vida, no topo do serviço de inteligência externa do bloco soviético, o meu DIE operava imensas redes de inteligência em vários países árabes, e eu tive a oportunidade de conhecer aquela parte do mundo muito bem. Aquele povo não odeia os Estados Unidos. Os milhões de árabes ao redor de todo o mundo que estão agora esperando na fila para serem aceitos nos Estados Unidos também não o odeiam. Eles adorariam se mudar para cá. São só alguns poucos líderes islamofacistas fanáticos que odeiam o nosso maravilhoso país de liberdade e sonham vê-lo destruído.

Devemos deixar os islamofacistas a cargo do serviço de inteligência americano e nos concentrar na administração e no Congresso americanos para podermos construir uma “Campanha da Verdade” similar à edificada pelo presidente Truman para ganhar a Guerra Fria.

“Os desafios que enfrentamos são graves,” disse Truman em 1950 “envolvendo a sobrevivência ou a destruição não apenas desta República mas da própria civilização”. Truman argumentou que a propaganda usada pelas “forças do comunismo imperialista” só poderia ser vencida pela “verdade nua e crua”. A Voice of America, a Radio Free Europe e a Radio Liberation (logo renomeada Radio Liberty) fizeram parte da “Campanha da Verdade” de Truman.

Se você ainda se espanta pelo fato dos Estados Unidos terem sido capazes de vencer a Guerra Fria sem dar um único tiro, eis uma explicação do segundo presidente da Romênia pós-comunista, Emil Constantinescu:

“A Radio Free Europe foi muito mais importante do que os exércitos e os mais sofisticados mísseis. Os “mísseis” que destruíram o comunismo foram lançados da Radio Free Europe, e este foi o mais importante investimento de Washington durante a Guerra Fria. Eu não sei se os próprios americanos percebem isto hoje, sete anos após a queda do comunismo, mas nós o entendemos perfeitamente bem.”

A metáfora do presidente Constantinescu não foi um exagero. A longo prazo, a verdade é infinitamente mais poderosa do que a desinformação.

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O Nascimento do Terrorismo

“Como me disse o chefe da KGB, Yury Andropov, um bilhão de inimigos podia infligir um dano maior aos Estados Unidos do que apenas alguns milhões. Precisávamos instilar um ódio estilo nazista contra os judeus em todo o mundo islâmico, e fazer esta arma emocional gerar um banho de sangue terrorista contra Israel e o seu principal parceiro, os Estados Unidos.”

Este artigo foi publicado no National Review em 24 de agosto de 2006. O autor, Ion Mihai Pacepa, é o oficial de mais alta patente que desertou do bloco comunista.

Pegadas Russas

O que Moscou tem a ver com a recente guerra no Líbano?

O principal vencedor na guerra do Líbano talvez seja o Kremlin. Israel tem sido atacado com Kalashinikovs e Katyushas russos, foguetes Fajr-1 e Fajr-3 russos, mísseis antitanques AT-5 Spandrel russos e foguetes antitanques Kornet russos. As obsoletas armas russas são o objeto de desejo de terroristas em todo o mundo, e os bad guys sabem exatamente onde obtê-las. Nas caixas das armas abandonadas pelo Hezbollah estava escrito: “Cliente: Ministério da Defesa da Síria. Fornecedor: KBP, Tula, Rússia”.

O terrorismo internacional atual foi concebido em Lubyanka, quartel general da KGB, no rastro da Guerra de Seis Dias, de 1967, no Oriente Médio. Eu testemunhei o seu nascimento na minha outra vida, como general comunista. Israel humilhou Egito e Síria, cujos belicosos governos eram dirigidos por conselheiros soviéticos da razvedka (“inteligência externa” em russo), e, a partir daí, o Kremlin decidiu armar os vizinhos inimigos de Israel, os palestinos, e persuadi-los a entrar numa guerra de terrrorismo contra aquele país.

O general Aleksandr Sakharovsky, criador da estrutura de inteligência da Romênia comunista, depois elevado a chefe de toda a inteligência externa da Rússia soviética, uma vez me instruiu: “No mundo atual, as armas nucleares tornaram obsoleta a força militar, e por isso o terrorismo deve se tornar a nossa principal arma”.

Entre 1968 e 1978, ano em que rompi com o comunismo, as forças de segurança da Romênia, sozinhas, haviam enviado semanalmente dois aviões de carga repletos de bens militares para os terroristas palestinos no Líbano. Desde a queda do comunismo, os arquivos da alemã-oriental Stasi revelaram que, só em 1983, o seu serviço de inteligência externo remeteu o correspondente a US$ 1.877.600 em munição de AK-47 para o Líbano. De acordo com Vaclav Havel, a Techoslováquia comunista entregou mil toneladas do explosivo inodoro Semtex-H (indetectáveis por cães farejadores) para terroristas islâmicos – o suficiente para 150 anos de ação.

A guerra terrorista foi iniciada no fim de 1968, quando a KGB transformou o sequestro de aviões – a arma escolhida para o 11 de setembro – em instrumento de terror. Apenas em 1969, houve 82 sequestros ao redor do mundo, feitos pela OLP financiada pela KGB. Em 1971, quando eu estava visitando Sakharovsky no seu escritório em Lubyanka, ele chamou a minha atenção para um mar de bandeiras vermelhas fincadas num mapa mundi pendurado na parede. Cada bandeira representava um avião capturado. “O sequestro de aviões foi invenção minha”, declarou.

O “sucesso” político decorrente do sequestro de aviões israelenses impeliu o 13° Departamento da KGB, conhecido no nosso jargão de inteligência como “Department for Wet Affairs” (wet era um eufemismo para sangrento), a partir para a realização de “execuções públicas” de judeus em aeroportos, estações de trem e outros lugares públicos. Em 1969, o dr. George Habash, marionete russa, explicou: “Matar um judeu longe do campo de batalha é melhor do que matar cem judeus no campo de batalha, pois atrai mais atenção”.

No fim dos anos 1960, a KGB estava profundamente envolvida em terrorismo em massa contra judeus, levado a cabo por diversas organizações palestinas. Eis algumas ações terroristas pelas quais a KGB levou o crédito enquanto eu ainda estava na Romênia: novembro de 1969: ataque armado contra o escritório El Al em Atenas, com 1 morto e 14 feridos; 30 de maio de 1972: ataque no Aeroporto Ben Gurion, com 22 mortos e 76 feridos; dezembro de 1974: atentado a bomba no cinema de Tel Aviv, com 2 mortos e 66 feridos; março de 1975: ataque a um hotel em Tel Aviv, com 25 mortos e 6 feridos; maio de 1975: atentado a bomba em Jerusalém, com 1 morto e 3 feridos; 4 de julho de 1975: atentado a bomba no Zion Square, Jerusalém, com 15 mortos e 62 feridos; abril de 1978, ataque ao aeroporto de Bruxelas, com 12 feridos; maio de 1978, ataque no avião El Al em Paris, com 12 feridos.

Em 1971, a KGB lançou a operação Tayfun (tufão, em russo), destinada a desestabilizar a Europa Ocidental. O Baader-Meinhof, a Red Army Faction (RAF) e outras organizações financiadas pela KGB lançaram uma onda de terrorismo anti-americano que chocou a Europa Ocidental. Richard Welsh, o chefe do posto da CIA em Atenas, foi morto a tiros na Grécia em 23 de dezembro de 1975. O general Alexander Haig, comandante da OTAN em Bruxelas, foi ferido num atentado a bomba que estraçalhou o seu Mercedes blindado em junho de 1979. O general Frederick J. Kroesen, comandante das forças americanas na Europa, escapou da morte por pouco em um ataque a foguete em setembro de 1981. Alfred Herrhausen, o presidente pró-americano do Deutsche Bank, foi morto durante um ataque a granada em novembro de 1989. Hans Neusel, secretário de estado pró-americano do ministério do interior da Alemanha Ocidental foi ferido durante uma tentativa de assassinato em julho de 1990.

Em 1972, o Krenlim decidiu jogar todo o mundo islâmico contra Israel e contra os EUA. Como me disse o chefe da KGB, Yury Andropov, um bilhão de inimigos podia infligir um dano maior aos Estados Unidos do que apenas alguns milhões. Precisávamos instilar um ódio estilo nazista contra os judeus em todo o mundo islâmico, e fazer esta arma emocional gerar um banho de sangue terrorista contra Israel e o seu principal parceiro, os Estados Unidos. Ninguém dentro da esfera de influência americana/sionista podia mais se sentir seguro.

De acordo com Andropov, o mundo islâmico era uma placa de Petri esperando ser cultivada, na qual poderíamos criar uma virulenta cultura de ódio anti-americano a partir da bactéria do pensamento marxista-lenista. O anti-semitismo islâmico lançou raízes profundas. Os muçulmanos têm uma queda pelo nacionalismo, pelo jacobinismo e pela vitimologia. As suas iletradas e oprimidas multidões podiam ser insufladas até um estado de agitação extrema.

O terrorismo e a violência contra Israel e o seu amo, o sionismo americano, fluiria naturalmente a partir do fervor religioso muçulmano, apregoou Andropov. Bastava apenas continuar repetindo os nossos lemas – os Estados Unidos e Israel eram “países fascistas e imperalistas-sionistas” financiados pelos judeus ricos. O Islã estava obcecado em evitar a ocupação do seu território pelos infiéis, e seria altamente receptivo à nossa caracterização do Congresso dos Estados Unidos como uma voraz instituição sionista desejosa de converter o mundo todo em um feudo judeu.

O codinome desta operação foi “SIG” (Sionistskiye Gosudarstva, ou “Governos Sionistas”), e estava dentro da “esfera de influência” do meu serviço romeno, pois englobava a Líbia, o Líbano e a Síria. SIG era uma operação envolvendo muitos países e parceiros. Criamos joint ventures para construir hospitais, casas e estradas nestes países, e para lá enviamos milhares de médicos, engenheiros, técnicos, professores e até instrutores de dança. Todos tinham como tarefa retratar os Estados Unidos como um feudo judeu arrogante e orgulhoso financiado pelo dinheiro judeu e governado por políticos judeus, cujo objetivo era subjugar o todo mundo islâmico.

Em meados dos anos 1970, a KGB ordenou ao meu serviço, o DIE – juntamente com outros serviços irmãos da Europa Oriental – que percorresse o país procurando confiáveis ativistas, parceiros pertencentes aos vários grupos étnicos islâmicos, para que fossem treinados em operações de desinformação e terrorismo e infiltrados nos países da nossa “esfera de influência”. A sua tarefa seria exportar um ódio radical e insensato contra o sionismo americano manipulando a ancestral aversão aos judeus sentida pelo povo naquela parte do mundo. Antes que eu deixasse a Romênia para sempre, em 1978, o meu DIE havia despachado cerca de 500 destes agentes disfarçados para os países islâmicos. De acordo com uma estimativa grosseira recebida de Moscou,  até 1978 o serviço de inteligência do bloco soviético, como um todo, havia enviado cerca de 4 mil destes agentes de influência para o mundo islâmico.

Em meados da década de 1970, também começamos a despejar no mundo islâmico uma tradução árabe dos Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação da Rússia czarista que havia sido usada por Hitler como fundamento para a sua filosofia anti-semita. Também disseminamos um “documento” fabricado pela KGB em árabe, segundo o qual Israel e o seu principal apoiador, os Estados Unidos, eram países sionistas dedicados a converter todo o mundo islâmico em uma colônia judaica.

Nós, do bloco soviético, tentamos conquistar mentes, pois sabíamos que não podíamos vencer as batalhas militares. É difícil dizer quais são exatamente os efeitos remanescentes da operação SIG. Mas o efeito cumulativo da disseminação de centenas de milhares de Protocolos no mundo islâmico e da retratação de Israel e Estados Unidos como inimigos mortais do Islã certamente não foi construtivo.

A Rússia pós-soviética foi transformada de maneira sem precedentes, mas a crença amplamente popular de que o nefasto legado soviético foi cortado pela raiz com o fim da Guerra Fria, como o nazismo foi eliminado no fim da Segunda Guerra Mundial, não é correta.

Na década de 1950, quando eu era o chefe do posto de inteligência externa romeno na Alemanha Oriental, testemunhei como o Terceiro Reich de Hitler foi demolido, os seus criminosos de guerra levados a julgamento, as suas forças militares e policiais desmanteladas e os nazistas varridos da vida pública. Nada disso aconteceu com a antiga União Soviética. Nenhuma pessoa foi julgada, apesar do regime comunista soviético ter matado mais de cem milhões de pessoas. A maior parte das instituições soviéticas foram deixadas em paz, simplesmente trocaram de nome, e agora muitas são dirigidas pelas mesmas pessoas que governaram o estado comunista. No ano 2000, os antigos oficiais da KGB e do Exército Vermelho soviético assumiram o controle do Kremlin e do governo da Rússia.

A Alemanha jamais teria se tornado uma democracia com os oficiais da Gestado e da SS no comando.

No dia 11 de setembro de 2001, o presidente Vladimir Putin foi o primeiro líder de um país estrangeiro a expressar condolências ao presidente George W. Bush pelo que chamou de “terríveis tragédias dos ataques terroristas”. Logo em seguida, entretanto, Putin começou a mover o seu país de volta para os negócios com terroristas. Em março de 2002, ele discretamente retomou as vendas de armas para o ditador terrorista do Irã, aiatolá Khamenei, e envolveu a Rússia na construção de um reator nuclear de mil megawatts em Bushehr, incluindo uma instalação de conversão de urânio capaz de produzir material físsil para armas nucleares. Centenas de técnicos russos também começaram a ajudar o governo do Irã a desenvolver o míssil Shahab-4, com alcance superior a 2 mil quilômetros e capacidade para transportar uma ogiva nuclear ou armas químicas a qualquer ponto do Oriente Médio e da Europa.

O presidente atual do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, já anunciou que nada poderá impedir o seu país de construir armas nucleares, e chamou Israel de “vergonhosa mancha no mundo islâmico”, que devia ser eliminada. Durante a Segunda Guerra Mundial, 405.399 americanos morreram para erradicar o nazismo e o terrorismo anti-semita. Agora, estamos enfrentando o facismo islâmico e o terrorismo nuclear anti-semita. As Nações Unidas não podem oferecer nenhuma esperança. Até hoje não foram capazes sequer de definir a palavra “terrorismo”.

Segundo um ditado, um tiro leva a outro. O Kremlin pode ser a nossa melhor esperança. Em maio de 2002, os ministros da OTAN aprovaram uma parceria com a Rússia, antigo inimiga da aliança. O mundo inteiro disse que a Guerra Fria estava encerrada. Kaput. Agora, a Rússia quer ser admitida na Organização Mundial do Comércio. Para isto acontecer, o Kremlin deve ser firmemente advertido para, antes, abandonar o terrorismo.

Também devemos ajudar os russos a perceber que é do seu máximo interesse desestimular o presidente Ahmadinejad a obter armas nucleares. Ele é um tirano imprevisível que, de um momento para o outro, pode considerar a Rússia também um inimigo. “Se o Irã conseguir armas de destruição em massa, transportáveis por mísseis, vai se tornar um problema” declarou corretamente o presidente Bush. “Vai se tornar um problema para todos, inclusive para a Rússia”.

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O triste fim dos aduladores

“Durante os meus anos no topo do serviço de inteligência do bloco soviético, infelizmente conheci muito bem diversos tiranos, e é fato que eles desprezam quem se curva diante deles.” – Ion Mihai Pacepa

O artigo abaixo foi publicado no PJ Media em 22 de setembro de 2012 e foi escrito pelo general romeno Ion Mihai Pacepa, oficial de mais alta patente que desertou do bloco soviético.

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Quando você se curva a um tirano, ele odeia você mais ainda

Segundo o Departamento de Estado, o assassinato do embaixador Christopher Stevens e dos três oficiais americanos encarregados de defendê-lo foi uma reação impulsiva, repentina e não planejada a um filme de baixo orçamento chamado “A Inocência dos Muçulmanos”. Isso não passa de uma canção de ninar de conto de fadas para fazer dormir a indignação americana. A única reação a esta fantasia parece ter sido entre os líderes terroristas muçulmanos, que a entenderam como uma ordem para atacar impunemente as nossas embaixadas em todo o mundo. A embaixada americana no Paquistão está agora sob cerco. Milhares de outros muçulmanos “furiosos” estão gritando “Morte à América” e queimando bandeiras americanas na frente das nossas embaixadas no Egito, Indonésia, Sudão, Kwait, Afeganistão, Tunísia, Iêmen, Alemanha e Grã-Bretanha, para citar só algumas.

Durante os meus anos no topo do serviço de inteligência do bloco soviético, infelizmente conheci muito bem diversos tiranos, e é fato que eles desprezam quem se curva diante deles. Em abril de 1978, o presidente Jimmy Carter aclamou Nicolae Ceausescu, o désposta comunista romeno, como um “grande líder nacional e internacional”. Eu estava de pé ao lado dos dois na Casa Branca, e mal podia acreditar no que ouvia. Horas depois, estava no carro com Ceausescu, saindo da Casa Branca. Ele pegou uma garrafa com álcool e o passou por todo o rosto, em reação a ter sido afetuosamente beijado pelo presidente americano no Salão Oval. Com nojo, Ceausescu disparou uma ofensa contra Carter.

Três meses mais tarde, o presidente Carter assinou o meu pedido de asilo político, e eu disse a ele quem realmente era Ceausescu, e como havia reagido àquele beijo na Casa Branca. Entretanto, na memorável data de 19 de julho de 1979, vi pela TV, incrédulo, o presidente Carter repetir o gesto. Ele beijou carinhosamente Leonid Brezhnev nas duas faces durante o primeiro encontro deles, em Viena.

Também é fato que Brezhnev desprezava as pessoas que se curvavam a ele. Cinco meses após o infame beijo Carter-Brezhnev, uma equipe terrorista da KGB assassinou Hafizullah Amin, primeiro-ministro do Afeganistão, educado nos Estados Unidos, e o substituiu por uma marionete russa. Em seguida, a União Soviética invadiu o Afeganistão, e o presidente Carter protestou timidamente boicotando os Jogos Olímpicos em Moscou. Este novo sinal da fraqueza americana incentivou o regime Taliban e o terrorismo de Osama bin Laden.

Na década de 1990, o governo americano praticamente ignorou o primeiro assalto de bin Laden ao World Trade Center, os atentados a bomba contra as embaixadas americanas na África e o ataque ao destroyer USS Cole. No mesmo período, confiamos as nossas tarefas de segurança nacional e de política externa às mãos das Nações Unidas – cuja resposta veio no dia 3 de maio de 2001, quando a ONU expulsou os Estados Unidos da Comissão de Direitos Humanos.

Mal havíamos colocado os pés no século XXI quando os terroristas de bin Laden desencadearam uma implacável guerra contra o nosso país, com os catastróficos ataques terroristas de 11 de setembro. Logo depois, a Coréia do Norte retirou-se do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, expulsou os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica e deu início a uma venenosa campanha anti-americana. “Vamos exterminar os nossos inimigos declarados, os imperialistas americanos!” é o slogan coreano estampado nos habitáculos dos jatos, nas cabines dos marinheiros e nos postos de sentinela do exército.

Quando Ronald Reagan se tornou presidente, os Estados Unidos estavam sendo tratados com desprezo pelos tiranos mais insignificantes ao redor do mundo. A União Soviética marchava em Angola, Vietnã, Cuba, Etiópia, Síria, El Salvador, Nicarágua, Peru e, é claro, no Afeganistão. O presidente Reagan reverteu esta situação chamando os tiranos e as suas tiranias pelos seus verdadeiros nomes, e os tratando como tal. Você se lembra do “Império do Mal”? Segundo a agência de notícias soviética TASS, estas palavras demonstravam que Reagan era um “anti-comunista lunático e belicoso”. Mas foi precisamente este “anti-comunista lunático” o vencedor da Guerra Fria de 44 anos e foi ele quem restabeleceu a grandeza aos Estados Unidos.

Infelizmente, em 1993, tivemos outro presidente sem personalidade, que retomou a política de Carter de se curvar ante os déspotas comunistas. Em 22 de abril de 2000, durante a Semana Santa, entre a Sexta-feira da Paixão e o Domingo de Páscoa, agentes do presidente Bill Clinton prenderam e mandaram de volta para a Cuba comunista um menino de seis anos, que havia sobrevivido miraculosamente a um naufrágio no qual morrera a sua mãe; ela estava tentando livrar o filho único da tirania de Fidel Castro.

Para Fidel, o esperto e fotogênico Elián González era um “traidor” que podia se tornar um símbolo de liberdade tanto para os exilados de Miami quanto para o povo de Havana, e prejudicar a imagem de Castro no país e no exterior. Assim, tão logo Elián foi encontrado vagando pelo oceano em uma bóia, Fidel Castro reuniu 300 mil cubanos nas ruas de Havana para protestar contra o “sequestro” de Elián pelos Estados Unidos. Fidel tentou, então, atrair Elián de volta – como Ceausescu havia tentado me atrair quando escapei da Romênia. As duas avós de Elián foram despachadas para os Estados Unidos levando álbuns com fotos dos parentes do menino, de colegas de escola, casa, cachorro, papagaio e da carteira escolar vazia “aguardando o seu retorno”. Cuba deu às avós roupas novas e pagou as despesas da viagem. Elas estavam, é claro, acompanhadas por agentes cubanos coordenando cada um dos seus movimentos nos Estados Unidos.

Elián, por si, não caiu nos truques de Castro. Infelizmente, o presidente Clinton e a sua procuradora geral, Janet Reno, engoliram a isca, e o menino voltou para Cuba. Logo em seguida, o Pravda começou a exultar: “como o rompimento de um grande dique, a queda americana na direção do marxismo está acontecendo com velocidade de tirar o fôlego, contra o pano de fundo dos passivos e infelizes não-pensantes – desculpe-me, caro leitor –, quero dizer: do povo.” [2]

Elián González tornou-se um símbolo internacional de liberdade. Hoje, a casa em Miami onde ele viveu como uma criança livre é um museu simples, no qual os visitantes podem ver um relicário popular para o menino – agora, um prisioneiro de 19 anos de idade numa ilha comunista de mortos de fome. O uniforme escolar de Elián ainda está pendurado no armário ao lado de muitas roupas que ele nunca teve a chance de usar. Também está em exposição uma foto gigante da Associated Press mostrando um agente federal americano apontando uma arma automática para Elián, escondido num guarda-roupas. [3]

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De acordo com as leis internacionais, as nossas embaixadas são parte do território dos EUA, e um ataque armado contra uma embaixada americana é considerado um ato de guerra contra os Estados Unidos. Até o momento, tudo indica que o ataque armado contra o nosso consulado em Benghazi foi planejado e executado por terroristas. Se isto for comprovado, o assassinato do embaixador Christopher Stevens foi, realmente, um ato de guerra contra os Estados Unidos.

Um sentinela da segurança líbia no consulado, ferido gravemente no assim chamado ataque “espontâneo”, testemunhou que “não havia uma única mosca do lado de fora” até 9:35 da noite, quando pelo menos 125 homens armados atacaram o complexo vindos de todas as direções. Lançaram granadas de mão enquanto gritavam “Deus é grande”.  Feriram o sentinela, e em seguida foram para as vilas que fazem parte do complexo do consulado.

Por sua vez, o presidente interino da Líbia, Mohamed el-Megarif, disse que os terroristas escolheram uma “data específica” para o ataque, e que “estrangeiros” participaram dele.

O nosso embaixador na Líbia foi assassinado no dia 11 de setembro de 2012, dia de luto nos Estados Unidos pela morte de quase três mil americanos, também vítimas de terroristas islâmicos. Acontece que este dia é, na verdade, a celebração de um aniversário importante para o Kremlin – 125 anos do nascimento de Feliks Dzerzhinsky, o fundador da KGB, agora renomeada FSB.

Esteve o Kremlin envolvido no assassinato do nosso embaixador na Líbia? Ainda não sabemos. Mas sabemos que o embaixador foi morto com armas e munição russas. Também sabemos da propensão do Kremlin e de suas agências de inteligência pelo uso do simbolismo, uma arma emocional habilmente manejada por todos os czares russos e pelos seus sucessores comunistas.

O emblema da União Soviética era formado pela foice e pelo martelo para simbolizar a aliança entre o proletariado e os camponeses. O emblema da KGB era uma espada e um escudo, simbolizando os seus deveres: colocar os inimigos do país sob a espada e abrigar e proteger a revolução comunista. A maior parte das organizações terroristas financiadas pela KGB eram chamadas de movimentos de “libertação” para simbolizar o compromisso do Kremlin de libertar o resto do mundo da “tirania americana”. A Organização para Libertação da Palestina no Oriente Médio (criada e financiada pela KGB), o Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), criado pela KGB com a ajuda de Fidel Castro (que depois se envolveu profundamente em sequestro de pessoas e aviões, atentados a bomba e guerrilha), e o Exército de Libertação Nacional da Bolívia, criado pela KGB em 1964 com a ajuda de Ernesto “Che” Guevara, são apenas alguns deles.

Acima de tudo, é fato que o chefe da KGB, Yury Andropov, e os seus vice-reis do leste europeu, abriram uma garrafa de champagne para comemorar a explosão da bomba terrorista na Zion Square em Jerusalém no dia 4 de julho de 1975, que deixou 15 mortos e 64 feridos. Foi um insulto direto aos Estados Unidos, cuja data nacional é o Quatro de Julho. Também é significativo que o primeiro ataque ao World Trade Center de Nova Iorque, concebido para derrubar a Torre Norte sobre a Torre Sul e gerar uma carnificina, aconteceu no dia 26 de fevereiro de 1993, quando o Kremlin celebrava os 41 anos do primeiro teste nuclear soviético. O ataque suicida contra o destroyer USS Cole, no qual morreram 17 marinheiros e ficaram feridos 39, ocorreu no dia 12 de outubro de 2000. Era o aniversário do início da principal ofensiva israelense, ocorrida em 1973, decisiva para a vitória na guerra do Yom Kippur. O significado das fracassadas tentativas dos atentados a bomba em Detroit e Nova Iorque no Natal de 2009 não precisa de explicação.

Por fim, sabemos que, durante a Guerra Fria, a KGB era um estado dentro do estado, mas agora a KGB é o estado. Em 2003, três anos após o antigo oficial da KGB Vladimir Putin se sentar, com estardalhaço, no trono do Kremlin, cerca de seis mil oficiais aposentados da KGB – a organização responsável pelo massacre de 20 milhões de pessoas apenas na União Soviética – ocupavam o governo federal e os governos locais da Rússia.

Não estou mais no olho do furacão, nem tenho inside information para saber se o criminoso ataque ao nosso consulado em Benghazi foi concebido pelos antigos oficiais da KGB, hoje governantes da Rússia. Mas o nosso FBI é uma excelente organização, capaz de descobrir a resposta. Infelizmente, por razões políticas, a administração e os líderes do Partido Democrata têm tirado conclusões rápido demais, sem conhecer a verdade. Para eles, o prestígio e a segurança da administração parecem ser muito mais importantes do que o prestígio e a segurança dos Estados Unidos.

Os americanos são pessoas orgulhosas do seu país e o amam com ternura. Esperemos que em novembro eles escolham proteger a segurança e o prestígio dos Estados Unidos, e não da administração atual.

[1] Sang-Hun Choe, “N. Korea fuels hatred of all things American,” The Associated Press, January 15, 2003, internet edition.
[1] President Nicolae Ceausescu’s State Visit to the USA: April 12-17, 1978, English version. Bucharest: Meridiane Publishing House, 1978, p. 78.
[2] “American capitalism gone with a whimper,” Pravda, April 27, 2004.
[3] Elián González saga still vivid for many, 10 years later,” CNN, April 22, 2010.

Nota do Tradutor: o artigo original tem mesmo duas notas [1], ambas sem indicação no corpo do texto.

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Como o Kremlin mata

O texto abaixo foi publicado no National Review Online em 28 de novembro de 2006. O autor é o general Ion Mihai Pacepa, oficial de mais alta patente que desertou do bloco comunista.

Como o Kremlin mata

Uma longa tradição continua.

Não tenho dúvidas de que o oficial aposentado da KGB/FSB, Alexander Litvinenko, foi assassinado por ordem de Putin. Foi morto, acredito, por ter revelado os crimes de Putin e o treinamento secreto, pela FSB,  de Ayman al-Zahawiri, o número dois da al Qaeda. É fato que o Kremlin tem usado repetidamente armas radioativas para matar os seus inimigos políticos no exterior. No fim da década de 1970, Leonid Brezhnev deu a Ceausescu, via KGB e sua irmã romena, a Securitate, tálio radioativo solúvel em pó, para ser colocado na comida; o veneno servia para matar inimigos políticos no exterior. De acordo com a KGB, o tálio radioativo se desintegraria dentro do corpo da vítima, gerando uma forma de câncer fatal e galopante, e não deixando nenhum traço detectável na autópsia. A substância foi descrita para Ceausescu como uma nova geração da arma de tálio radioativo usada, sem sucesso, contra o desertor da KGB Nikolay Khokhlov na Alemanha Ocidental em 1957. (Khokhlov perdeu todos os cabelos mas não morreu.) O codinome romeno era “Radu” (de radioativo) e eu a descrevi no meu primeiro livro, Red Horizons, publicado em 1987. O Polônio 210 usado para matar Litvinenko parecer ser uma nova versão de “Radu”.

O assassinato como política externa

Os esforços sistemáticos do Kremlin para assassinar inimigos políticos no exterior (não só com veneno, é claro) começou poucos meses depois do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, realizado em fevereiro de 1956, no qual Khrushchev expôs os crimes de Stalin. Em abril daquele ano, o general Ivan Anisimovich Fadeyev, chefe do novo 13° Departamento da KGB, responsável por assassinatos no exterior, chegou a Bucareste para uma “troca de experiências” com o DIE, o serviço de inteligência estrangeira romeno, ao qual eu pertencia. Antes disso, Fadeyev havia chefiado o enorme posto de inteligência da KGB em Karlhorst, Berlim Oriental, e era conhecido em toda a nossa comunidade de inteligência como um sanguinário, responsável pelo sequestro de centenas de ocidentais e cujas tropas haviam suprimido brutalmente as demonstrações anti-soviéticas de 13 de junho de 1953 em Berlim Oriental.

Fadeyev começou a sua “troca de experiências” em Bucarest nos dizendo que Stalin havia cometido um erro indesculpável: havia apontado a lâmina do aparato de segurança do estado contra o “seu próprio povo”. Quando Khrushchev fez o seu “discurso secreto”, a sua única intenção era corrigir aquela aberração. “Os nossos inimigos” não estão na União Soviética, Fadeyev explicou. As burguesias da América e da Europa Ocidental queriam liquidar o comunismo. Elas eram os “nossos inimigos mortais”. Eram os “cachorros loucos” do imperialismo. Devíamos apontar a lâmina da nossa espada contra elas, e apenas contra elas. Era isto o que Nikita Sergeyevich realmente queria dizer com o seu “discurso secreto”.

De fato, Fadeyev disse, uma das primeiríssimas decisões de política externa de Khrushchev foi a sua ordem de 1953 para assassinar secretamente um destes “cachorros loucos”: Georgy Okolovich, o líder da National Labor Alliance (Natsionalnyy Trudovoy Soyuz, ou NTS), uma das organizações de russos exilados mais agressivamente anti-comunista da Europa Ocidental. Infelizmente, Fadeyev nos disse, o líder da equipe de assassinos Nikolay Khokhlov, chegando ao destino, havia desertado para a CIA e denunciado publicamente a mais recente arma secreta criada pela KGB: um revólver operado eletricamente escondido dentro de um maço de cigarros que disparava balas com ponta carregadas de cianeto. E, como um problema nunca vem sozinho, Fadeyev acrescentou, dois outros oficiais da KGB familiarizados com a estratégia de assassinatos haviam desertado logo após Khokhlov: Yury Rastvorov em janeiro de 1954 e Petr Deryabin em fevereiro de 1954.

Tudo isso, Fadeyev disse, havia levado a mudanças drásticas. Em primeiro lugar, Khrushchev havia ordenado à sua máquina de propaganda para espalhar por todo o mundo o boato de que ele tinha abolido a estratégia de assassinatos da KGB. Em seguida, ele denominou os assassinatos no exterior com o eufemismo “neutralizações”, renomeando a 9a Seção da KGB – como a divisão de assassinatos era chamado na época – como 13° Departamento, sepultando-a sob um segredo ainda mais profundo do que antes, e a colocando sob a sua supervisão direta. (Mais tarde, após o 13° Departamento ter sido comprometido, o nome foi alterado de novo.)

Em seguida, Khrushchev introduziu uma nova “metodologia” para a execução de operações de neutralização. A despeito da inclinação da KGB pela papelada burocrática, estes casos deviam ser tratados rigorosamente sem anotações e mantidos em segredo para sempre. Também deviam ser mantidos completamente em segredo do Politburo e de todos os demais órgãos governamentais. “O Camarada, e somente o Camarada”, Fadeyev enfatizou, podia agora aprovar neutralizações no exterior. (Nos altos círculos do bloco soviético, o termo “o Camarada” designava coloquialmente o líder de cada país.) Independentemente de quaisquer evidências produzidas pelas investigações policiais estrangeiras, a KGB – bem como as suas irmãs dos serviços secretos – jamais, sob quaisquer circunstâncias, podia admitir o envolvimento em assassinatos no exterior; todas as evidências produzidas deviam ser completamente rejeitadas como acusações ridículas. E, finalmente, após cada operação, a KGB devia secretamente espalhar “provas” no exterior acusando a CIA ou qualquer outro “inimigo” conveniente de ter cometido o ato, e assim matando, se possível, dois coelhos com uma cajadada só. Em seguida, Khrushchev mandou a KGB desenvolver uma nova geração de armas para matar sem deixar traços no corpo da vítima.

Antes de Fadeyev deixar Bucareste, o DIE havia instituído a sua própria divisão de operações de neutralização, denominada de Grupo Z, pois a letra Z era a última letra do alfabeto, significando a “solução final”. Esta nova unidade agiu, então, para conduzir a sua primeira operação de neutralização no bloco soviético sob as novas regras de Khrushchev. Em setembro de 1958, o Grupo Z, ajudado por uma equipe especial da alemã oriental Stasi, sequestrou da Alemanha Ocidental o líder anti-comunista romeno Oliviu Beldeanu. Os governos da Alemanha Oriental e da Romênia jogaram a responsabilidade pelo crime nas costas da CIA, publicando comunicados oficiais alegando que Beldeanu havia sido preso na Alemanha Oriental após ter sido secretamente infiltrado naquele país pela CIA para realizar operações de sabotagem e manobras diversionistas.

A exportação de uma tradição

Vladimir Putin parece ser apenas o mais recente de uma longa linha de czares russos mantenedor da tradição de assassinar qualquer um que atravesse o seu caminho. A prática remonta, pelo menos, ao século XIV de Ivan, o Terrível, assassino de milhares de aristrocratas e de outras pessoas, incluindo o Metropolitano Philip e o príncipe Alexander Gorbatyl-Shuisky, mortos por terem se recusado a prestar o juramento de obediência ao filho mais velho do czar, criança na época. Pedro, o Grande, lançou a sua polícia política contra todos os que falassem contra ele, desde a sua própria esposa a bêbados que contavam piadas sobre o seu governo; ele até mesmo fez a polícia política enganar e levar de volta à Rússia o próprio filho e herdeiro, o tsarevich Aleksey, a quem torturou até a morte.

Sob o comunismo, os assassinatos arbitrários se tornaram uma política de estado. Em 11 de agosto de 1918, numa ordem escrita à mão ordenando o enforcamento de pelo menos 100 kulaks na torre de Penza para servir de exemplo, Lênin escreveu: “Enforquem (enforquem sem falta, para o povo ver) não menos do que cem kulaks conhecidos, homens ricos, agiotas… Façam de tal forma que o povo num raio de centenas de quilômetros veja, estremeça, saiba e grite: eles estão amarrando e estrangulando até a morte estes kulaks agiotas”. (Esta carta fez parte de uma exposição intitulada “Revelations from the Russian Archives” exibida na Biblioteca do Congresso, Washington, D.C., em 1992.)

Durante o expurgo de Stalin, cerca de nove milhões de pessoas perderam a vida. Dos sete membros do Politburo de Lênin da época da Revolução de Outubro, somente Stalin estava vivo quando o massacre terminou.

O que eu sempre achei até mais perturbador do que a brutalidade destes crimes era o profundo envolvimento dos líderes soviéticos neles. Stalin ordenou pessoalmente que Leon Trotsky, o co-fundador da União Soviética, fôsse assassinado no México. E Stalin entregou em mãos a Ordem de Lênin para a comunista espanhola Caridad Mercader del Rio, cujo filho, o oficial da inteligência soviética, Ramón Mercader, havia assassinado Trotsky em agosto de 1940 esmagando-lhe a cabeça com uma picareta. Da mesma forma, Khrushchev colocou, com as próprias mãos, a mais alta medalha soviética no peito de Bogdan Stashinsky, oficial da KGB responsável pelo assassinado dois líderes anti-comunistas exilados na Alemanha Ocidental em 1962.

O meu primeiro contato com as operações de “neutralização” do Kremlin ocorreram em 5 de novembro de 1956, quando eu estava em treinamento no ministério de relações exteriores para assumir o meu falso cargo de representante chefe da Missão Romena na Alemanha Ocidental. Mihai Petri, um oficial do DIE atuando como ministro representante, disse-me que o “big boss” precisava de mim imediatamente. O “big boss” era o general disfarçado da KGB Mikhail Gavrilyuk, romenizado como Mihai Gavriliuc e chefe do meu DIE.

“É khorosho ver um velho amigo, Ivan Mikhaylovich” ouvi do homem descansando em uma cadeira confortável na mesa de Gavriliuc. Era o general Aleksandr Sakharovsky, que se levantou da cadeira e estendeu a mão. Ele havia criado o DIE e, como conselheiro de inteligência soviético do órgão, havia sido o meu chefe de facto até alguns meses antes, quando foi escolhido por Khrushchev para chefiar a toda-poderosa PGU (Pervoye Glavnoye Upravleniye, ou Primeira Diretoria Geral da KGB, o serviço de inteligência estrangeira da União Soviética). “Deixe-me apresentar você a Ivan Aleksandrovich” ele disse, apontando um rústico e desgastado par de óculos esporte com aros dourados. Era o general Ivan Serov, o novo chefe da KGB. Os dois visitantes estavam usando camisas típicas ucranianas floridas folgadas e calças esporte, em total contraste com os trajes acinzentados e cheio de botões estilo Stalin, até recentemente o uniforme virtual da KGB. (Até hoje para mim ainda é um mistério o motivo pelo qual a maior parte dos altos oficiais da KGB que eu conheci se esforçavam para imitar o líder soviético no poder. Seria simplesmente uma herança oriental dos tempos dos czares, quando os burocratas russos faziam qualquer coisa para adular os seus superiores?)

Os visitantes disseram que na noite anterior o premiê húngaro Imre Nagy, responsável pela cisão com o Pacto de Varsóvia e pelo pedido de ajuda às Nações Unidas, havia procurado refúgio na embaixada ioguslava. O ditador romeno Gheorghe Gheorghiu-Dej e o membro do Politburo Walter Roman (colega de Nagy dos anos de guerra quando ambos haviam trabalhado para o Comintern em Moscou) concordaram em voar para Budapeste para ajudar a KGB a sequestrar Nagy e levá-lo à Romênia. O major Emanuel Zeides, o chefe do setor alemão, fluente em húngaro, iria com eles como intérprete. “Quando Zeides Vienna você chefia nemetskogo otdeleniya” Gavriliuc me disse, finalmente deixando claro o motivo pelo qual eu havia sido convocado. Ou seja, eu seria o responsável pelo braço alemão do DIE.

Em 23 de novembro de 1956, os três membros do Politburo soviético que haviam coordenado de Budapeste a intervenção militar na Hungria enviaram um telegrama cifrado para Khrushchev:

Camarada Walter Roman, que chegou em Budapeste junto com o Camarada Dej ontem, dia 22 de novembro, teve longas discussões com Nagy… Imre Nagy e o seu grupo deixaram a embaixada ioguslava e estão agora em nossas mãos. Hoje o grupo partirá para a Romênia. O Camarada Kadar e os camaradas romenos estão preparando um adequado comunicado à imprensa. Malenkov, Suslov, Aristov.

Um ano mais tarde, Nagy e os principais membros do seu gabinete foram enforcados, após um julgamento encenado organizado pela KGB em Budapeste.

Em fevereiro de 1962, a KGB quase conseguiu assassinar o xá do Irã, que havia cometido o imperdoável “crime” de remover um governo comunista instalado no noroeste do Irã. O conselheiro-chefe da razvedka (inteligência estrangeira, em russo) do DIE jamais nos falou muito sobre a fracassada tentativa da KGB de matar o xá, mas deu ordens ao posto do DIE em Teerã para destruir todos os documentos comprometedores, suspender todas as operações dos agentes e relatar tudo, incluindo boatos, a respeito do atentado contra o xá. Poucos dias depois, ele cancelou o plano do DIE para matar o seu próprio desertor Constantin Mandache na Alemanha Ocidental com uma bomba colocada num carro porque, o conselheiro nos disse, o controle remoto, fornecido pela KGB para esta operação, poderia apresentar problemas de funcionamento. Em 1990, Vladimir Kuzichkin, oficial da KGB diretamente envolvido no atentado fracassado para matar o xá e que depois desertou para o Ocidente, publicou um livro (Inside the KGB: My Life in Soviet Espionage, Pantheon Books, 1990) no qual descreve a operação. De acordo com Kuzichkin, o xá escapou porque o controle remoto, usado para detonar uma grande quantidade de explosivos em um automóvel Volkswagen, falhou.

Dissidentes Silenciados

Em um domingo, 20 de março de 1965, fiz a minha última visita à residência de inverno de Gheorghiu-Dej em Predeal. Como de costume, encontrei-o com o seu melhor amigo, Chivu Stoica, chefe honorário da Romênia. Dej reclamou que se sentia fraco, tonto e com náuseas. “Acho que a KGB me pegou” ele disse, meio sério, meio brincando. “Eles pegaram Togliatti. É certeza” sussurrou Stoica com raiva.

Palmiro Togliatti, chefe do partido comunista italiano, havia morrido em 21 de agosto de 1964, durante uma visita à União Soviética. Nos altos círculos da comunidade de inteligência estrangeira do bloco acreditava-se que havia morrido de uma rápida forma de câncer após ter sido irradiado pela KGB a mando de Khrushchev durante férias em Yalta. O seu assassinato havia sido provocado porque, enquanto estava na União Soviética, havia escrito um “testamento” no qual expressara profundo descontentamento com os erros de Khrushchev. As frustrações de Togliatti expressavam não apenas a sua opinião mas também a de Leonid Brezhnev. De acordo com Dej, estas suspeitas foram confirmadas pelo fato de que Brezhnev foi ao funeral de Togliatti em Roma; em setembro de 1964 o Pravda publicou trechos do “testamento” de Togliatti e cinco semanas mais tarde Khrushchev foi destronado após ser acusado de conspiração impulsiva, decisões precipitadas, ações divorciadas da realidade, arrogância e governo por decreto.

Eu vi Dej amedrontado. Ele também havia criticado a política externa de Khrushchev. Mais ainda, um ano antes ele havia expulsado todos os conselheiros da KGB da Romênia e no mês de setembro anterior havia expressado a Khrushchev a sua preocupação sobre a “estranha morte” de Togliatti. Durante as eleições de 12 de março de 1965 para a Grande Assembléia Nacional da Romênia, Gheorghiu-Dej ainda parecia robusto. Uma semana depois, entretanto, morreu de uma forma galopante de câncer. “Assassinado por Moscou” sussurrou para mim o novo líder romeno, Nicolae Ceausescu, poucos meses depois. “Irradiado pela KGB” murmurou num tom de voz mais baixo ainda, afirmando “Isto ficou bem provado na autópsia”. O assunto havia vindo à tona porque Ceausescu havia me mandado comprar dispositivos ocidentais de detecção de radiação (contadores Geiger-Müller) e mandado instalá-los secretamene em seus escritórios e residências.

Logo após a invasão de Praga pelos soviéticos, Ceausescu passou do stalinismo para o maoísmo, e em junho de 1971 visitou a China Vermelha. Lá, soube do complô da KGB para matar Mao Tsé-Tung com a ajuda de Lin Biao, comandante do exército chinês, educado em Moscou. O plano falhou, e Lin Biao tentou, sem sucesso, fugir da China em um avião militar. A sua execução só foi anunciada em 1972. Durante o mesmo ano, eu soube de detalhes do plano soviético por meio de Hua Guofeng, ministro de segurança pública – que em 1977 viria a ser o líder supremo da China.

“Dez”, Ceausescu me disse. “Dez líderes internacionais que o Kremlin matou ou tentou matar” ele explicou, enumerando-os nos dedos. Laszlo Rajk e Imre Nagy, na Hungria; Lucretiu Patrascanu e Gheorghiu-Dej, na Romênia; Rudolf Slansky, líder da Checoslováquia, e Jan Masaryk, diplomata chefe do país; o xá do Irã; Palmiro Togliatti da Itália; o presidente americano John F. Kennedy e Mao Tsé-Tung. (Entre os líderes dos serviços de inteligência satélites de Moscou era consenso que a KGB estava envolvida no assassinato do presidente Kennedy.)

Imediatamente, Ceausescu ordenou que eu criasse uma unidade super-secreta de contrainteligência para operações em países socialistas (isto é, no bloco soviético). “Você tem mil pessoas para isto.” Advertiu também que a nova unidade devia ser “não existente”. Nenhum nome, nenhum título, nenhuma placa na porta. A nova unidade recebeu somente a designação genérica U.M. 0920/A, e o seu comandante recebeu a categoria de chefe de diretoria do DIE.

Ordem para Matar

No inesquecível dia de 22 de julho de 1978, Ceausescu e eu estávamos escondidos, de tocaia para caçar pelicanos em um canto remoto do Delta do Danúbio, onde nem mesmo um pássaro poderia nos ouvir. Como homem disciplinado e general aposentado, ele era fascinado pela sociedade estruturada dos pelicanos brancos. Os pássaros mais velhos – os avós – sempre ficavam na parte frontal da praia, perto da água e da fonte de alimentação. Os seus filhos respeitadores se alinhavam atrás deles em filas ordenadas, enquanto os netos passavam o tempo se movimentando na parte de trás. Eu frequentemente ouvia o meu chefe expressar o seu desejo de que a Romênia tivesse a mesma rígida estrutura social.

“Quero que você dê ‘Radu’ para Noel Bernard” Ceausescu sussurrou no meu ouvido. Noel Bernard era na época o diretor do programa romeno da Radio Free Europe (RFE), e por anos vinha enfurecendo Ceausescu com os seus comentários. “Você não precisa me relatar os resultados”, acrescentou. “Vou saber pelos jornais ocidentais e…” O fim da frase de Ceausescu foi apagada pelo rá-tá-tá metódico da submetralhadora. Ele atirou com cerimoniosa precisão, primeiramente na linha frontal dos pelicanos, depois na distância média e por fim nos netinhos atrás.

Durante 27 anos eu vivi com o pesadelo de que, mais cedo ou mais tarde, eu receberia uma ordem para matar alguém. Até aquela ordem de Ceausescu, eu tinha estado em segurança, pois as operações de neutralização estavam a cargo do chefe do DIE. Mas em março de 1978 eu fui designado chefe interino do DIE e não havia mais como eu escapar de me envolver nos assassinatos políticos, convertidos no principal instrumento de política externa de todo o bloco soviético.

Dois dias depois Ceausescu me enviou para Bonn para entregar uma mensagem secreta para o chanceler Helmut Schimdt, e lá eu pedi asilo político nos Estados Unidos.

Os assassinatos continuam

Noel Bernard continuou a informar os romenos sobre os crimes de Ceausescu, e no dia 21 de dezembro de 1981 ele faleceu devido a uma forma galopante de câncer. Em 1° de janeiro de 1988, o seu sucessor, Vlad Georgescu, iniciou uma série de programas sobre o meu livro Red Horizons na RFE. Meses depois, quando a série acabou, Georgescu informou aos seus ouvintes que a Securitate havia repetidamente avisado que ele poderia ser morto se transmitisse Red Horizons. “Se eles me matarem por ter feito a série sobre o livro de Pacepa, morrerei com a clara consciência de que cumpri o meu dever como jornalista” Georgescu afirmou publicamente. Poucos meses depois, ele morreu de uma forma galopante de câncer.

O Kremlin também continuou matando secretamente os seus oponentes políticos. Em 1979, a KGB de Brezhnev infiltrou Makhail Talebov na corte do premiê afegão pró-americano Hafizullah Amin como cozinheiro. A missão de Talebov era envenenar o primeiro ministro. Após diversas tentativas, Brezhnev ordenou à KGB o uso de força armada. Em 27 de dezembro de 1979, cinquenta oficiais da KGB da unidade de elite “Alfa”, liderada pelo coronel Grigory Boyarnov, ocuparam o palácio de Amin e mataram todas as pessoas para eliminar testemunhas. No dia seguinte, a KGB de Brezhnev levou para Cabul Bebrak Kemal, um comunista afegão refugiado em Moscou e o instalou como primeiro ministro. A operação de neutralização da KGB teve o seu papel na geração do terrorismo internacional de hoje.

Em 13 de maio de 1981, a mesma KGB organizou, com a ajuda da Bulgária, um atentado para matar o Papa João Paulo II, que havia iniciado uma cruzada contra o comunismo. Mehmet Ali Aqca, o atirador, admitiu ter sido recrutado pelos búlgaros, e identificou os seus oficiais de contato na Itália: Sergey Antonov, representante chefe do escritório dos Bálcãs em Roma, que foi preso; e o major Zhelvu Vasilief, do escritório do adido militar, que não pôde ser preso devido ao seu status de diplomata e foi chamado de volta a Sofia. Aqca também admitiu que, após o assassinato, ele devia ser secretamente retirado da Itália em um caminhão TIR [N do T: abreviatura de Transports Internationaux Routiers] (no bloco soviético, os caminhões TIR eram usados pelos serviços de inteligência para atividades operacionais.) Em maio de 1991 o governo italiano reabriu as investigações sobre a tentativa de assassinato e em 2 de março de 2006 concluiu que o Kremlin estava realmente por trás dela.

No Natal de 1989, Ceausescu foi executado após um julgamento no qual as acusações eram provenientes, quase palavra por palavra, do meu livro Red Horizons. Recentemente soube que Nestor Ratesh, diretor aposentado do programa romeno da RFE, após dois anos de pesquisa nos arquivos da Securitate, havia obtido evidências suficientes para provar que tanto Noel Bernard quanto Vlad Georgescu haviam sido mortos pela Securitate por ordem de Ceausescu. O resultado da sua pesquisa será objeto de um livro a ser publicado pela RFE.

Armas Fortes e Estabilidade

Quando a União Soviética entrou em colapso, os russos tiveram uma oportunidade única para acabar com a sua velha forma bizantina de estado policial, responsável por isolar o país durante séculos e deixá-lo mal equipado para lidar com as complexidades da sociedade moderna. Infelizmente, os russos não cumpriram o seu dever. Desde a queda do comunismo, eles têm encarado uma nativa forma de capitalismo tocada pelos velhos burocratas comunistas, especuladores e cruéis mafiosos que ampliaram as injustiças sociais. Assim, após um período de crescimento, os russos gradualmente – e talvez agradecidamente – retornaram para a sua histórica forma de governo, a tradicional samoderzhaviye russa, uma forma de autocracia que remonta ao século XIV de Ivan, o Terrível, no qual um senhor feudal governava o país com a ajuda da sua polícia política pessoal. Bem ou mal, a velha polícia política pode parecer para a maioria dos russos como uma defesa contra a ganância dos novos capitalistas domésticos.

Não será fácil romper uma tradição de cinco séculos. Isto não significa que a Rússia não pode mudar. Mas para isto acontecer, os Estados Unidos precisam ajudar. Devemos parar de fingir que o governo russo é democrático e devemos chamá-lo pelo verdadeiro nome: um bando de seis mil oficiais aposentados da KGB – uma das mais criminosas organizações da história – ocupando os mais importantes cargos do governo federal e dos governos locais, e que está perpetuando a prática de Stalin, Khrushchev e Brezhnev de assassinar secretamente as pessoas que atravessam o seu caminho. O assassinato sempre cobra um preço, e o Kremlin devia ser obrigado a pagá-lo até que pare com os assassinatos.

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A KGB e o assassinato de JFK

A entrevista abaixo foi publicada no site FrontPageMagazine em 3 de outubro de 2007. O editor Jamie Glazov entrevistou o general Ion Mihai Pacepa.

Pacepa é autor do recente livro Disinformation: Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom, Attacking Religion and Promoting Terrorism, em parceria com o professor Ronald J. Rychlak, obra que deu origem a um documentário de cerca de 2 horas.

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Programado para matar

A Frontpage Interview hoje recebe o general Ion Mihai Pacepa, o oficial de inteligência de mais alta patente que desertou do bloco soviético. Em 1989, o presidente romeno Nicolae Ceausescu e a esposa foram executados após um julgamento onde a maior parte das acusações foram, palavra por palavra, tiradas do livro Red Horizons, de Pacepa. Esta obra foi publicada em 27 países. O seu mais recente livro é Programmed to Kill: Lee Harvey Oswald, the Soviet KGB, and the Kennedy Assassination.

FP: General Ion Mihai Pacepa, bem-vindo ao Frontpage Interview.

Pacepa: É uma grande honra estar aqui. A sua revista é uma das poucas que entendem totalmente o Kremlin.

FP: Mr. Pacepa, você tem conhecimento direto dos laços da KGB com Oswald, e também teve acesso a documentos da KGB recentemente descobertos. Fale sobre a sua experiência de perito neste assunto e sobre as provas recentemente tornadas públicas. Fale também sobre as suas conclusões.

Pacepa: Moscou, é claro, não admitiu para nós, líderes representantes dos serviços de inteligência soviéticos, qualquer envolvimento no assassinato do presidente Kennedy. O Kremlin sabia que qualquer imprudência poderia dar início à Terceira Guerra Mundial. Mas, durante 15 anos da minha outra vida no topo do serviço de inteligência do bloco soviético, estive envolvido num esforço mundial de desinformação destinado a desviar a atenção do envolvimento da KGB com Lee Harvey Oswald, o marine americano que desertou para Moscou, retornou para os EUA e assassinou o presidente Kennedy.

Lançamos boatos, publicamos artigos e até mesmo livros insinuando que os culpados estavam nos EUA, não na União Soviética. A nossa máxima “prova” foi um bilhete endereçado a “Mr. Hunt”, datado de 8 de novembro de 1963, e assinado por Oswald, cujas cópias foram descobertas nos EUA em 1975. Sabíamos que o bilhete era falso, mas os peritos americanos em grafologia atestaram a sua autenticidade, e teóricos da conspiração o conectaram com o agente da CIA E. Howard Hunt, na época bem conhecido pelo escândalo de Watergate, e o usaram para “provar” o envolvimento da CIA no assassinato do presidente Kennedy.

Documentos originais da KGB existentes no Arquivo Mitrokhin, trazidos à luz na década de 1990, finalmente provaram que o bilhete fôra forjado pela KGB durante o escândalo de Watergate. O falso bilhete foi verificado duas vezes quanto à “autenticidade” pela Technical Operations Directorate (OTU) da KGB e liberado para ser usado. Em 1975, a KGB enviou, do México, três fotocópias do bilhete para entusiastas de teorias da conspiração nos Estados Unidos. [1] (O regulamento da KGB só permitia o uso de fotocópias dos documentos falsificados para evitar o exame meticuloso do original.)

Após o colapso da União Soviética, tive esperança de que os novos líderes em Moscou revelassem a mão da KGB por trás do assassinato do presidente Kennedy. Porém, em 1993, eles publicaram Passport to Assassination: the Never-Before-Told Story of Lee Harvy Oswald by the KGB Colonel Who Knew Him, um livro sustentando que uma investigação completa sobre Oswald não havia encontrado o mínimo indício do envolvimento soviético. [2] Os carrascos não se incriminam a si mesmos.

FP: Você pode dar detalhes sobre o Arquivo Mitrokhin?

Pacepa: Na década de 1990, o oficial da KGB aposentado Vasily Mitrokhin, ajudado pelo M16 britânico, contrabandeou de Moscou cerca de 25 mil páginas de documentos da KGB altamente confidenciais. Representam uma minúscula parte do arquivo da KGB, estimado em cerca de 27 bilhões de páginas (o arquivo da alemã oriental Stasi tinha cerca de 3 bilhões). Mesmo assim, o FBI descreveu o Arquivo Mitrokhin como “o mais completo e extenso arquivo de inteligência jamais recebido de qualquer fonte”. De acordo com este arquivo, o primeiro livro americano sobre o assassinato, Oswald: Assassin or Fall Guy?, que culpa a CIA e o FBI pelo crime, foi idealizado pela KGB. O autor do livro, Joachim Joesten, um comunista americano nascido na Alemanha, ficou cinco dias em Dallas após o assassinato, e em seguida foi para a Europa e sumiu de vista. Poucos meses depois, o livro de Joesten foi publicado pelo comunista americano Carlo Aldo Marzani (New York), que recebeu 80 mil dólares da KGB para produzir livros pro-soviéticos, mais 10 mil dólares por ano para divulgá-los agressivamente. Outros documentos do Arquivo Mitrokhin identificam o primeiro crítico americano deste livro, Victor Perlo, como um agente disfarçado da KGB.

O livro de Joesten foi dedicado ao americano Mark Lane, descrito no Arquivo Mitrokhin como um esquerdista que recebeu dinheiro anonimamente da KGB. Em 1966, Lane publicou o best-seller Rush to Judgment, alegando que Kennedy havia sido morto por um grupo americano direitista. Estes dois livros encorajaram as pessoas com algum conhecimento minimamente relacionado com a matéria a entrar na briga. Cada qual via os acontecimentos da sua própria perspectiva, mas todos acusavam grupos americanos pelo crime. O representante do distrito de New Orleans, Jim Garrison, olhou ao redor do seu distrito doméstico e em 1967 prendeu um homem do lugar, a quem acusou de conspiração com os grupos da inteligência americana para assassinar Kennedy e assim parar os mais recentes esforços de acabar com a Guerra Fria. O acusado foi inocentado em 1969, mas Garrison apegou-se à sua história, escrevendo primeiramente A Heritage of Stone (Putnam, 1970) e por fim publicando On the Trail of the Assassins (Sheriden Square, 1988), um dos livros inspiradores do filme JFK de Oliver Stone.

A conspiração do assassinato de Kennedy nascera – e jamais morreria. De acordo com outro documento, em abril de 1977, Yury Andropov, chefe da KGB, informou o Politburo que a KGB estava lançando uma nova campanha de desinformação para implicar ainda mais “os serviços especiais americanos” no assassinato de Kennedy. Infelizmente, o Arquivo Mitrokhin silencia sobre o assunto daí em diante.

FP: Você descobriu documentos escritos pessoalmente pelo assassino, Lee Harvey Oswald, sugerindo que ele estava ligado ao departamento da KGB para assassinatos no exterior e que voltou aos Estados Unidos vindo da União Soviética apenas temporariamente, em missão. Duas investigações federais e mais de 2500 livros analisaram o assassinato mas ninguém tocou neste assunto. Por quê?

Pacepa: Porque nenhum dos investigadores ou pesquisadores estavam suficientemente familiarizados com as práticas e códigos de operação da KGB. O FBI recentemente disse ao Congresso americano que somente um interlocutor árabe nativo pode captar os sutis detalhes da uma interceptação telefônica da al-Qaida – especialmente ligações com a dupla linguagem de inteligência. Passei 23 anos da minha outra vida falando por meio destes códigos. Até mesmo a minha própria identidade era coficiada. Em 1955, quando me tornei oficial da inteligência estrangeira, fui informado que dali em diante o meu nome seria Mihai Podeanu, e Podeanu permaneci até 1978, quando rompi com o comunismo. Todos os meus subordinados – e todos os demais oficiais de inteligência estrangeira do bloco soviético – usavam códigos nos relatórios escritos, ao falar com as suas fontes e até mesmo nas conversas com os seus próprios colegas. Quando deixei a Romênia para sempre, o meu serviço de espionagem era a “universidade”, o líder do país era o “Arquiteto”, Viena era “Videle” e assim por diante.

Em uma entrevista publicada nos EUA, o general da KGB, Boris Solomantin, durante muito tempo representante-chefe do PGU (inteligência estrangeira soviética) disse: “Não me considero um homem que conhece tudo sobre inteligência – como alguns oficiais deste Primeiro Departamento [isto é, do PGU], escritores tentando se mostrar. Em inteligência e contrainteligência somente o homem que está chefiando estes serviços conhece tudo. Estou dizendo isto porque todas as questões sobre criptografia e máquinas de criptografia estavam sob responsabilidade de outro departamento – em uma diretoria fora da minha, similar à sua National Security Agency”. [3]

Durante os meus últimos dez anos na Romênia, também gerenciei o equivalente do país à NSA, e me familiarizei com os sistemas de codificação usados por todo o serviço de inteligência do bloco soviético. Este conhecimento me permitiu perceber que as aparentemente inócuas cartas de Oswald e da sua esposa soviética para a embaixada soviética em Washington, D.C. (disponibilizadas para a Warren Commission) eram mensagens veladas para a KGB. Nelas, encontrei a prova de que Oswald havia sido enviado para os EUA em missão temporária, e que ele planejava retornar para a impenetrável União Soviética após a conclusão da sua tarefa.

Levei muitos anos para separar o joio do trigo enquanto percorria as pilhas de relatórios de investigação gerados pela morte violenta do jovem presidente americano, mas, quando terminei, estava enfeitiçado pela abundânica de impressões digitais da KGB em toda a história de Oswald e do seu assassino, Jack Ruby.

FP: Dê exemplos concretos.

Pacepa: Por exemplo, no bilhete escrito a mão em russo deixado por Oswald para a esposa soviética, Marina, pouco antes de tentar assassinar o general americano Edwn Walker, que serviu como um ensaio para o assassinato do presidente Kennedy. Aquele importantísimo bilhete contém dois códigos da KGB: amigos (código para oficial de suporte) e Cruz Vermelha (código para ajuda financeira). No bilhete, Oswald diz a Marina o que fazer caso ele fôsse preso. Ele reforça que ela deve entrar em contato com a “embaixada” (soviética), que eles têm “amigos aqui” e que a “Cruz Vermelha” vai ajudá-la financeiramente. De particular importância é a instrução de Oswald para ela “mandar para a embaixada a informação do que aconteceu a mim”. Na época, o código para embaixada era “escritório” mas parece que Oswald queria ter certeza de que Marina iria entender que ela devia informar imediatamente a embaixada soviética. É de se notar que Marina nao mencionou este bilhete às autoridades americanas após a prisão de Oswald. Ele foi encontrado na casa de Ruth Paine, uma amiga americana com a qual Marina estava no momento do assassinato.

FP: Segundo a conclusão da Warren Commission e do House Select Committee on Assassinations, Oswald não tinha a menor conexão com a KGB. Mas, de acordo com o seu livro, Oswald encontrou-se secretamente com um oficial do departamento de assassinatos da KGB na Cidade do México poucas semanas antes de matar o presidente Kennedy. Qual a prova disso?

Pacepa: Há muitas evidências sutis provando a conexão de Oswald com a KGB. Um indício tangível é a carta enviada por ele à embaixada soviética em Washington poucos dias antes de se encontrar com o “Camarada Kostin” na Cidade do México. A CIA identificou Valery Kostikov como um oficial do 13° Departamento da PGU para “wet affairs” (expressão na qual wet é um eufemismo para sangrento). Um rascunho escrito à mão daquela carta foi encontrada entre os pertences de Oswald após o assassinato. A já mencionada Ruth Paine testemunhou que Oswald reescreveu aquela carta diversas vezes antes de datilografá-la na máquina de escrever dela. Marina garantiu que ele “redatilografou o envelope dez vezes”. Era importante para ele. Uma fotocópia da carta final enviada por Oswald para a embaixada soviética foi recuperada pela Warren Commission. Deixe-me citar algumas frases daquela carta, na qual eu também inseri, entre parênteses, a versão antes rascunhada por Oswald:

“Isto é para informar você dos eventos recentes desde as minhas reuniões com o camarada Kostin [no rascunho: “sobre novos eventos desde as minhas entrevistas com o camarada Kostine”] na embaixada da União Soviética, Cidade do México, México. Não pude permanecer no México [riscado no rascunho: “porque considerei desnecessário”] indefinidamente devido às restrições do meu visto mexicano, de apenas 15 dias de duração. Não tive a chance de pedir um novo visto [no rascunho: “solicitando uma prorrogação”] a não ser usando o meu nome real, por isso voltei para os Estados Unidos.”

O fato de Oswald ter usado um codinome operacional para Kostikov confirma, para mim, que tanto a sua reunião com Kostikov na Cidade do México como a sua correspondência com a embaixada soviética em Washington foram conduzidas em um contexto operacional da PGU. O fato de Oswald não ter usado o seu nome real para obter o visto mexicano confirma esta conclusão.

Agora, vamos sobrepor esta carta combinada ao guia gratuito Esta Semana – de 28 de setembro a 4 de outubro de 1963, e a um dicionário Castelhano-Inglês, ambos encontrados entre os pertences de Oswald. O guia tem o número de telefone da embaixada soviética sublinhado, os nomes Kosten e Oswald anotados em cirílico na página listando os “Diplomatas no México” e, na página anterior, marcas de verificação perto de cinco cinemas. [4] Atrás do dicionário Castelhano-Inglês, Oswald escreveu: “comprar ingressos [plural] para a tourada” [5] e a praça de touros Plaza México está circulada no mapa da Cidade do México. [6] O Palácio de Belas Artes, local predileto dos turistas que se juntam aos domingos de manhã para assistir o Balé Folclórico, também está marcado no mapa de Oswald, [7].

Ao contrário do que Oswald informou, ele não foi visto na embaixada soviética em nenhum momento durante a sua estadia na Cidade do México – a CIA tinha câmeras de vigilância na entrada da embaixada na época. [8] Resumindo: todos os fatos acima, reunidos, sugerem para mim que Oswald recorreu a uma reunião não programada, ou “iron meeting” – zheleznaya yavka, em russo – para uma conversa urgente com Kostikov na Cidade do México. A “iron meeting” era um procedimento padrão da KGB para situações de emergência: “iron” significava firme ou inalterável.

Na minha época eu aprovei muito poucas “iron meetings” na Cidade do México (local favorito para o contato com nossos agentes importantes morando nos EUA) e a reunião “iron meeting” de Oswald parece, para mim, uma “iron meeting” típica. Ou seja, um breve encontro em um cinema para marcar uma reunião para o dia seguinte nas touradas (na Cidade do México, elas acontecem às 4h30 na tarde do domingo); um encontro breve em frente do Palácio de Belas Artes para passar para Kostikov um dos ingressos comprado por Oswald para a tourada; e uma longa reunião para discussão na tourada de domingo.

Não posso, é claro, ter certeza de que tudo aconteceu exatamente desta forma – cada oficial de apoio tem as suas próprias peculiaridades. Mas independentemente de como eles possam ter entrado em contato, é claro que Kostikov e Oswald se encontraram secretamente naquele fim de semana de 28 e 29 de setembro de 1963. Na terça-feira seguinte, ainda na Cidade do México, ele telefonou para a embaixada soviética a partir da embaixada cubana e pediu ao guarda em serviço para conectá-lo com o “Camarada Kostikov” com o qual ele “conversou em 28 de setembro”. Aquele telefonema foi interceptado pela CIA.

FP: Cada partido comunista era gerenciado por um politburo ao estilo soviético, todos os exércitos do bloco soviético usavam o mesmo uniforme, cada força policial do Leste Europeu foi substituída por uma milícia ao estilo soviético. Como este padrão soviético refletiu no serviço de inteligência do bloco?

Pacepa: “Tudo o que você verá aqui é idêntico ao que eu vi no seu serviço” disse-me Sergio del Valle – Ministro do Interior cubano e chefe geral da segurança nacional e da inteligência estrangeira – quando me apresentou para os dirigentes do serviço de espionagem cubano, o DGI. [9] Até mesmo o treinamento dos oficiais do DGI era baseado nos mesmos manuais recebidos da PGU por nós, do serviço de espionagem romeno, o DIE – Departamentul de Informatii Externe.

Sim, a inteligência soviética, como o governo soviético em geral, tinha uma forte propensão por padrões. Pela sua própria natureza, a espionagem é um empreendimento enigmático e dúbio, mas nas mãos dos soviéticos desenvolveu-se e virou uma filosofia completa, onde cada aspecto tinha o seu próprio conjunto de regras testadas e precisas e seguia um padrão fixo.

Durante os muitos anos que passei pesquisando os laços de Oswald com a KGB, peguei as informações reais e verificáveis sobre a sua vida desenvolvidas pelo governo americano e pesquisadores independentes relevantes, e as examinei à luz dos padrões operacionais da PGU – pouco conhecidos por estrangeiros devido ao absoluto segredo então – como hoje – endêmico na Rússia. Novos insights sobre o assassinato de repente ganharam vida. As experiências de Oswald como marine servindo no Japão, por exemplo, se encaixaram perfeitamente no padrão da PGU para recrutar membros das forças armadas americanas fora dos Estados Unidos que, por muitos anos, eu apliquei nas operações romenas. Também ficou óbvio que o armário no terminal de ônibus usado por Oswald em 1959, após retornar aos EUA vindo do Japão, para depositar uma mochila de lona cheia de fotografias de aviões militares americanos, era de fato uma intelligence dead drop [N do T: local onde duas pessoas de um serviço secreto podem colocar e retirar objetos sem precisar se encontrar]. [10] Durante aqueles anos o uso de tais armários era moda na PGU – e no DIE.

As operações da espionagem soviética podem ser separadas de acordo com padrões, se você estiver familiarizado com elas. Os peritos em contrainteligência chamam estes padrões de “evidência operacional”, mostrando as impressões digitais do perpetrador.

FP: A maior parte do trabalho do assassinato de Kennedy sugere que Oswald era um marine de baixo escalão sem informações importantes a oferecer para a KGB. Também era nitidamente perturbado e um tanto imprevisível. Se isto é verdade, por que a KGB o recrutou?

Pacepa: Isto é desinformação soviética – disseminada também pelo meu DIE, sob ordens da KGB. A verdade é bem diferente. Veja um exemplo. Como operador de radar na Base Aérea de Atsugi no Japão, Oswald sabia a altitude de vôo dos super-secretos aviões espiões U-2 da CIA que sobrevoavam a União Soviética partindo daquela base. Em 1959, quando eu era o chefe do posto de inteligência da Romênia na Alemanha Ocidental, um requerimento soviético endereçado a mim pediu “tudo, incluindo boatos” sobre a altitude de vôo dos aviões U-2. O Ministro de Defesa soviético sabia que os aviões U-2 haviam sobrevoado a União Soviética diversas vezes, mas o Comando de Defesa Aérea não havia sido capaz de rastreá-los porque os radares soviéticos da época não alcançavam grandes altitudes.

Francis Gary Powers, o piloto do U-2 abatido pelos soviéticos em 1° de maio de 1960, acreditava que os soviéticos haviam sido capazes de atingi-lo porque Oswald os havia informado sobre a altitude do seu vôo. De acordo com as declarações de Powers, Oswald tinha acesso “não somente aos códigos de radar e rádio mas também ao novo equipamento de radar MPS-16 com reconhecimento de altura” e a altitude na qual o U-2 voava, que era um dos segredos mais bem guardados.[11]

Parece que Oswald, que desertou para a União Soviética em 1959, era uma das pessoas presentes na audiência do julgamento espetacular de Powers em Moscou. Em 15 de fevereiro de 1962, Oswald escreveu para o irmão Robert: “Ouvi pela Voz da América que eles libertaram Powers, o sujeito do avião de espionagem U-2. É uma grande notícia onde você está, acredito. Ele parecia ser um americano fino e inteligente quando eu o vi em Moscou.” [12]

Terá sido um procedimento normal para a KGB mandar Oswald observar o julgamento de Powers como uma recompensa por ter ajudado a União Soviética abater o U-2.

FP: Yuri Nosenko, um oficial da KGB que desertou para os Estados Unidos em 1964, disse a Gerald Posner, pesquisador do assassinato: “Estou surpreso pela importância dada ao fato de [Oswald] ser um marine. O que ele era na Marinha – major, capitão, coronel?” [13] Como você explica esta declaração de Nosenko?

Pacepa: É fato que Nosenko desertou de boa fé. Mas ele pertenceu ao departamento doméstico da KGB e não sabia nada sobre as fontes estrangeiras da PGU – como um agente de nível médio do FBI não sabe nada sobre as fontes da CIA no exterior.

O recrutamento de membros das forças armadas era uma das mais altas prioridades da PGU na época. A busca por “serzhant” era a minha principal prioridade durante os três anos (1957-59) em que fui designado para residir na Alemanha Ocidental, e ainda era uma das principais prioridades em 1978, quando rompi com o comunismo. Evidentemente, a PGU gostaria de ter recrutado coronéis americanos, mas era difícil se aproximar deles, enquanto oficiais de baixo escalão eram mais acessíveis e podiam fornecer excelentes informações se usados corretamente.

Um bom exemplo é o sargento Robert Lee Johnson. Na década de 1950 ele estava servindo no exterior onde, como Oswald, ficou apaixonado pelo comunismo. Em 1953, Johnson secretamente entrou na unidade militar soviética na Berlin Oriental, onde pediu – como Oswald obviamente fez – garantia de asilo político no “paraíso dos trabalhadores”. Uma vez lá, Johnson foi recrutado pela PGU e persuadido a voltar temporariamente aos EUA para executar uma “tarefa histórica” antes de iniciar a sua nova vida na União Soviética – como foi o caso de Oswald. Realmente, o sargento Johnson foi recompensado secretamente com a patente de major do Exército Vermelho e recebeu congratulações escritas pelo próprio Khrushchev. [14]

De acordo com o coronel da PGU Vitaly Yurchenko, que desertou para a CIA em 1985 e logo em seguida re-desertou, o oficial chefe americano John Anthony Walker – outro “serzhant” – foi o maior agente da história da PGU, “ultrapassando em importância até o roubo soviético dos projetos anglo-americanos da primeira bomba atômica”. John F. Lehman, secretário americano da Marinha na época da prisão de Walker, concordou. [15]

FP: Em 1962, quando Oswald retornou da União Soviética, trouxe com ele um documento de 13 páginas intitulado “Diário Histórico”. Por que tinha este nome?

Pacepa: “Histórico” era um slogan da PGU na época. O termo foi cunhado pelo general Aleksandr Sakharovsky, antigo conselheiro-chefe soviético para a Securitate romena e comandante da PGU por imprecedentes 14 anos. “Histórico” era a sua expressão favorita. A Securitate tinha a “tarefa histórica” de eliminar a burguesia do solo romeno, como ele constantemente pregava para nós. O “dever histórico” da PGU era cavar a cova da burguesia internacional. Dogonyat i peregonyat era a nossa “tarefa histórica monumentalnaya”, ele nos disse logo após Khrushchev ter lançado aquele famoso slogan sobre a sua crítica ao Ocidente e sobre a superação do Ocidente no espaço de dez anos.

Diários pessoais também eram uma invenção de Sakharovsky. Todos os nossos oficiais e agentes ilegais enviados ao Ocidente com biografia fictícia deviam levar algum tipo de apoio escrito para a memória, para lembrarem exatamente onde, quando e o que supostamente haviam feito em vários períodos da sua alegada vida. Até o fim da década de 1950, estas anotações eram transportadas na forma de microdots ou filmes flexíveis escondidos em algum objeto de uso diário, mas, é claro, apresentavam o risco potencial de se tornar prova incriminatória se fôssem encontrados. Em janeiro de 1959, Sakharovsky deu ordens a todos os serviços de inteligência estrangeira do bloco soviético para dissimular estas biografias na forma de diários, rascunhos de livros, cartas pessoais ou notas autobiográficas. Estas notas eram escritas por especialistas em desinformação, copiadas à mão pelo agente ilegal ou de inteligência, normalmente imediatamente antes dele partir para o Ocidente, e em seguida passavam pela fronteira livremente.

Um exame miscroscópico do “Diário Histórico” de Oswald realmente mostrou que “foi escrito em uma ou duas sessões”. [16] Também foi copiado muito apressadamente, como sugerem os diversos erros de ortografia.

FP: O seu livro dá uma intrigante guinada no modo como conta o enredo. No fim, você diz que a evidência sugere que Oswald perdeu o apoio da PGU (Inteligência Estrangeira Soviética), e que ele foi sozinho para matar o presidente Kennedy. Isto é um tanto surpreendente. Conte-nos o que você sabe e explique a sua interpretação.

Pacepa: Em outubro de 1962, a Suprema Corte da Alemanha Ocidental realizou o julgamento público de Bogdan Stashinsky, desertor da inteligência soviética condecorado por Khrushchev por ter assassinado inimigos da União Soviética moradores no Ocidente. Este julgamento revelou Khrushchev ao mundo como um insensível assassino político. Em 1963, o extravagante ditador soviético já era um tirano incapacitado e ofegante. A mínima referência a qualquer envolvimento soviético no assassinato do presidente americano poderia ter sido fatal para Khrushchev. Assim, a KGB – como também o meu DIE – cancelou todas as operações destinadas a assassinar inimigos no Ocidente.

A PGU tentou, sem sucesso, desprogramar Oswald. Os documentos disponíveis mostram que, para provar para a PGU que ele era capaz de executar com segurança o assassinato ordenado, Oswald fez um ensaio atirando – apesar de ter errado por pouco – no general americano Edwin Walker. Oswald fez um pacote, completo com fotografias, mostrando como ele tinha planejado esta operação, e em seguida levou este material para a Cidade do México para provar ao “Camarada Kostin”, o seu oficial de apoio, a sua capacidade. Apesar de Oswald ter conseguido executar a tentativa de assassinato de Walker sem ser identificado como o atirador, Moscou permaneceu inflexível.

O obstinado Oswald estava arrasado, mas no fim ele foi em frente por si só, totalmente convicto de estar cumprindo a sua tarefa “histórica”. Tinha apenas 24 anos e tinha dado o melhor de si para obter armas de modo imperceptível e para fabricar documentos de identidade, usando os métodos aprendidos com a KGB. Até o derradeiro final ele também seguiu as instruções de emergência recebidas originalmente da KGB – não admitir nada e pedir um advogado.

Como Oswald já sabia demais sobre o plano original, entretanto, Moscou providenciou para que fôsse silenciado para sempre, caso continuasse tentando realizar o impensável. Era outro padrão soviético. Sete chefes da própria polícia política soviética foram secreta ou abertamente assassinados para evitar incriminar o Kremlin. Alguns foram envenenados (Vyacheslav Menzhinsky, em 1934), outros executados como espiões ocidentais (Genrikh Yagoda em 1938, Nikolay Yezhov em 1939, Lavrenty Beriya e Vsevolod Merkulov em 1953, e Viktor Abakumov em 1954).

Além do mais, imediatamente após as notícias do assassinato de Kennedy, Moscou lançou a operação “Dragão”, um esforço de desinformação no qual o meu serviço esteve profundamente envolvido. O objetivo – plenamente atingido – era jogar a culpa em vários grupos nos Estados Unidos por terem matado o seu próprio presidente.

FP: A primeira resenha sobre Programmed to Kill, feita pela Publishers Weekly, afirma que o seu livro é baseado em histórias antigas de inteligência e não oferece nenhum motivo convincente sobre o interesse soviético pelo assassinato. O que você diz a respeito?

Pacepa: Em 3 de janeiro de 1988, o The New York Times publicou uma resenha parecida sobre o meu primeiro livro, Red Horizons, afirmando que ele continha apenas “histórias esquálidas” sobre o presidente romeno Nicolae Ceausescu. Dois anos depois, entretanto, Ceausescu foi executado após um julgamento cujas acusações eram provenientes, palavra por palavra, do meu livro – que ainda continua vendendo.

FP: Então tudo isso – se isso é verdade – não era um pouco estranho para Khrushchev ter arriscado tanto? Poderia ter causado uma guerra mundial?

Pacepa: Khrushchev, o meu chefe de facto por nove anos, era irracional. Hoje, as pessoas se lembram dele como um camponês que consertou as maldades de Stalin. O Khrushchev que eu conheci era sanguinário, impetuoso e extrovertido, e tendia a destruir todos os projetos tão logo caíssem nas suas mãos. A irracionalidade de Khrushchev fez dele o mais controverso e imprevisível dos líderes soviéticos. Desmascarou os crimes de Stalin mas converteu o assassinato político no principal instrumento da sua política externa. Criou a política de coexistência pacífica com o Ocidente mas acabou por empurrar o mundo para a iminência de uma guerra nuclear. Concluiu o primeiro acordo para o controle de armas nucleares, mas tentou garantir a posição de Fidel Castro no comando de Cuba com a ajuda de armas nucleares. Restabeleceu as relações de Moscou com a Iugoslávia de Tito mas rompeu com Beijing e assim destruiu a unidade do mundo comunista. Em 11 de setembro de 1971, Khrushchev morreu em desonra, como uma não-pessoa, não sem antes ter visto as suas memórias publicadas no Ocidente dando a sua versão da história.

FP: General Ion Mihai Pacepa, obrigado por ter vindo à Frontpage Interview. Ao lado das suas novas revelações e dos importantes fatos e assuntos trazidos à tona sobre o assassinato de Kennedy, o seu livro serve como mais um lembrete sobre a natureza maléfica da KGB e sobre a entidade sinistra e verdadeiramente tenebrosa que nós enfrentamos no regime soviético.

Obrigado por sua luta pela verdade e pela memória histórica.

Será uma honra recebê-lo mais uma vez.

Pacepa: Parabéns pela sua coragem em debater este tema tão controverso.

Notas:
[1] Cristopher Andrew and Vasily Mitrokhin, The Mitrokhin Archive and the Secret History of the KGB (New York, Perseus Books Group, 1999), p. 229.
[2] Oleg Nechiporenko, Passport to Assassination: the Never-Before-Told Story of Lee Harvy Oswald by the KGB Colonel who knew him (New York: Carol Publishing Group, 1993).
[3] Washington Post Magazine, April 23, 1995.
[4] Warren Commission Exhibit 2486.
[5] Testimony of Ruth Hyde Paine, Warren Commission Vol. 3, pp. 12-13.
[6] Warren Commission Exhibit 1400.
[7] Priscilla Johnson McMillan, Marina and Lee (New York: Harper & Row, 1977), p. 496.
[8] Edward Jay Epstein, Legend: The Secret World of Lee Harvey Oswald (New York: Reader’s Digest Press), p. 16.
[9] Dirección General de Inteligencia
[10] Epstein, Legend, p. 89.
[11] Francis Gary Powers, with Curt Gentry, Operation Overflight: The U-2 spy pilot tells his story for the first time (New York: Holt, Rinehart, 1970), p. 357.
[12] Warren Commission Exhibit 315.
[13] Gerald Posner, Case Closed: Lee Harvey Oswald and the Assassination of JFK (New York: Random House, 1993), p. 49.
[14] Christopher Andrew and Oleg Gordievsky, KGB: The Inside Story Of Its Foreign Operations from Lenin to Gorbachev (New York: HarperCollins, 1990), p. 462.
[15] John Barron, Breaking the Ring (Boston: Houghton Mifflin, 1987), pp. 148, 212.
[16] Epstein, Legend, pp. 109, 298n.

Jamie Glazov é editor da Frontpage Magazine. Tem Ph.D. em História com especialidade em política externa russa, americana e canadense. É o autor de Canadian Policy Toward Khrushchev’s Soviet Union e co-editor (com David Horowitz) de The Hate America Left. Editou e escreveu a introdução de Left Illusions, de David Horowitz. O seu novo livro é United in Hate: The Left’s Romance with Tyranny and Terror. Para ver os seus simpósios, entrevistas e artigos anteriores, clique aqui. Email: jglazov@rogers.com.

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Ion Mihai Pacepa

O general Ion Mihai Pacepa é um ex-oficial da Securitate, polícia política secreta romena, para quem começou a trabalhar em 1951. É o oficial de mais alta patente que desertou do bloco soviético. Fugiu para os EUA em 1978. Engenheiro de formação, é escritor e articulista.

Na época da deserção, era conselheiro do ditador romeno Nicolae Ceausescu, chefe do serviço de inteligência para assuntos exteriores e secretário de estado. Conhecia pessoalmente inúmeros tiranos de primeiro escalão, bem como as operações por eles levadas a cabo, como a Teologia da Libertação, o terrorismo islâmico, a operação contra o Papa Pio XII, só para citar algumas.

Por isso, a sua fuga foi o mais duro golpe sofrido pelo serviço secreto comunista. Pela deserção e pela contribuição ao Ocidente, Pacepa recebeu duas sentenças de morte emitidas por Ceausescu. O ditador também ofereceu um prêmio de 2 milhões de dólares por sua cabeça, quantia à qual se somou 1 milhão ofertado por Yasser Arafat e mais 1 milhão de Muammar al-Gaddafi.

O seu livro Red Horizons: Chronicles of a Communista Spy Chief, sobre a corrupção do governo Ceausescu, era tido pelo presidente Reagan como a sua “Bíblia para lidar com ditadores socialistas”. A obra foi grandemente responsável pela queda do tirano. Best-seller na Romênia, foi traduzido para 27 idiomas.

Recentemente, escreveu, em parceria com o professor Ronald J. Rychlak, o livro Disinformation: Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom, Attacking Religion and Promoting Terrorism, obra que deu origem a um documentário de cerca de 2 horas.

Pacepa tem 85 anos e mora nos EUA, sob identidade secreta.

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Algumas frases do general:

Sobre o Terrorismo: “Infelizmente, eu testemunhei o nascimento do terrorismo anti-americano”

Teologia da Libertação: “O meu primeiro contato com os esforços da KGB de usar a religião para expandir mundialmente a influência do Kremlin ocorreu em 1959. ‘A religião é o ópio do povo’ ouvi Nikita Khrushchev dizer, citando a famosa frase de Marx ‘então vamos dar ópio ao povo’”.

Raul Castro: “Eu me encontrei com Raul Castro muitas vezes, em Cuba e na Romênia. Ele era responsável pela coordenação do serviço de inteligência cubano (a Dirección General de Inteligencia – DGI) e, no início dos anos 1970, entrou no negócio de drogas juntamente com o departamento onde eu trabalhava (Departamentul de Informatii Externe – DIE).”

Campanha da KGB contra Pio XII: “Em 1974, Andropov admitiu para nós que, soubéssemos na época o que sabemos hoje, jamais teríamos ido atrás do Papa Pio XII. Referia-se a informações recentemente liberadas mostrando que Hitler, longe de ser amigo de Pio XII, na verdade tramou contra ele.”

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A Mãe dos Pacifistas

O artigo a seguir foi publicado no site National Review Online em 26 de fevereiro de 2004. O autor, general Ion Mihai Pacepa, foi chefe do serviço secreto romeno e conselheiro de segurança nacional do presidente daquele país. É o oficial de inteligência de mais alta patente que desertou do bloco soviético. Lançou, recentemente, o livro Disinformation, em co-autoria com o professor Ronald J. Rychlak.

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A Retórica Soviética de Kerry

O movimento pacifista da era do Vietnã teve a sua origem no Kremlin

Parte do encanto do senador John Kerry em certos meios americanos se deve ao status de veterano da guerra do Vietnã aliado ao seu ativismo pacifista daquele período. Em 12 de abril de 1971, Kerry relatou no Congresso americano ter sido informado pelos próprios soldados americanos que eles tinham “estuprado, cortado orelhas, decepado cabeças, colado fios de telefones portáteis nos genitais e ligado os aparelhos, cortado lábios, explodido corpos, atirado aleatoriamente contra civis e arrasado vilarejos ao estilo Genghis Khan.”

As fontes exatas destas afirmações precisam ser apuradas. Kerry também deve responder quem, exatamente, lhe contou tais coisas, e o que, exatamente, eles dizem ter feito no Vietnã. O instrumento jurídico da prescrição protege estes indivíduos da perseguição pela confissão. Ou terá o senador Kerry simplesmente ouvido este tipo de afirmações na forma de boatos espalhados pelos membros de grupos pacifistas (muitos dos quais já desacreditados)? Para mim, esta afirmação soa examente igual à estratégia de desinformação semeada pelos soviéticos ao redor do mundo durante a época da guerra do Vietnã. A prioridade número um da KGB naquele tempo era minar o poder, o discernimento e a credibilidade americanos. Uma das ferramentas favoritas era a fabricação de evidências, como fotografias e “relatórios de notícias”, sobre inverídicas atrocidades de guerra cometidas pelos americanos. Estas mentiras eram disseminadas pelas revistas publicadas pela KGB, de onde eram então repassadas para agências de notícias respeitáveis. Muitas vezes, eram aceitas. Agências de notícias são notoriamente descuidadas sobre a verificação das fontes. Era sempre incrivelmente fácil para as organizações de espionagem do bloco soviético fabricar tais relatórios e espalhá-los pelo mundo livre.

Como chefe de espionagem e general na antiga Romênia, país satélite soviético, produzi o mesmíssimo tipo de virulência repetida por Kerry para o Congresso americano quase palavra por palavra e o plantei nos movimentos esquerdistas por toda a Europa. O chefe da KGB, Yuri Andropov, gerenciava a nossa operação contra a guerra do Vietnã. Ele sempre se gabava de ter estragado o consenso americano sobre política externa, envenenado os debates internos nos EUA e construído um hiato de credibilidade entre a opinião pública americana e a européia por meio das nossas operações de desinformação. O Vietnã era, uma vez me disse, “o nosso maior sucesso”.

Em 8 de março de 1965, a KGB organizou uma conferência de ataque em Estocolmo para condenar a agressão americana quando as primeiras tropas dos EUA chegaram ao Vietnã do Sul. Sob as ordens de Andropov, Romesh Chandra, agente pago da KGB e presidente do World Peace Council (WPC), órgão também financiado pela KGB, criou a Conferência de Estocolmo sobre o Vietnã. Ela foi criada como organização internacional permanente para apoiar ou conduzir operações para ajudar americanos a fugir do dever ou desertar, para desmoralizar as forças armadas americanas com propaganda anti-americana, realizar protestos, demonstrações e boicotes e para atacar toda e qualquer pessoa ligada à guerra. Era apoiada por oficiais da inteligência do bloco soviético disfarçados e recebeu cerca de 15 milhões de dólares por ano do departamento internacional do partido comunista – do orçamento anual de 50 milhões de dólares do WPC, em dinheiro vivo lavado. Os dois grupos tinham secretarias ao estilo soviético para gerenciar as suas atividades gerais, comitês de trabalho ao estilo soviético para conduzir as operações do dia a dia e papelada ao estilo da burocracia soviética. O discurso do senador Kerry é uma inequívoca enxurrada de slogans ao estilo soviético da época. Na minha opinião, é igualzinho a uma citação direta da proganda sensacionalista destas organizações.

A campanha da KGB para tomar de assalto os EUA e a Europa por meio da desinformação foi mais do que um simples truque sujo da Guerra Fria. Toda a política externa dos estados soviéticos, até mesmo o seu poder econômico e militar, girava em torno do objetivo soviético maior de destruir os EUA por dentro por meio do uso de mentiras. Os soviéticos viam a desinformação como uma ferramenta vital no avanço dialético do comunismo mundial.

A conferência de Estocolmo manteve encontros anuais internacionais até 1972. Em seus cinco anos de existência criou milhares de materiais “documentais” impressos em todos os principais idiomas ocidentais descrevendo os “crimes abomináveis” cometidos pelos soldados americanos contra civis no Vietnã, juntamente com fotografias falsificadas. Todo este material era fabricado pelo departamento de desinformação da KGB. Eu mesmo imprimi centenas de milhares de cópias de cada um destes materiais.

O DIE romeno (a polícia secreta de Ceausescu) tinha como missão distribuir por toda a Europa Ocidental estes “documentos incriminatórios” forjados pela KGB. E o cidadão comum normalmente engolia anzol, linha e chumbada. “Até mesmo Átila, o huno, parece um anjo comparado com os americanos” me disse, em tom de reprovação, um executivo alemão ocidental ao ler um destes relatórios.

Os partidos comunistas italianos, gregos e espanhóis alimentados por Bucareste eram muito influenciados por estes materiais e os seus ativistas regularmente distribuíam traduções. Também os panfletavam aos participantes de protestos anti-americanos ao redor do mundo.

Muitos movimentos “Ban-the-Bomb” e contrários à energia nuclear também eram operações concebidas pela KGB. Quando vejo uma petição para a paz mundial ou qualquer outra suposta causa nobre, particularmente do tipo anti-americano, não consigo deixar de pensar: “KGB”.

Em 1978, quando rompi com o comunismo, o meu DIE estava espalhando o boato de que a aventura de Washington no Vietnã havia gasto mais de 200 trilhões de dólares. Este desperdício, avisávamos soturnamente, logo geraria inflação, recessão e desemprego na Europa.

Até onde sei, a KGB deu à luz o movimento pacifista nos EUA. Em 1976, Andropov deu ao meu próprio DIE romeno crédito por ajudar a sua KGB nisso.

Os intelectuais esquerdistas americanos hoje olham para a Europa saturada por anos de propaganda anti-americana da União Soviética – para “uma crítica européia sã e franca da política de guerra da administração Bush”. Realmente, o anti-americanismo europeu hoje é quase tão feroz quanto no tempo do Vietnã. Segundo a França e a Alemanha, estamos torturando prisioneiros da al Qaeda na Base de Guantânamo. The Mirror, jornal inglês, tem certeza de que o presidente Bush e o primeiro-ministro Tony Blair estavam “matando inocentes no Afeganistão”. O jornal parisiense Le Mond colocou Jean Baudrillard na primeira página afirmando: “o ocidente judaico-cristão, liderado pelos EUA, não apenas provocaram os ataques terroristas (de 11 de setembro), mas na verdade o desejaram”.

Em junho de 2002, um documentário sobre os “crimes de guerra dos EUA” no Afeganistão foi exibido no Bundestag German pelo cripto-comunista Partido Socialista Democrata (PDS). O filme reincarnou fielmente o estilo dos antigos “documentários” do bloco soviético demonizando a guerra americana do Vietnã. De acordo com este filme de 20 minutos, os soldados americanos estiveram envolvidos em tortura e assassinato de cerca de 3 mil prisioneiros Taliban na região de Maqzar-e-Sharif. No filme, uma testemunha até mesmo diz ter visto um soldado americano quebrar o pescoço de um prisioneiro afegão e jogar ácido em outros.

Na minha última reunião com Andropov, ele disse, espertamente, “agora, basta manter vivo o anti-americanismo da era do Vietnã”. Andropov era um astuto observador da natureza humana. Sabia que no fim o nosso envolvimento inicial seria esquecido e que as nossas insinuações ganhariam vida própria. Ele sabia bem como funciona a natureza humana.

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Como os Líderes Marxistas Escondem o Passado

O texto abaixo é a tradução do artigo Lenin, Stalin, Ceausescu, Obama: How Marxist Leaders Conceal Their Pasts, publicado no PJ Media em 30 de novembro. O autor é o general Ion Mihai Pacepa, oficial de mais alta patente que desertou do bloco comunista.

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Lenin, Stalin, Ceausescu, Obama: Como os Líderes Marxistas Escondem o seu Passado

Estive ausente destas páginas por um tempo. O meu novo livro Disinformation, escrito em co-autoria com o professor Ronald Rychlak, e o documentário nele baseado monopolizaram o meu tempo. Mas, uma nauseante operação estilo glasnost em andamento nos Estados Unidos me faz sentir como se estivesse assistindo a uma reencenação da imensa glasnost que eu costumava conduzir durante a minha época como conselheiro do presidente da Romênia comunista, Nicolae Ceausescu.

Não, glasnost não é um erro de impressão ou digitação. Durante os meus anos no topo da comunidade KGB, glasnost era o codinome de uma ferramenta de inteligência ultra-secreta da ultra-secreta “ciência” negra de desinformação da KGB. A sua missão era transformar o país em um monumento ao seu líder, e retratá-lo como o próprio Deus. Isto me trouxe de volta ao JP Media e aos seus leitores, pois a glasnost só funciona para quem não sabe o que ela realmente significa.

Se você pensa que Gorbachev inventou a palavra glasnost para descrever os seus esforços na condução da União Soviética “para longe do estado totalitário e na direção da democracia, liberdade e abertura”, você não está sozinho. Toda a mídia ocidental e a maioria dos especialistas ocidentais, até mesmo os de órgãos de inteligência e defesa, acreditam nisto também – como o comitê que deu a Gorbachev o Prêmio Nobel da Paz. A venerável Enciclopédia Britânica define glasnost como “Política soviética de discussão aberta sobre questões políticas e sociais. Foi instituída por Mikhail Gorbachev no fim da década de 1980 e deu início à democratização da União Soviética”. [ i ] E o American Heritage Dictionary define glasnost como

uma política oficial do antigo governo soviético enfatizando a sinceridade na discussão de problemas e fraquezas sociais. [ ii ]

Mas glasnost é, na verdade, um velho termo russo cujo significado é dar brilho à imagem do ditador. Em meados da década de 1930 – meio século antes da glasnost de Gorbachev – a enciclopédia oficial soviética definiu a palavra glasnost como uma interpretação particular nas notícias liberadas para o público: “Dostupnost obshchestvennomy obsuzhdeniyu, kontrolyu; publichnost,”, significando a qualidade da informação disponibilizada para o controle ou para a discussão pública. [ iii ] Em outras palavras, glasnost significa, literalmente, fazer propaganda, ou seja, auto-promoção. Desde o século XVI, desde Ivan, o Terrível, o primeiro ditador a se tornar o czar de todos os russos, todos os líderes daquela nação têm usado a glasnost para se promover dentro e fora do país. Os czares comunistas adaptaram aos nossos dias a longa tradição da glasnost. A cidade de Tsaritsyn foi renomeada para Stalingrado – como São Petersburgo, assim chamada para homenagear Pedro, o Grande, foi renomeada para Leningrado para glorificar Lenin. O corpo embalsamado do mais novo santo da Rússia, Lenin, foi colocado em exibição em Moscou como uma relíquia sagrada para a adoração pública.

Como era de se esperar nos Balcãs, a glasnost romena tomou uma coloração gloriosamente bizantina. Praticamente todas as cidades tinham o seu Boulevard Gheorghiu-Dej, a sua Praça Gheorghiu-Dej, o seu Largo Gheorghiu-Dej. O retrato do seu sucessor, Nicolae Ceausescu, estava pendurado nas paredes de todos os escritórios romenos – como o busto de Putin hoje ornamenta todos os prédios da imensa burocracia russa.

Durante as eleições de 2008, quando o Partido Democrata proclamou o senador Barack Obama como um Messias americano, eu desconfiei que a glasnost havia começado a infectar os Estados Unidos. O senador concordou. Em 8 de junho de 2008, durante um discurso em New Hampshire, ele disse que o início do seu mandato presidencial seria “o momento em que a elevação dos oceanos começaria a diminuir e o nosso planeta começaria a ser curado”. [ iv ] Uma sequência indiscreta no YouTube exibida na Fox TV revelou a imagem do ídolo comunista Che Guevara pendurada na parede do escritório de campanha do senador Obama em Houston. [ v ] Logo em seguida, as assembléias eleitorais do Partido Democrata começaram a se parecer com as reuniões de despertar religioso de Ceausescu – mais de oitenta mil pessoas reunidas em frente do agora famoso templo grego semelhante à Casa Branca erguido em Denver para a aclamação do novo Messias americano.

Muitos poucos americanos consideraram esta retórica como uma nova expressão de democracia. Para mim, foi uma repetição da glasnost de Ceausescu, concebida para transformar a Romênia em um monumento a ele. “Um homem como eu só nasce a cada quinhentos anos” ele dizia sem cessar.

Estaria o senador Obama usando uma glasnost ao estilo Ceausescu? Bem, eu duvido que ele tivesse uma idéia do real significado da glasnost. Ele estava usando calças curtas – na Indonésia comunista – quando a glasnost estava na moda. Mas, quando comparo algumas das coisas que o senador, e mais tarde presidente, Obama fez, ao lado dos seus pronunciamentos públicos, com o modus operandi e a história da glasnost, eu me vejo terrivelmente perto de uma glasnost real.

Vamos fazer o exercício juntos para você julgar por si mesmo.

Em 2008, o agora falecido veterano jornalista David S. Broder comparou as táticas do senador Obama para esconder o seu passado socialista às táticas de proteção usadas pelos pilotos militares ao sobrevoar um alvo fortemente defendido por armas antiaéreas: “Eles liberam uma nuvem de fragmentos metálicos leves na esperança de confundir a mira dos projéteis ou mísseis lançados na sua direção”. [ vi ] Eis uma boa definição de glasnost.

Toda glasnost que eu conheci tinha como tarefa prioritária apagar o passado do ditador dando-lhe uma nova identidade política. A glasnost de Stalin apagou o seu horrível passado de assassino de cerca de 24 milhões de pessoas retratando-o como um deus na terra, com o seu ícone exibido proeminentemente por todo o país. A glasnost de Khruschev visava construir uma fachada internacional de paz para o homem responsável por trazer para o Ocidente os assassinatos políticos da KGB. Isto foi provado pela Suprema Corte da Alemanha Ocidental em outubro de 1962, durante o julgamento público de Bogdan Stashinsky, oficial da KGB condecorado pelo próprio Khrushchev por ter assassinado inimigos da Rússia residentes no Ocidente. [ vii ] Gorbachev, informante da KGB quando estudante da Moscow State University, [ vii ] incumbiu a sua glasnost de tirar a atenção do seu passado na KGB retratando-o como um prestidigitador que exibia uma galanteadora “Miss KGB” para os correspondentes ocidentais e era o responsável pela transformação do União Soviética em uma “sociedade marxista de pessoas livres”. [ ix ]

Em 2008, quando o senador Obama concorria para presidente, as suas políticas de tributos e o seu histórico de votos mostravam-no como “o candidato mais à esquerda jamais nomeado para presidente dos Estados Unidos”. [ x ] Você se lembra? Concorrer como socialista, entretanto, significava navegar por águas desconhecidas, e o senador decidiu dissimular a sua imagem socialista apresentando-se como um Reagan contemporâneo. [ xi ] Após ser eleito, o presidente Obama foi mais longe, exibindo-se como um Lincoln dos dias de hoje [ xii ] ou como um novo Teddy Roosevelt [ xiii ].

Os discursos de auto-promoção foram outra arma da glasnost. Os discursos da glasnost de Lenin mudaram tanto o Marxismo que os seus seguidores acabaram por chamá-lo de “Leninismo”. Stalin colocou o Marxismo, o Leninismo,  a dialética de Hegel e o materialismo de Feuerbach num mesmo balaio de glasnost e criou o seu próprio “Marxismo-Leninismo-Stalinismo”.

Os discursos da glasnost de Ceausescu eram uma ridícula mistura de Marxismo, nacionalismo e adulação bizantina chamada Ceausismo. Todos os seus discursos eram focados em Ceausescu, e todos eram tão escorregadios, indefinidos e inconstantes que ele encheu 24 volumes dos seus trabalhos reunidos sem ser capaz de descrever o real significado do Ceausismo. Em 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlin caiu, sinalizando o fim do Império Soviético. No dia 14 de novembro, Ceausescu convocou o XIV Congresso do Partido Comunista no qual fez um discurso de glasnost de quatro horas que convenceu os participantes a reelegerem a ele e à sua iletrada esposa como líderes da Romênia.

Os discursos de glasnost funcionam para quem não sabe o que a glasnost realmente significa. Eles também funcionaram para o presidente Obama. Nos seus primeiros 231 dias na Casa Branca, ele fez 263 discursos. [ xiv ] Todos eram, basicamente, sobre ele mesmo. [ xv ] O seu discurso State of Union de 2010 exibiu a palavra “Eu” 76 vezes. Em 2011, quando anunciou a morte de Osama bin Laden pelas forças americanas, o presidente Obama usou as palavras “Eu”, “mim” e “meu” 13 vezes combinadas num discurso de apenas 1300 palavras. [ xvi ] “Eu mandei o diretor da CIA… Eu me reuni repetidamente com a minha equipe de segurança nacional… Eu determinei que tínhamos inteligência suficiente para agir… Sob a minha direção, os Estados Unidos lançaram uma operação contra o Complexo de Abbottabad, no Paquistão”. [ xvii ] O discurso State of Union de 2012 do presidente Obama continha a palavra “Eu” 45 vezes, e a palavra “mim” 13 vezes. Na ocasião, ele estava na Casa Branca fazia 1080 dias, e havia feito 726 discursos. [ xviii ]

Em 2011, quando a agência S&P rebaixou a taxa de crédito dos Estados Unidos pela primeira vez na história do nosso país, o presidente Obama fez outro discurso. Foi um bom discurso, tão bom quanto um discurso pode ser – ele é um excelente orador. Mas aquele discurso foi tudo o que o presidente Obama fez. Por isso, o débito nacional aumentou, e o custo de garantia contra a inadimplência aumentou de uma base de 25 para 55 pontos.

Logo após o bárbaro assassinato do embaixador J. Christopher Stevens e três dos seus subordinados dentro do nosso posto diplomático em Benghazi, cometido na emblemática data de 11 de setembro por terroristas islâmicos assumidos, o presidente Obama fez outro discurso. Foi outro bom discurso, mas discursos não detêm o terrorismo. O subsequente ataque terrorista de 2013 na Maratona de Boston foi seguido por mais um discurso presidencial. “Extremistas domésticos. Este é o futuro do terrorismo” proclamou o presidente. Tudo o que tínhamos a fazer era fechar Guantânamo e realizar uma ligeira alteração no modo como os drones eram usados.

Poucos meses atrás, quando o governo terrorista da Síria matou cerca de 1300 pessoas com armas químicas, o presidente Obama fez diversos discursos. Mas discursar foi a sua única atitude, e isto permitiu à KGB de Putin, agora instalada no Krenlim, assumir o controle da nossa política em relação à Síria. Poucos dias atrás, quando o website do Obamacare fechou, o presidente reagiu com mais um discurso, garantindo ao país que o Obamacare “está funcionando excelentemente. Em alguns casos, na verdade, supera as expectativas”. Na opinião do jornalista do Washington Post, Ezra Klein, o discurso era quase idêntico ao que ele poderia ter feito se o lançamento de um produto tivesse ocorrido sem problemas. Ele estava certo. Foi apenas outro discurso à glasnost.

Por fim, há a tendência atual de transformar os EUA em um monumento estilo glasnost ao seu líder. Mostro abaixo uma lista de instituições e locais já nomeados em homenagem ao presidente Obama:

California: President Barack Obama Parkway, Orlando; Obama Way, Seaside; Barack Obama Charter School, Compton; Barack Obama Global Preparation Academy, Los Angeles; Barack Obama Academy, Oakland.

Florida: Barack Obama Avenue, Opa-loka; Barack Obama Boulevard, West Park.

Maryland: Barack Obama Elementary School, Upper Marlboro.

Missouri: Barack Obama Elementary School, Pine Lawn.

Minnesota: Barack and Michelle Obama Service Learning Elementary, Saint Paul.

New Jersey: Barack Obama Academy, Plainfield; Barack Obama Green Charter High School, Plainfield.

New York: Barack Obama Elementary School, Hempstead.

Pennsylvania: Obama High School, Pittsburgh.

Texas: Barack Obama Male Leadership Academy, Dallas.

Não quero dizer que o presidente Obama seja um Putin ou Ceausescu. O presidente é certamente ele mesmo – bem educado, bem falante, carismático e agradável. Pertence a uma minoria, como eu também pertenço a outra minoria. Mas ele aparentemente caiu no canto da sereia socialista e da glasnost, como eu mesmo e milhões de outros como eu em todo o mundo também caímos naquela idade da vida.

Os Estados Unidos venceram a Guerra Fria porque Ronald Reagan foi eleito presidente bem depois de ter se purgado de uma passageira paixão socialista. Foi então capaz de identificar a glasnost de Gorbachev como a fraude política que realmente era, e assim conseguiu vencê-la. Vamos torcer para que o presidente Obama faça o mesmo.

Em novembro de 2014 enfrentaremos, na minha opinião, as mais importantes eleições da história americana. Aparentemente, os eleitores decidirão quais dos dois principais partidos políticos controlará o Congresso dos EUA. Na realidade, o eleitor decidirá entre manter o nosso país como o líder do mundo livre ou transformá-lo numa irrelevância glasnost.

O PJ Media está unindo forças com o WND (o editor de Disinformation) para ajudar os seus leitores a adquirir o conhecimento para falar franca e abertamente – os inimigos a serem derrotados são o socialismo e a glasnost.

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Fontes:
[ i ] Glasnost, Britannica Concise, as published on http://concise.britanica.com/ebc/article-9365668/glasnost.
[ ii ] http://dictionary.reference.com/browser/glasnost.
[ iii ] Tolkovyy SlovarRusskogo Yazyka (Explanatory Dictionary of the Russian Language), ed. D.N. Ushakov (Moscow: “Soviet Encyclopedia” State Institute, 1935), Vol. I, p. 570.
[ iv ] http://www.youtube.com/watch?v=oQNkVmdicvA
[ v ] James Joyner, “Obama Che Guevara Flag Scandal,” Outside the Beltway, February 12, 2008, as posted at http://www.outsidethebeltway.com/archives/2008/02/obama_che_guevara_flag_scandal/.
[ vi ] David S. Broder, “Obama’s Enigma,” The Washington Post, July 13, 2008, p. B7.
[ vii ] John Barron, KGB: The Secret Work of Soviet Secret Agents (New York: Reader’s Digest Books, 1974, reprinted by Bantam Books), p. 429.
[ viii ] Zhores Medvedev, Gorbachev. New York: Norton, 1987, p. 37.
[ ix ] Mikhail Gorbachev, Perestroika: New Thinking for Our Country and the World (New York: Harper & Row, 1987), passim.
[ x ] Peter Kinder, “Missourians Reject Obama
[ xi ] Jonathon M. Seidl, Obama Compares Himself Tom Reagan: Republicans Aren’t Accusing Him Of ‘Being Socialist’”, The Blaze, October 5, 2011.
[ xii ] Alexandra`Petri, Obama is up there with Lincoln, Roosevelt, and Johnson,” The Washington Post, December 12, 2011, PostOpinions.
[ xiiii ] David Nakamura, “Obama invokes Teddy Roosevelt in speech attacking GOP policies, The Washington Post, December 6, 2011.
[ xiv ] “How Many Speeches Did Obama Give,” newswine.com, July 16, 2010, as posted on http://joysteele.newswine.com/_news/2010/07/16/4691800-how-many-speeches-did-obama-give.
[ xv ] Thomas Lifson, “Obama’s troop withdrawal speech: when politics triumphs victory,” American Thinker, June 23, 2011.
[ xvi ] “Right-Wing Media Fixated On Obama’s “Shamless” Bin Laden Speech,” MEDIAMATTERS, May 3, 2011(http://mediamatters.org/research/201105030031).
[ xvii ] George Landrith, “The ‘it’s all about me’ president,” The Daily Caller, May 5, 2011, as posted on http://dailycaller.com/2011/05/03/the-its-all-about-me-president/
[ xviii ] http://wiki.answer.com/Q/How_many_speeches_did_Obama_give (as searched in January.)

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O Ataque de Moscou ao Vaticano

O texto abaixo é a tradução de Moscow’s Assault on the Vatican, artigo de Ion Mihai Pacepa, publicado no National Review em 25 de janeiro de 2007.

O general Ion Mihai Pacepa é oficial de mais alta patente que desertou do bloco soviético. É autor de Red Horizons, livro traduzido para 27 idiomas, grandemente responsável pela queda de Ceausescu, ditador comunista da Romênia. A obra era tida pelo presidente Reagan como a sua “Bíblia para lidar com ditadores socialistas”.

O seu mais recente livro, Disinformation: Former Spy Chief Reveals Secret Strategy for Undermining Freedom, Attacking Religion, and Promoting Terrorism, em co-autoria com o professor Ronald Rychlak, foi publicado em junho de 2013.

Pacepa vive nos EUA, sob identidade secreta.

 

O Ataque de Moscou ao Vaticano

Uma das prioridades da KGB é corromper a Igreja.

A União Soviética jamais se sentiu confortável convivendo com o Vaticano no mesmo mundo. As descobertas mais recentes provam que o Kremlin estava disposto a não medir esforços para neutralizar o forte anti-comunismo da Igreja Católica.

Em março de 2006, uma comissão parlamentar italiana concluiu que “além de toda dúvida razoável, os líderes da União Soviética tomaram a iniciativa de eliminar o papa Karol Wojtyla” em retaliação à sua ajuda ao movimento dissidente Solidariedade na Polônia. Em janeiro de 2007, quando documentos mostraram a colaboração do recém-nomeado arcebispo de Warsaw, Stanislaw Wielgus, com a polícia política na época da Polônia comunista, ele admitiu a acusação e se aposentou. No dia seguinte, o prior da Catedral Wawel de Cracóvia, local de sepultamento de reis e rainhas poloneses, se aposentou pela mesma razão. Em seguida, soube-se que Michal Jagosz, um membro do tribunal do Vaticano que estuda a santidade do depois Papa João Paulo II, foi acusado de ser um antigo agente da polícia secreta comunista; de acordo com a mídia polonesa, ele foi recrutado em 1984 antes de deixar a Polônia devido a uma indicação para o Vaticano. Atualmente, está prestes a ser publicado um livro que irá revelar a identidade de outros 39 sacerdotes cujos nomes foram descobertos nos arquivos da polícia secreta de Cracóvia, alguns deles bispos atualmente. Além disso, estas revelações parecem ser apenas a ponta do iceberg. Uma comissão especial em breve iniciará uma investigação do passado de todos os religiosos durante a era comunista, quando, acredita-se, milhares de sacerdotes católicos daquele país colaboraram com a polícia secreta. Isto apenas na Polônia – os arquivos da KGB e os da polícia política nos demais países do antigo bloco soviético ainda precisam ser abertos para investigar as operações contra o Vaticano.

Na minha outra vida, quando estava no centro das guerras de inteligência estrangeira de Moscou, me vi pego em um esforço deliberado do Kremlin para manchar a reputação do Vaticano, retratando o Papa Pio XII como um frio simpatizante do nazismo. No fim das contas, a operação não causou nenhum dano duradouro, mas deixou um amargo sabor residual de difícil eliminação. A história jamais foi contada antes.

O ATAQUE À IGREJA

Em fevereiro de 1960, Nikita Khrushchev aprovou um plano ultra-secreto para destruir a autoridade moral do Vaticano na Europa Ocidental. O plano era um criativo fruto de Aleksandr Shelepin, chefe da KGB, e de Aleksey Kirichenko, membro do Politburo soviético responsável por políticas internacionais. Até aquele momento, a KGB tinha lutado contra o seu “inimigo mortal” na Europa Oriental, onde a Santa Sé havia sido cruelmente atacada como um covil de espiões a soldo do imperialismo americano, e os seus representantes haviam sido sumariamente presos sob acusação de espionagem. Agora, Moscou queria desacreditar o Vaticano imputando-lhe a pecha de bastião do nazismo, usando os seus próprios sacerdotes, em seu próprio território.

Eugenio Pacelli, o Papa Pio XII, foi escolhido como alvo prioritário da KGB, a sua encarnação do demônio, pois havia deixado este mundo em 1958. “Mortos não podem se defender” era o slogan da KGB na época. Moscou acabara de ganhar um olho preto por ter falsamente incriminado e encarcerado um prelado do Vaticano, o cardeal József Mindszenty, primaz da Hungria, em 1948. Durante a revolução húngara de 1956, ele escapara da prisão e pedira asilo na embaixada americana em Budapeste, onde começou escrever as suas memórias. Quando os detalhes de como ele havia sido condenado se tornaram conhecidos de jornalistas ocidentais, foi visto por todos como um santo herói e mártir.

Como Pio XII havia servido como núncio papal em Munique e Berlin quando os nazistas estavam iniciando a sua tentativa de chegar ao poder, a KGB queria retratá-lo como um anti-semita encorajador do Holocausto. O desafio era realizar a operação sem dar o menor sinal do envolvimento do bloco soviético. Todo o trabalho sujo devia ser feito por mãos ocidentais, usando evidências do próprio Vaticano. Isto corrigiria outro erro cometido no caso de Mindszenty, incriminado com documentos soviéticos e húngaros falsificados. (Em 6 de fevereiro de 1949, alguns dias após o julgamento de Mindszenty, Hanna Sulner, a especialista húngara em caligrafia que havia fabricado a “evidência” usada para incriminar o cardeal, fugiu para Viena e exibiu os microfilmes dos “documentos” em que se baseara o julgamento encenado. Hanna demonstrou, em um testemunho minuciosamente detalhado, que os documentos eram todos forjados, produzidos por ela, “alguns pretensamente escritos pelo cardeal, outras exibindo a sua suposta assinatura”.

Para evitar outra catástrofe como a de Mindszently, a KGB precisava de alguns documentos originais do Vaticano, mesmo remotamente ligados a Pio XII, os quais os seus especialistas em desinformação poderiam modificar levemente e projetar “na luz apropriada” para provar as “verdadeiras cores” do Papa. A KGB, entretanto, não tinha acesso aos arquivos do Vaticano, e aí entrou o meu DIE, o serviço romeno de inteligência estrangeira. O novo chefe do serviço de inteligência estrangeira soviético, general Aleksandr Sakharovsky, havia criado o DIE em 1949 e havia sido até pouco tempo antes o nosso conselheiro-chefe soviético; o DIE, ele sabia, estava em excelente posição para contactar o Vaticano e obter aprovação para pesquisa em seus arquivos. Em 1959, quando fui nomeado para a Alemanha Oriental no disfarçado cargo de representante-chefe da Missão Romena, havia conduzido uma “troca de espiões” na qual dois oficiais do DIE (coronel Gheorghe Horobet e major Nicolae Ciuciulin), pegos com em flagrante na Alemanha Ocidental, foram trocados pelo bispo católico Augustin Pacha, preso pela KGB sob uma espúria acusação de espionagem, e que finalmente retornava ao Vaticano via Alemanha Ocidental.

INFILTRAÇÃO NO VATICANO

“Seat 12” era o codinome dado a esta operação contra Pio XII e eu me tornei o seu ponta-de-lança romeno. Para facilitar o meu trabalho, Sakharovsky me autorizou a informar (falsamente) o Vaticano que a Romênia estava pronta para restabelecer as relações cortadas com a Santa Sé, em troca ao acesso aos seus arquivos e um empréstimo sem juros de um bilhão de dólares por 25 anos. (As relações da Romênia com o Vaticano haviam sido cortadas em 1951, quando Moscou acusou a nunciatura do Vaticano na Romênia de ser um front da CIA disfarçado e fechou os seus escritórios. Os edifícios da nunciatura em Bucareste haviam sido revertidos ao DIE e hoje abrigam uma escola de idioma estrangeiro.) O acesso aos arquivos papais, eu havia dito ao Vaticano, era necessário para encontrar raízes históricas que ajudariam o governo romeno a justificar publicamente a sua mudança de atitude em relação à Santa Sé. O bilhão de dólares (não, isto não é erro de digitação), me disseram, havia sido introduzido no jogo para tornar a alegada mudança de opinião romena mais plausível. “Se há uma coisa que estes monges entendem é dinheiro” disse Sakharovsky.

O meu anterior envolvimento na troca do bispo Pacha pelos dois oficiais do DIE realmente abriram as portas para mim. Um mês após ter recebido as instruções da KGB, fiz meu primeiro contato com um representante do Vaticano. Por razões de segredo, o encontro – e a maioria das reuniões seguintes – ocorreu em um hotel em Genebra, Suíça. Fui apresentado a um “membro influente do corpo diplomático” que, me disseram, havia começado a carreira trabalhando nos arquivos do Vaticano. O seu nome era Agostino Casaroli, e eu logo perceberia a sua grande influência. Imediatamente, este monsenhor deu-me acesso aos arquivos do Vaticano, e logo três jovens oficiais do DIE disfarçados de sacerdotes romenos estavam mergulhados nos arquivos papais. Casaroli também concordou “em princípio” com o pedido de Bucareste pelo empréstimo sem juros, mas disse que o Vaticano desejava impor certas condições. (Até 1978, quando deixei a Romênia para sempre, eu ainda estava negociando o empréstimo, diminuído então para 200 milhões de dólares.)

Durante os anos 1960-62, o DIE conseguiu furtar dos Arquivos do Vaticano e da Biblioteca Apostólica centenas de documentos ligados, de alguma forma, ao Papa Pio XII. Tudo era imediatamente enviado para a KGB por um correio especial. Na realidade, nenhum material incriminador contra o Pontífice emergiu de todos aqueles documentos secretamente fotografados. A maior parte eram cópias de cartas pessoais e transcrições de reuniões e discursos, tudo formatado na rotineira linguagem diplomática esperada. A KGB, entretanto, continuava pedindo mais documentos. E nós enviávamos mais.

A KGB PRODUZ UMA PEÇA

Em 1963, o general Ivan Agayants, o famoso chefe do departamento de desinformação da KGB, foi a Bucareste para nos agradecer pela ajuda. Disse-nos que o “Seat-12” havia se materializado em uma poderosa peça de ataque contra o Papa Pio XII, intitulada The Deputy (O Representante), uma referência indireta ao Papa como representante de Cristo na terra. Agayants levou o crédito pelo formato da peça, e nos disse que ela tinha extensos apêndices de documentos para lhe dar sustentação, anexados pelos seus especialistas com a ajuda de documentos furtados por nós do Vaticano. Agayants também nos disse que o produtor da The Deputy, Erwin Piscator, era um comunista devoto com um relacionamento de longa data com Moscou. Em 1929, ele havia fundado o Teatro do Proletariado em Berlim, e em seguida procurado asilo político na União Soviética quando Hitler chegou ao poder, e, poucos anos depois, “emigrou” para os EUA. Em 1962, Piscator voltou a Berlim Ocidental para produzir The Deputy.

Em todos os meus anos na Romênia, sempre lidei com os meus chefes da KGB com um certo cuidado pois eles costumavam manejar os acontecimentos de forma a fazer a inteligência soviética a mãe e o pai de tudo. Mas eu tinha razões para acreditar na declaração auto-elogiosa de Agayants. Ele era uma lenda viva no campo da desinformação. Em 1943, morando no Irã, Agayants lançara o relatório de desinformação segundo o qual Hitler havia montado uma equipe especial para sequestrar o presidente Franklin Roosevelt da embaixada americana em Teerã durante a Conferência de Cúpula Aliada a ser realizada lá. Por isso, Roosevelt concordou em montar o seu quartel-general em uma vila sob a “segurança” do complexo da Embaixada Soviética, protegida por uma grande unidade militar. Todo o pessoal soviético designado para aquela vila era composto por oficiais de inteligência disfarçados, com domínio do idioma inglês, mas, com poucas exceções, eles mantinham isto em segredo para poderem escutar as conversas. Mesmo com as capacidades técnicas limitadas da época, Agayants conseguiu proporcionar a Stalin, de hora em hora, relatórios de acompanhamento sobre os hóspedes americanos e britânicos. Isto ajudou Stalin a obter o acordo tácito de Roosevelt para deixá-lo manter sob domínio os países bálticos e os demais territórios ocupados pela União Soviética em 1939-40. Agayants também levou o crédito por ter induzido Roosevelt a usar o familiar tratamento “Tio Joe” para Stalin naquele encontro. De acordo com o relato de Sakharovsky para nós, Stalin estava mais orgulhoso disso até mesmo do que dos territórios ganhos. “O aleijado é meu!” teria exultado.

Exatamente um ano antes do lançamento da peça The Deputy, Agayants realizou outra ação bem sucedida. Inventou um manuscrito concebido para convencer o Ocidente de que, no fundo, o Kremlin pensava bem dos Judeus; isto foi publicado na Europa Ocidental, com muito sucesso entre o público, na forma de um livro intitulado Notes for a Journal. O manuscrito foi abribuído a Maxim Litvinov, nascido Meir Walach, o aposentado comissário soviético para relações exteriores, demitido em 1939 quando Stalin purgou o seu aparato diplomático de judeus em preparação para a assinatura do pacto de “não-agressão” com Hitler. (O Pacto de Nâo-Agressão Stalin-Hitler foi assinado em 23 de agosto de 1939 em Moscou. Continha um Protocolo secreto dividindo a Polônia entre os dois signatários e dava aos soviéticos autoridade sobre Estônia, Letônia, Finlândia, Bessarábia e Bucovina do Norte.) Este livro de Agayants estava tão perfeitamente falsificado que o mais proeminente estudioso da Rússia Soviética, o historiador Edward Hallet Carr, ficou totalmente convencido da sua autenticidade e até escreveu uma introdução para ele. (Carr havia escrito uma História da Rússia Soviética, em 10 volumes.)

A peça The Deputy foi lançada em 1963 como um trabalho de um desconhecido alemão oriental chamado Rolf Hochhuth, sob o título Der Stellvertreter. Ein christliches Trauerspiel (The Deputy, a Christian Tragedy). A tese central era que Pio XII havia apoiado Hitler e o encorajara a ir adiante com o Holocausto Judeu. O livro acendeu imediatamente uma gigantesca controvérsia acerca de Pio XII, descrito como um homem frio e sem coração, mais preocupado com as propriedades do Vaticano do que com o destino das vítimas de Hitler. O texto original apresentava uma peça de oito horas, apoiada por cerca de 40 a 80 páginas (dependendo da edição) do que Hochhuth chamou “documentação histórica”. Em um artigo de jornal publicado na Alemanha em 1963, Hochhuth defende a sua representação de Pio XII dizendo: “Os fatos estão aí – quarenta páginas repletas de documentos no apêndice da minha peça.” Em uma entrevista de rádio em Nova Iorque em 1964, quando The Deputy foi lançada lá, Hochhuth disse “Eu considerei necessário adicionar à peça um apêndice histórico, cinquenta a oitenta páginas (dependendo do tamanho da impressão)”. Na edição original, o apêndice é intitulado “Historische Streiflichter” (fragmentos históricos). The Deputy foi traduzida para cerca de 20 idiomais, drasticamente cortada e normalmente sem o apêndice.

Antes de escrever The Deputy, Hochhuth, que não tinha diploma secundário (Abitur), estava trabalhando em diversos trabalhos desimportantes para o grupo editorial Bertelsmann. Em entrevista, declarou que em 1959 obtivera uma licença de ausência de trabalho e ido para Roma, onde passara três meses conversando e em seguida escrevento o primeiro rascunho da peça, e onde havia proposto uma “série de questões” a um bispo cujo nome recusou a revelar. Pouco provável! Quase na mesma época, eu costumava visitar o Vaticano regularmente como representante credenciado de um chefe de estado, e nunca encontrei nenhum bispo tagarela para conversar no corredor comigo – e não foi por falta de tentativa. Os oficiais ilegais do DIE infiltrados por nós no Vaticano também encontraram quase as mesmas dificuldades insuperáveis para penetrar nos arquivos secretos do Vaticano, mesmo com o inexpugnável disfarce de sacerdote.

Nos meus velhos tempos do DIE, quando podia pedir ao meu chefe pessoal, general Nicolae Ceausescu (o irmão do ditador) para me dar um relatório detalhado do arquivo de algum subordinado, ele sempre perguntava “Para promoção ou demoção?” Durante os seus primeiros dez anos de vida, The Deputy tendeu na direção da demoção do Papa. Gerou uma enxurrada de livros e artigos, alguns acusando outros defendendo o pontífice. Alguns chegaram até a jogar a culpa pelas atrocidades em Auschwitz nas costas do Papa, outros meticulosamente reduziram os argumentos de Hochhuth a pó, mas todos contribuíram para a enorme atenção recebida na época por esta peça trapaceira. Hoje, muitas pessoais que jamais ouviram falar na The Deputy estão sinceramente convencidas que Pio XII foi um homem frio e malvado que odiava os judeus e ajudou Hitler a eliminá-los. Como Yury Andropov, o chefe da KGB e o inigualável mestre da enganação soviética, costumava me dizer, as pessoas são mais aptas a acreditar em sujidade do que em santidade.

CALÚNIAS ENFRAQUECIDAS

Em meados da década de 1970, The Deputy começou a perder força. Em 1974, Andropov admitiu para nós que, soubéssemos na época o que sabemos hoje, jamais teríamos ido atrás do Papa Pio XII. Referia-se a informações recentemente liberadas mostrando que Hitler, longe de ser amigo de Pio XII, na verdade tramou contra ele.

Poucos dias antes da admissão de Andropov, o antigo comandante supremo do esquadrão da SS alemã (Schutztaffel) na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, general Friedrich Otto Wolff, havia sido solto da cadeia e confessado que em 1943 Hitler havia ordenado a ele raptar o Papa Pio XII do Vaticano. Aquela ordem havia sido tão confidencial que jamais foi trazida à tona após a guerra em nenhum arquivo nazista. Nem surgiu em nenhuma das inúmeras prestações de contas de oficiais da Gestapo e SS conduzidas pelos Aliados vitoriosos. Segundo a sua confissão, Wolff teria replicado a Hitler que a ordem levaria seis semanas para ser cumprida. Hitler, que culpava o Papa pela derrota do ditador italiano Benito Mussolini, queria a ordem cumprida imediatamente. Por fim, Wolff persuadiu Hitler que haveria uma forte reação negativa se o plano fôsse implementado, e o Führer o abandonou.

Também em 1974, o cardeal Mindszenty publicou o seu livro Memoirs, no qual descreve em dolorosos detalhes como foi falsamente incriminado na Hungria comunista. Com provas baseadas em documentos fabricados, ele foi acusado de “traição, mal uso de moeda estrangeira e conspiração”, ofensas “todas passíveis pena de morte ou prisão perpétua”. Ele também desceve como a sua falsa “confissão” ganhou então vida própria. “Qualquer um, parecia para mim, podia ter reconhecido imediatamente este documento como uma falsificação grosseira, pois era o produto de um trabalho malfeito e de uma mente inculta”, escreveu o cardeal. “Mas quando depois eu li os livros, jornais e revistas estrangeiros que lidaram com o meu caso e comentaram a minha “confissão”, percebi que o público deve ter concluído que a “confissão” havia sido realmente feita por mim, apesar de em estado semiconsciente e sob a influência de lavagem cerebral… e a polícia ter publicado um documento fabricado por ela mesma parecia muito descarado para se acreditar”. Além do mais, Hanna Sulner, a especialista em caligrafia húngara usada incriminar o cardeal, que havia escapado para Viena, confirmou ter forjado a “confissão” de Mindszenty.

Alguns anos depois, o Papa João Paulo II iniciou o processo de beatificação de Pio XII, e testemunhas do mundo inteiro provaram, de modo constrangedor para os adversários, que Pio XII era um inimigo, não um amigo, de Hitler. Israel Zoller, o rabi-chefe de Roma entre 1943-44, quando Hitler tomou a cidade, devotou um capítulo inteiro das suas memórias louvando a liderança de Pio XII. “O Santo Padre enviou uma carta para ser entregue em mãos aos bispos instruindo-os para levantar o claustro de conventos e monastérios, para poderem se tornar refúgio para os judeus. Sei de um convento onde as Irmãs dormiram no porão, emprestando as suas camas para os refugiados judeus”. Em 25 de julho de 1944, Zoller foi recebido pelo Papa Pio XII. Notas tomadas pelo secretário de estado do Vaticano, Giovanni Battista Montini (que se tornaria o Papa Paulo VI) mostram a gratidão do rabi Zoller ao Santo Padre por toda a sua ajuda para salvar a comunidade judaica em Roma – e os seus agradecimentos foram transmitidos pelo rádio. Em 13 de fevereiro de 1945, o rabi Zoller foi batizado pelo bispo auxiliar de Roma, Luigi Traglia, na igreja de Santa Maria degli Angeli. Em agradecimento a Pio XII, Zoller tomou o nome cristão de Eugênio (o nome do Papa). Um ano depois, a esposa e a filha de Zoller também foram batizadas.

David G. Dalin, em The Myth of Hitler´s Pope: How Pope Pius XII Rescued Jews From the Nazis, publicado poucos meses atrás, compilou provas indiscutíveis da amizade de Eugenio Pacelli pelo judeus iniciada bem antes dele ser papa. No começo da Segunda Guerra Mundial, a primeira encíclica do Papa Pio XII foi tão anti-Hitler que a Real Força Aérea e a força aérea francesa lançaram 88 mil cópias dela sobre a Alemanha.

Ao longo dos 16 últimos anos, a liberdade de religião foi restaurada na Rússia e uma nova geração vem lutando para desenvolver uma nova identidade nacional. Só podemos esperar que o presidente Vladimir Putin decida abrir os arquivos da KGB e os coloque sobre a mesa, para todos verem como os comunistas caluniaram um dos mais importantes Papas do último século.

***

High Noon for America

O texto abaixo é a tradução do artigo publicado em 2 de setembro no Front Page Magazine. O autor, general Ion Mihai Pacepa, é o oficial de mais alta patente que obteve asilo político nos EUA. O seu livro mais recente, “Disinformation”, em co-autoria com o professor Ronald Rychlak, pode ser adquirido na loja do WND.

High Noon for America

De vez em quando aparece um grande livro – que, como um grande vinho tinto – fica melhor com o passar do tempo. “High Noon for America”, de autoria do editor do FrontPage Magazine, Jamie Glazov, é um destes raros tipos de livro.

Este trabalho de tirar o fôlego foi publicado em 2012, logo após a nossa intervenção militar na Líbia, e, acertadamente, começa com uma análise profunda da política da administração americana para o Oriente Médio. No momento, estamos lidando com uma intervenção similar na Síria, e eu recomendo fortemente, a todos os minimamente interessados em política externa e na paz a longo prazo, reler este livro.

“High Noon for America” não é um livro de Jamie Glazov. É um livro dos EUA, concebido e desenvolvido ao longo de muitos anos de diálogo de alto nível entre Jamie e alguns dos maiores e mais confiáveis especialistas da atualidade em política externa, inteligência, negociações políticas, economia e religião. Alguns deles: Robert McFarlane, conselheiro de segurança nacional do presidente Reagan, Richard Pipes, antigo membro do National Security Council, uma das principais autoridades mundiais sobre história soviética, Natan Sharansky, ex-prisioneiro soviético e, posteriormente, membro do gabinete israelense, Roger L. Simon, roteirista premiado, fundador e CEO do PJMedia, Vladimir Bukovsky, antigo líder soviético dissidente e candidato a presidente da Rússia pós-soviética, e Michael Ledeen, a maior autoridade americana sobre o Irã. Transparência total: eu também contribui para o livro de Jamie Glazov, e há muito tempo contribuo com o FrontPage.

Todos nós queremos ver o sucesso da democracia na Líbia. A nossa precipitada intervenção naquele país, entretanto, gerou o caos e o terrível assassinato do embaixador americano J. Christopher Stevens, e isso não pode se repetir na Síria. Poucas pessoas mais do que eu queriam ver Gadhafi removido do poder. Ele ofereceu uma recompensa de 2 milhões de dólares pela minha cabeça porque eu revelei os seus esforços secretos para armar terroristas internacionais com armas químicas e outras armas de destruição em massa. Mas vinganças pessoais contra Gadhafi – e agora contra Bashar al-Assad – não podem orientar a política dos EUA.

O recente fechamento temporário de 21 embaixadas americanas por medo de terrorismo, pela primeira vez na história, mostra que não precisamos de mais intervenções como a da Líbia. Elas geram ódio, não paz. Necessitamos de uma política externa coerente, orientada à proteção do nosso país contra a praga do terrorismo. O antigo diretor da CIA, James Woolsey, nos alertou pouco tempo atrás que a Congressional Electromagnetic Pulse Commission e a Congressional Strategic Posture Commission demonstraram que a detonação de uma arma nuclear pequena sobre qualquer parte do território americano pode gerar um pulso eletromagnético catastrófico. Apenas uma pequena explosão nuclear, que até mesmo o ditador terrorista da Coréia do Norte já é capaz de causar, poderia colocar em colapso toda a malha elétrica americana e a infraestrutura dela dependente – comunicação, transporte, serviços bancários e financeiros, alimentação e água – necessárias para manter a moderna civilização e a vida de 300 milhões de americanos.

Não sei como deveria ser a nossa política anti-terrorismo. Não tenho acesso a informações secretas e não tenho pretensões de ser o comandante. Os tagarelas sabe-tudo da mídia americana não são mais sábios do que eu. Entretanto, tenho uma boa razão para sugerir à nossa administração e ao Congresso a leitura atenta do relatório NSC 68/1950 do presidente Truman.

Nas palavras do relatório National Council Report 68, de 1950, que definiu a estratégia para vencer a Guerra Fria, “Os problemas que enfrentamos são graves, envolvendo a sobrevivência ou a destruição não apenas desta República mas da própria civilização”. Assim, o NSC 68/1950 focou na criação de uma “nova ordem mundial” centrada nos valores capitalistas liberais americanos e continha uma estratégia política “de dois dentes”: poder militar superior e uma “Campanha da Verdade”, definida como “uma luta, acima de tudo, pela mente dos homens”. Truman argumentou que a propaganda usada pelas “forças do imperialismo comunista” só podia ser derrotada pela “verdade plena, absoluta e simples”. A Voice of America, a Radio Free Europe e a Radio Liberation (logo em seguida chamada de Radio Liberty) tornaram-se parte da “Campanha da Verdade” de Truman.

Os desafios que enfrentamos são, mais uma vez, graves, e não podemos resolvê-los com mais tiros de advertência como foi feito na Líbia. Necessitamos de uma nova e coerente política externa e de uma nova “Campanha da Verdade” para lidar com os nossos problemas atuais. Também precisamos voltar a ler o livro de Glazov. Alguns dos mais eminentes especialistas da inteligência e da política envolvidos na implementação do NSC 68/1950 e na vitória da Guerra Fria estão lá, nos ensinando como podemos usar aquela experiência única para proteger o nosso país hoje.

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Nota do Editor da FrontPage Magazine: para assistir a entrevista na qual Jamie Glazov comenta High Noon for America e outros trabalhos, veja abaixo:

Parte I: http://www.youtube.com/watch?v=SNJg6w6CB0o

Parte II: http://www.youtube.com/watch?v=6sBPH589Feo

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