Sete Alegrias

"Alegra-Te, Cheia de Graça…"

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Dispostos a tudo

O aluno recusou-se a pagar o que devia ao professor. Má hora. Porque o Caloteiro não era aluno de um curso qualquer, era aluno de karatê, e o sensei, acostumado a se desviar de soco na cara e aparar chute nos países baixos, não ia se deixar abater por uma simples rasteira.

O valor não era pequeno, e o professor não teve dúvidas: reuniu 60 karatecas e foi jantar na churrascaria do Aluno Caloteiro, empresário do ramo grastronômico. Meu amigo Zé, especialista em confusão, era um dos alegres convivas.

Finda a farta refeição, o Caloteiro apresentou a conta ao sensei, uma gorda conta, pois os famintos e insaciáveis praticantes tinham fome de leão já que precisavam repor a energia de quem passa horas dando chutes verticais.

– Mas, o que é isso? perguntou o surpreso sensei. Conta? Que conta, se eu não devo nada? Não estou entendendo…

Enfurecido, o Aluno-Empresário-Caloteiro vociferou:

– Ou paga ou eu chamo a polícia.

– Pode chamar. Mas, antes da polícia chegar, o prejuízo vai ser grande. Eis que estou com 60 karatecas, 60 homens dispostos a tudo. Quando a polícia chegar, vai ter mesa espetada no teto. E, na volta da delegacia, vamos atalhar por aqui…

O apatetado Caloteiro olhou ao redor e não gostou do que viu. Sessenta trogloditas em ponto de bala, molas prestes a pular, esperando feito gatos, prontos para entrar em combate à menor ordem do chefe. Polícia? Talvez um batalhão da tropa de choque para dar conta dos alentados artistas marciais! O Caloteiro achou mais barato, ou mais prudente, deixar pra lá.

Esta singela e construtiva história me faz desejar – a mim e a você, cara leitora, caro leitor –, esta mesma energia para buscarmos a realização de todos os nossos sonhos no novo ano que se avizinha.

E desejar que, pelo nosso ideal de vida, estejamos também dispostos a tudo.

Feliz Ano Novo!

***

Seô Habão

No romance Grande Sertão: Veredas, o principal protagonista é Riobaldo, raso jagunço atirador, que depois vira chefe. O bando dele passava pelas terras de Seô Habão, fazendeiro avarento. Riobaldo observa o homem e compara a luta dos jagunços com a vida mesquinha do fazendeiro, cuja cobiça reduzia toda a criação a coisas a seu serviço.

Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos!

A vida é feita de escolhas, disse Viktor Frankl. Entre o estímulo e a resposta há um intervalo; neste intervalo, reside a liberdade de escolher a resposta; na resposta, reside a nossa felicidade.

Ao responder à vida, seô Habão escolhera a cobiça, a avareza, a mesquinharia, o dinheiro a qualquer custo. Como consequência, colheu a frieza do olhar (ele conservava os olhos sem olhar, num vagar vago, circunspecto) e colheu a frieza da voz (e ouvir ele acrescentar assim, com a mesma voz, sem calor nenhum, deu em mim, de repente, foram umas nervosias). Habão reduzia as pessoas a animais, tratava os empregados como se fossem juntas de bois em canga, criaturas de toda proteção apartadas. Cada pessoa, cada bicho, cada coisa obedecia. Nós íamos virando enxadeiros. Tudo se encaixava nos seus tristes cuidados domésticos (E ele cumpria sua sina, de reduzir tudo a conteúdo).

(A expressão “triste cuidados domésticos” é uma frase de Saint-Exupéry, no livro Terra dos Homens, para definir o curto alcance de visão e a falta de ideais.)

Zeca Pagodinho resumiu bem a influência do dinheiro na vida das pessoas “Quando você tem mais poder de grana, a religião fica um pouco de lado. Quanto mais rico, mais descrente.”

Ou, como diz o meu amigo Zé, “quando você encontrar um rico feliz, me mostre, porque eu ainda não vi nenhum”.

Rumo à caduca felicidade deste mundo, Habão se afastava da felicidade eterna. Calculava, conservava e juntava. Certamente, pensava Oh, alma minha, come, bebe e regala-te pois tens bens juntados para muitos anos.

Mas Cristo lhe diz: Habão, seu bobão, quando você morrer, os bens que juntastes, para quem ficarão?

– Esta noite darás conta da tua alma.

 

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